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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Belém-Brasília – Ano 10


Belém-Brasília – Ano 10  - Gente de Opinião

Bagé, RS, 29.04.2026

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 969, Rio de Janeiro, RJ

Sábado, 14.11.1970

 

Belém-Brasília – Ano 10

(Reportagem de Paulo Rehder)

 

 

Quando o primeiro caminhão uniu o Norte ao Centro do País, em 1960, viviam ao longo dessa estrada menos de 50 mil pessoas. Hoje, quando por aqui passam mil caminhões por dia, dois milhões de pessoas habitam dezenas de cidades novas que não param de crescer. Assim é a “Belém-Brasília”.

 

Rialma, Porangatu, Crixás, Cana Brava, Gurupi, Guaraí, Rio Tranqueira, Nova Olinda, Rio Lontra, Araguaína, Tocantins, Tocantinópolis, Estreito, Imperatriz, Paragominas, Candiru-Açu, Ipixuna, Graças a Deus, Santa Maria, Castanhal, Belém.

 

São algumas cidades e rios. Compõem o Poema Épico que está sendo escrito há dez anos. Poderá ser mais brilhante, se assinado por Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade. Porém seus autores são homens rudes, pioneiros corajosos e audazes pouco afeitos à poesia-literatura. Eles construíram cidades, vadearam Rios e fizeram uma estrada, que já foi das onças; mas que hoje é do homem e do seu progresso – a Belém-Brasília.

 

Durante 144 horas, seis dias, percorremos os 2.080 km da Rodovia Bernardo Saião, no sentido Brasília-Belém. Dez anos depois de começarem a trafegar em toda sua extensão os primeiros carros e caminhões. Das primeiras “picadas”, abertas a partir de 1956, pouco resta. As cabanas de palha de babaçu, as pensões, restaurantes e postos de gasolina de 1960 hoje são cidades que “crescem como câncer”, rápida e indisciplinadamente, como disse um pioneiro.

 

Entre elas, novas cabanas vão se levantando do cerrado ou da floresta. São as cidades de amanhã, vilas pobres de hoje. Onde houver uma pensão de mulheres, um restaurante e um posto de gasolina, poderá haver em breve uma nova cidade.

Este tem sido o processo normal de povoamento da estrada, atualmente cercada por mais de dois milhões de habitantes, espalhados em cidades, vilas, lugarejos e fazendas de pecuária ou agricultura.

 

Apesar do progresso percorrer todo planalto goiano, os cerrados do Maranhão e o início da planície amazônica do Pará ainda são uma aventura. Ela começa suavemente, no asfalto da BR-060, que liga Brasília a Anápolis. São 120 km. Um asfalto cansado e machucado. Nas margens, com a vegetação retorcida do cerrado goiano ao fundo, crianças vendem morangos, jabuticabas e laranjas.

 

A Epopeia Começou há 14 Anos.

Bernardo Saião, o Pioneiro, não Pôde ver a Abertura da Estrada em 1960

Belém-Brasília – Ano 10  - Gente de Opinião

O tráfego é intenso. São caminhões, camionetes e alguns carros. Trinta minutos, a Variant numa média de 100 km/h, surge Alexânia, vila cortada pela estrada, com bares, restaurantes e posto de gasolina. Depois, Abadiânia e Anápolis, velha cidade goiana com mais de cem mil habitantes, cercada por pastos verdejantes. É parecida com muitas outras cidades goianas, mineiras ou paulistas: praça, igreja, cinema, clube e, o orgulho dos moradores, dois arranha-céus. Próximo à saída de Anápolis uma placa do DNER dá a dimensão da aventura: Ceres, 140 km; Gurupi, 574 km; Imperatriz, 1.376 km; Belém, 1.960 km.

 

Ali, onde se estende um manto de asfalto, começou há catorze anos a epopeia de dois visionários: Juscelino Kubitschek e Bernardo Saião, que não pôde ver concluída sua obra. Numa chicotada de audácia e coragem, rasgaram um vergão no dorso dos cerrados do Planalto Central e da floresta amazônica. Um vergão que jamais cicatrizou e que é, de fato, a primeira obra de integração nacional.

 

O asfalto se estende por mais 109 km. É uma pavimentação mais cuidada, ainda nova. Ao lado, pastos verdes e plantações de arroz, milho e feijão do Vale de São Patrício dão a dimensão da importância da rodovia, tão combatida quando idealizada. Os caminhões passam lotados nos dois sentidos. Uns carregando bois, outros mantimentos e equipamentos para abastecer o Norte de Goiás, Oeste do Maranhão ou mesmo o Sul do Pará e Belém. Provêm, em sua maioria, do interior de São Paulo e andam em caravanas. De vez em quando, uma boiada surge no horizonte, atravessando o asfalto. É hora de diminuir a marcha.

 

Em menos de uma hora, a Variant devora os 109 km de asfalto. Daqui para frente é o reinado da poeira, do cascalho e das costelas, sucessão contínua de minilombadas, os maiores inimigos do motorista. Para chegar a Belém, ele terá de atravessar uma distância que daria para cortar os territórios da Alemanha e França juntos. Para trás, ficam um posto de gasolina e uma churrascaria, a Serra Dourada, classificada como regular no mapa da Rodobrás. Aproximam-se Ceres e Rialma, cidades gêmeas a 159 km de Anápolis, 50 dos quais de poeira, costelas e cascalho. Aí começa a luta para evitar que uma pedra, lançada por caminhão, jipe ou pick-up, estilhace o vidro dianteiro. Por isso, é aconselhável pressionar com a mão o para-brisa no cruzamento com outros veículos. Muitos dos que não acreditam neste expediente terminam rápido a aventura. E estes são numerosos. É comum encontrar pequenos montes de vidro estilhaçado. Mais adiante, o carro que capotou.

 

Em dezenove de fevereiro de 1941, o Presidente Getúlio Vargas, interessado em promover a interiorização do País, criava por decreto a Colônia Agrícola Nacional. Para dirigi-la, designou um jovem agrônomo, Bernardo Saião. No lombo de burro, ele saiu de Anápolis e fundou uma cidade, Ceres, hoje uma das mais ricas do estado. Transformada em município em 53, conta hoje com uma população de cerca de 50 mil habitantes, dos quais 15 mil na sede. A seu lado, apenas separada pelo rio das Almas, Rialma, município bem menor, é centro da boêmia de Ceres, com alguns bares e cabarés onde as músicas do cantor cubano Bienvenido Granda ainda fazem muito sucesso.

 

Para uma arrecadação anual em torno de dois milhões de cruzeiros, Ceres diminuiu um pouco o ritmo de progresso depois que a estrada começou a passar ao largo, é o que dizem os moradores. Hotéis, os melhores são o Tropical e o Ceres. Por cinco cruzeiros, inclusive café da manhã, se consegue um quarto, piso de cimento, teto sem forro, colchão de mola, estrado e guarda-roupa. Simples, mas limpo.

 

A comida, cada refeição também custa cinco cruzeiros, é farta e bem feita, com aquele tempero caseiro. Não há serviço à “la carte”. Basta sentar-se à mesa e pedir a refeição. Em poucos minutos desaba sobre a toalha uma enxurrada de pratos: bife acebolado, carne de porco, frango assado e ensopado, salada de tomates e alface, jiló, piqui cozido, batata cozida, aipim frito e cozido, peixe, salada de chicória, arroz, feijão, macarrão e sopa. O refrigerante ou a cerveja, sempre bem gelados, são pagos à parte. Quem resistir ainda tem o direito de pedir a sobremesa, fruta da época ou queijo com goiabada. O cafezinho já vem adoçado. Este, com pequenas variações, é o menu de todos os restaurantes da Belém-Brasília, sempre o mesmo preço e com direito à repetição grátis.

 

Na Primeira Cidade, Ceres, não Falta nem Mesmo uma Faculdade de Filosofia

 

Poucas ruas asfaltadas, Ceres conta com agências do Banco do Brasil, Banco da Amazônia e Banco do Estado de Goiás, escolas primárias, secundárias e uma faculdade de filosofia. O grande sonho de seus habitantes é ver as ruas asfaltadas. Recentemente, o prefeito adquiriu um milhão de cruzeiros em equipamentos para asfaltar a cidade. Acrescentou doze milhões de cruzeiros mensais à folha de pagamentos da prefeitura, asfaltou sete mil metros quadrados de ruas e parou. Há pouco tempo, as esperanças se reavivaram: o prefeito comprou a quinta patrola para o município. As críticas da Oposição são muito vivas.

 

Não sei para que tanta patrola comenta Tonico, comerciante de arroz que mora na cidade há dois anos.

 

Seis horas da manhã, depois de uma noite fresca, o Sol começa a castigar as fachadas das casas. A estrada, com 14 m de largura e revestimento primário, denominação usada pela Rodobras para estrada de terra batida, começa a receber caminhões e carros. Todos permaneceram estacionados à noite, que ninguém é valente para enfrentar a rodovia de terra no escuro.

 

Em Rialma ficou a 8ª Residência da Rodobras. Como todas instalações ao longo do caminho, ela tem emissora de rádio com prefixo próprio. São os meios mais eficientes de comunicação das populações ribeirinhas com os centros mais avançados. Com exceção de Imperatriz, no Maranhão, e da região do Sul do Pará, as cidades da Belém-Brasília não possuem ligação interurbana de telefone. E apenas Araguaína possui rede interna de telefones. Algumas outras, como Ceres, Uruaçu e Porangatu, recebem emissões de televisão. Por isso, todos olham esperançosos e acompanham com interesse a montagem das torres de micro-ondas que a Embratel está instalando em toda extensão da rodovia.

No fim do próximo ano, poderão ver e falar com o resto do País, via Embratel.

 

Recomeça a poeira e o cascalho. A monotonia dos campos gerais é quebrada, de vez em quando, por macaubeiras, touceiras de quirobas, dois tipos de palmeiras, e crianças que vendem frutas. O carro viaja numa velocidade média de 80 km/h. A estrada está bem conservada no trecho goiano: ainda se notam as marcas da patroa da Rodobras. Desde cinco horas da manhã, o tráfego é intenso. Caminhões carregados de goiaviras (pau-ferro) rumam para as serrarias. São vestígios de uma floresta raquítica que começa a dar lugar às pastagens.

 

Retirada a madeira, os fazendeiros queimam o mato, plantam milho, arroz ou feijão para completar a limpeza da terra que receberá a semente de capim após a primeira safra. A população bovina na extensão da estrada já supera a humana. E tende a crescer ainda mais aceleradamente, principalmente no Norte de Goiás e Sul do Pará, onde se implantam numerosos projetos agropecuários da SUDAM. É a febre do boi que se abateu sobre os pioneiros.

 

A 13 km de Ceres, o Restaurante do Isaías, posto de gasolina também. Doze quilômetros mais e chega-se à Vila Paulista. Casas ao lado, poeira no meio. É mais uma cidade debutante. Daqui a poucos anos Ceres perderá um distrito e a estrada ganhará mais um prefeito “vidrado” em patrola. A 116 km de Ceres, Uruaçu, fundada há 45 anos, nove mil habitantes na sede, avenida asfaltada e lavadeiras no Rio que corta a cidade. No vidro de trás dos carros, o slogan: “Ninguém segura Uruaçu”. O leito da estrada continua razoável. A poeira e o cascalho persistem. Esta será a constante até as proximidades de Belém, onde recomeça o asfalto, na altura de Guamá.

 

Embora Lugarejos e Vilas Surjam da Noite Para o Dia, Ainda há Terra Para Todo Mundo

Belém-Brasília – Ano 10  - Gente de Opinião

Atualmente são 36 cidades, vilas ou lugarejos, as menores com uma média de quinhentos habitantes e a maior com 36 mil, cercadas de um lado pelo Araguaia e de outro pelo Tocantins. A estrada caminha no meio, entre babaçuais, pau-brasil, mogno, aroeiras, jequitibás, mangueiras e cajueiros nativos. Surgem os lugarejos e vilas. Aliança do Norte, Crixás, Fátima, Rosalândia, Campo Maior, Monte Alegre, Santana. População média: dois mil habitantes, a maioria crianças. Cada casal tem no mínimo cinco filhos. Um morador de Aliança do Norte, fundada por lavradores fugidos do Maranhão, justifica a inflação de crianças com uma antiga piada, que ele fala a sério:

 

É, moço, nós não temos cinemas, né?

 

Aproxima-se a serra do Estrondo, muita turmalina e possivelmente urânio, é o que creem seus moradores. Um exemplo: José e Regina Lopes Torres moravam no Pium, cidade longe da estrada, sem vida e maiores alegrias, 1.200 habitantes até hoje. Seu amigo Adjúlio Baltazar, funcionário da SPEVEA, trouxe a notícia e o conselho.

 

Dia 20 de janeiro de 59, José Torres chegava onde, conforme seu amigo indicara, passaria a rodovia. Instalou-se próximo ao acampamento da Companhia Construtora Nacional, numa cabana de palha de babaçu, misto de venda e pensão. Passou a vender de tudo. Ganhou dinheiro, fez filhos, completando doze, comprou terra, montou armazém de cereais, derrubou a cabana, construiu uma loja de alvenaria, com armazém e casa atrás, ficou rico. Em torno da cabana foram aparecendo outras casas. A população ficou maior que a de Pium.

 

O lugarejo virou vila, cidade a partir de 64. Paraíso do Norte, dez mil habitantes, seis na sede, dois grupos escolares, um ginásio dirigido por padres católicos, quatro escolas primárias dirigidas por religiosos (católica, evangélica, batista e presbiteriana), um curso de alfabetização de adultos, 18 escolas rurais, um clube social, quatro hotéis, muito gado, arroz e madeira, arrecadação municipal de Cr$ 15 mil por mês, e a promessa de instalação no próximo ano de agências dos Bancos do Brasil e da Amazônia.

 

O primeiro baque de José Torres veio com a eleição do primeiro prefeito da cidade, Manuel Lúcio de Carvalho. Gastou muito dinheiro na campanha. O prefeito, de acordo com as más línguas da cidade, entrou pobre e saiu rico. José Torres, para angariar votos para seu candidato, avalizou muito título em banco, tudo pago depois pelo avalista.

 

O pioneiro sorri quando o repórter lhe conta esta história:

 

Foi nada, moço. O duro foi a doença. Perdi quase tudo. Gastei mais de cinco milhões. Na época era um dinheirão.

 

A doença foi de Regina, sua mulher. Câncer, logo depois da eleição em 64. Para mantê-la no hospital em Goiânia, vendeu suas terras, quase 500 alqueires, e gastou todas as economias. Perdeu dinheiro e a mulher. O retrato dela sempre dependurado numa corrente no pescoço. Além do retrato, sobrou o armazém, a mercearia montada em loja alugada, e a esperança de poder criar todos os filhos, apesar da saúde deficiente. O mais velho, Manuel, trabalha como caixeiro de loja e se prepara para ingressar no curso de Medicina em Goiânia. O mais moço, Raimundo, seis anos, brinca despreocupado nas ruas de Paraíso do Norte.

Sem luz, sistema de água ou esgoto e com seu serviço médico precário, a cidade continua crescendo. Cada dia chegam novas levas de pioneiros. O secretário da Prefeitura reclama:

 

Aqui todo mundo vive apertado. Bom seria se viesse gente com dinheiro. Aí sim, ninguém segurava mesmo Paraíso.

Belém-Brasília – Ano 10  - Gente de Opinião

O caminho continua difícil, cheio de desvios, até Cercadinho, passando por Barrolândia e São José. A partir de Miranorte, as coisas melhoram. Passa-se por Rio dos Bois e Tabocão. Chega-se a Guaraí, Distrito de Tupirama.

 

Genésio Viana, mineiro de Ouro Fino, veio para Tupirama em busca de aventura e dinheiro. Ali conheceu Isaura. Juntos vieram para a beira da estrada. Abriram o bar e restaurante Guaraí numa cabana ao lado do estábulo da antiga fazenda Guará, cortada ao meio pelas máquinas da Rodobras. Onze anos, o restaurante melhorou. Agora é de alvenaria e tem luz elétrica, fornecida pelo posto de gasolina vizinho. Ao seu redor, três mil habitantes, dos quais oito filhos de Genésio e Isaura.

 

O povo é alegre e trabalhador, não respeita nem domingo. Sua única mágoa: a vila ainda é distrito de Tupirama, que só tem quinhentos habitantes. E Genésio não se conforma:

 

Nós trabalhamos e crescemos, mas é Tupirama quem fica com o dinheiro.

 

Água Fria, Presidente Kennedy, Capivara, Brasilândia, Rio Feio, Tiririca, Bela Vista. Nas proximidades de Tiririca, um desvio imprevisível. Ali, pelo menos um carro ou caminhão capota diariamente.

Em 1961, os irmãos Osvaldo e Mateus Pereira Rodrigues, mais uma caravana de vinte pioneiros, saíram de Imperatriz no Maranhão para formar fazenda no trecho goiano da Belém-Brasília. Instalaram-se em cabanas próximas ao Rio Capivara. Além da fazenda, Mateus abriu uma loja de tecidos e miudezas. Casou-se com Raimunda, piauiense, filha de outro pioneiro, José Teodoro. Nasceram três filhos, Josefa, Rosemary e José Teodoro Neto.

 

O lugar cresceu, passou a chamar Nova Colina. Em janeiro de 1964 virou cidade. Em 68, Colinas de Goiás. Em 70, tem 10 mil habitantes, farmácias, escolas e a Praça 21 de Abril, construída pelos estudantes do Projeto Rondon. Como a maioria das cidades da beira da estrada, não tem sistema de água e esgoto. A luz é precária. Apesar disto, é a mais bem cuidada da região. Colorida, limpa e alegre. Em um dos hospitais, o médico paranaense Simão Kossobuski, “o melhor violinista entre os médicos e o melhor médico entre os violinistas”, conforme ele mesmo se intitula, enfrenta diariamente a malária, doença mais comum na região e que se manifesta ali em uma forma grave e mortal, causada pelo Plasmodium falciparum. Encefalite e hepatite são comuns, e os medicamentos são raros na região.

 

Mais 107 km, divisa-se uma faixa de asfalto, colocada a título de experiência nas proximidades de Araguaína, a maior cidade do Norte de Goiás à beira da Belém-Brasília. Atrás, ficaram Arraias de Goiás, Vila JK e Campo Alegre. Cortada pelas águas do Rio Lontra, nasceu em 1866 quando chegaram os primeiros colonos, entre eles Tomás Batista. Começaram a plantar café que logo acabou por falta de transporte e compradores. Fundaram o povoado de Lontra. Quando veio a estrada, Jorge Lunes, o Gaúcho, mineiro de Juiz de Fora, instalou à beira do rio Lontra o seu acampamento de obras, em 1958.

 

Neste ano, com menos de quinhentos habitantes, foi criado o município de Araguaína. Em 1960, quando começaram a chegar os primeiros caminhões, tinha 2.500 habitantes. Terminado o censo deste ano estimam em 36 mil, dos quais 16 mil na cidade. Quatro hospitais, 36 escolas primárias, cerca de cinco mil alunos, escola normal e ginásio, quarenta táxis, três companhias de táxi aéreo, clube social, piscina construída por Gaúcho, conjunto residencial do BNH, comarca com juiz, sede do 3º Batalhão de Polícia Militar, indústrias madeireiras, de óleo de babaçu e 230 firmas comerciais, Araguaína até agora ainda não conseguiu asfaltar suas ruas e ter sistema de água e esgoto. Seus moradores esperam com ansieda-de o término das obras da Usina do Corujão, que lhe dará no próximo ano energia elétrica durante todo o dia.

 

Outra esperança é a inauguração do sistema de micro-ondas, que possibilitará a ligação de seus 200 telefones com o resto do País. Ariovaldo, ex-radialista oe Brasília e diretor da Companhia Telefônica da cidade, só espera a ligação do sistema de microondas para iniciar também a construção de uma estação repetidora de televisão.

 

O movimento da agência do Banco do Brasil dá uma dimensão da cidade. Única agência bancária da região, atende a 23 municípios, com um movimento de aplicação de Cr$ 23 milhões em financiamentos agropecuários. Na época do plantio, as filas se avolumam às portas do banco. São os agricultores e pecuaristas em busca de financiamento. Enquanto aguardam na fila, ouvem a emissora local, ainda operando experimentalmente, e à noite vão ao cinema ou ao cabaré, bastante movimentado e com moças de minissaia. Em menos de dez anos, as terras do município sofreram um processo acelerado de valorização.

 

Em 60, o alqueire, 24.600 m2, era vendido a um cruzeiro. Hoje custa entre Cr$ 150 e Cr$ 700. A luta pela terra já causou algumas mortes, mas elas ainda são poucas, segundo José Pina, delegado de Terras. Prevê muitos problemas futuros:

 

Antes havia muita corrupção nos negócios de terra. Alguns cartórios de Goiana facilitavam o grilo. Daqui para frente, pode haver muita morte. O senhor sabe, a terra valoriza e, por um palmo de chão, muitas famílias se acabam.

 

Sábado, como em toda estrada, é dia de festa em Araguaína. É o dia da feira. Em torno de um edifício inacabado, reúnem-se os feirantes para vender e comprar. Ali se vende desde automóveis até farinha de mandioca e fumo de rolo. É um comércio miúdo que começa às 05h00 e se prolonga até às 12h00. Camelôs vindos da cidade grande vendem remédios miraculosos e máquinas de cortar batata, quinquilharias que as gentes compram para depois não saber o que fazer com elas. É na feira também que os candidatos da região vendem seu peixe.

 

Os mais ricos distribuem comida de graça, os mais pobres ensaiam comícios e arrebanham cabos eleitorais. A cidade não para nunca. Poucos vão à igreja. O comércio está sempre aberto, seja sábado, domingo ou feriado. Os pedreiros também não respeitam o repouso e continuam levantando casas. Vanderlândia. Bandeira, Corda, Regalo, Pisa no Freio, Curicaca, Mosquito, Croatá; 126 km depois de Araguaína chega-se à ponte Juscelino Kubitschek, a maior das 65 existentes na estrada. São 533 m, com 100 de vão livre, sobre o Rio Tocantins. De um lado Goiás, do outro Maranhão. Ali haverá o cruzamento da Belém-Brasília com a Transamazônica. As máquinas dos empreiteiros já começaram a chegar e a selva do lado de Goiás já começou a ser derrubada.

Ali se encontra, em maior intensidade, o ciúme e a desconfiança dos moradores e pioneiros da Belém-Brasília. Quando as máquinas começaram a passar para construir a Transamazônica, a suspeita aumentou. Acham que o Governo vai abandonar a estrada velha pela nova, apesar das reiteradas declarações do Ministro Andreazza, que sempre visita Estreito, na confluência das duas rodovias.

 

Três mil habitantes, Distrito de Carolina, na margem maranhense do Tocantins, Estreito existe desde 1909, quando Virgílio Franco, em companhia de seu sogro, ali chegou no lombo de burro. O sogro voltou e Virgílio ficou com Regina, sua primeira mulher. Abriu uma loja com tudo para vender e começou a luta pela conquista da terra. Depois de trocar muita bala, conseguiu afastar de Estreito seu rival Luís Resende.

 

Os filhos foram nascendo. A mulher morreu. Casou-se com Alda, 24 anos mais moça que ele. Os filhos continuaram nascendo: 14 ao todo. Dez ainda estão vivos. O mais velho, Raimundo, 59 anos, tem mais idade que a madrasta. O mais moço, Jessione, 23 anos, ainda vive com o pai.

 

Virgílio assistiu ao nascimento da estrada. Conversou com Juscelino, de quem era correligionário e ficou amigo. Contudo, não poderá, ver o nascimento, da Transamazônica. Desde 1964 ficou cego e empobreceu. Oitenta anos de idade e sem visão não pode mais tomar conta de sua loja de armarinhos. Deixou de se abastecer com os viajantes. Quando o estoque terminar, fecha a loja. Passará a. viver às custas dos filhos. Embora sem enxergar, espera poder caminhar pela Transamazônica, quando ela estiver pronta.

 

A vista não tenho, mas a saúde ainda dá para viver até o fim da construção da outra estrada.

 

A partir de Estreito, a paisagem começa a mudar, as árvores do norte de Goiás começam a dar lugar aos cerrados e aos babaçuais. Aparece uma sucessão de aclives e declives. São o que os motoristas chamam de “tope”, o maior inimigo dos caminhões. Carregados, eles às vezes não conseguem superar o aclive e então despencam no barranco. Nas proximidades dos “topes”, máquinas da Rodobras rasgam os morros, na sua luta para eliminar os aclives e declives que se estendem até o Sul do Pará.

 

Porto Franco, Tocantinópolis, Samaúma, Santa Maria, Bibeirãozinho, Santa Cruz, com exceção de Tocantinópolis, vilas de construção recente, cheias de cabanas de palha de babaçu. A 133 km, Imperatriz é a maior e mais movimentada cidade da Belém-Brasília. Fundada em 1852 e transformada em município em 1922, e comarca em 1945, tem ruas asfaltadas, 92 mil habitantes, 33 mil na sede, cinco cinemas, três em fim de construção, sete mil alunos no curso primário, mil e trezentos no ginásio, 223 no colegial, 43 escolas primárias no interior, emissora de rádio, duzentos telefones com serviço interurbano, seis hotéis de boa qualidade, agências dos Bancos do Brasil, do Estado do Maranhão e Amazônia, arroz, babaçu, algodão, peles silvestres, cerâmica, indústria de refrigerantes, óleo de babaçu e pequenas fábricas manuais de calçados. É a única cidade com serviço central de água e com luz elétrica durante todo o dia, até meia-noite.

 

Seus cabarés vivem cheios. Na época da safra de arroz, o movimento aumenta e as mortes também. É a época em que um caboclo pode ser milionário apenas por uma noite. O dinheiro corre e alguns chegam até a encomendar champanha estrangeiro. Os “topes” começam a aumentar. A largura da estrada idem. A vegetação muda. São jequitibás, embaúbas, muito parecidas com mamoeiros, e grandes queimadas.

 

A floresta dá lugar às pastagens. É a área das grandes fazendas de gado. As máquinas da Rodobras rompem os morros. O leito muitas vezes é totalmente branco. É a “piçarra” que aflora na superfície, rica em cálcio. A poeira é fina e parecida com pó-de-arroz.

 

Lagoa Verde, Barra Grande, Brejo Seco, Açailândia, Jacaré, Cabejo, Itinga, Perdido, Cajuapara, Água Azul, Marabázinho, Agua Suja, Ligação. Aqui tombou Bernardo Saião, sob um enorme jequitibá. No local uma enorme cruz de madeira, homenagem humilde ao pai da estrada. Em torno de sua morte, muitas lendas. Uma diz que ele não morreu. Foram os deuses da floresta que o levaram, para evitar a derrubada das matas. Outros dizem que foram os Índios, hoje inexistentes na área. Rio Cabeludo, Jacuarete, Gurupizinho, Piriá, Mironga, Conquista, Rancho Alegre, Juçara, Ponderouça, Itajá.

 

Paragominas é o mais jovem município da rodovia, um dos mais progressistas e a única cidade com plano piloto, que lhe foi dado de presente pelo engenheiro Jôfre Mozart, terceiro colocado em concurso de projetos para cidades satélites de Brasília. Ela se desenvolverá harmonicamente. E o Prefeito Fernando Santana Martins, 27 anos, o mais jovem do estado, faz questão de manter o plano. Fundada em 1960 por Célio Resende de Miranda, falecido, Paragominas transformou-se em município em janeiro de 1965, por interferência do então Governador Jarbas Passarinho. Tem dezesseis mil habitantes, 2.500 na sede, orçamento anual de Cr$ 600 mil, hospital, um grupo escolar, doze escolas municipais, telefone interurbano, serviço de água, ginásio, agências dos Bancos da Amazônia e do Estado do Pará, 60 mil bois e 180 mil sacas de arroz por ano, é a cidade mais progressista da estrada e a maior captadora de recursos da Sudam em projetos agropecuários, 22 ao todo.

 

Graças à sua riqueza pecuária, ali se realiza anualmente uma exposição de gado. É a grande festa da região. Os dois hotéis da cidade não dão conta dos visitantes: os mais felizes dormem no cabaré, os demais em redes, ou nas cidades próximas. As queimadas continuam agredindo a floresta que recua diante do inimigo desconhecido. Bosque, Ipixuna, Pitangueiras, Santa Helena, Paraguaçu Jabuti Maior, Vila Aurora, Mãe do Rio, Santa Fé, Arauá, Igarapé-Açu, Irituia, Domingos do Capim. O asfalto começa estreito e machucado. Mal dá para dois caminhões. Ainda é o asfalto pioneiro. Mais adiante, logo depois de São Miguel do Guamá, a estrada se abre, o asfalto é de primeira, nada devendo às melhores rodovias do País. É a volta à civilização. A 148 km de Belém. Até lá é um passeio.

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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