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Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Aqui Começa a Sexta República


Aqui Começa a Sexta República - Gente de Opinião

Bagé, RS, 16.03.2026

 

Vamos continuar reproduzindo as reportagens da Revista Manchete:

 

 

Manchete n° 916, Rio de Janeiro, RJ

 

Sábado, 08.11.1969

 

Aqui Começa a Sexta República

 

 

O Brasil retomou com simplicidade o processo democrático. O plenário da Câmara Federal não estava decorado sequer com as bandeiras dos Estados quando o Senador Gilberto Marinho abriu a sessão do Congresso Nacional, às 15h de sábado, dia 25 de outubro. Uma hora e trinta e cinco minutos depois, eram proclamados Presidente e Vice-Presidente da República o General Emílio Garrastazu Médici е о Almirante Augusto Hamman Rademaker Grunewald.

 

Dos 381 deputados no exercício de seus mandatos, apenas onze estavam ausentes de Brasília. Com a redução do número de cadeiras, as recentes cassações não deixaram claros no plenário e a decisão do MDB de comparecer à sessão eleitoral contribuiu para o aspecto de sóbria normalidade. Nos dois discursos permitidos pelo Regimento, os Presidentes dos partidos do Governo e da Oposição manifestaram seus pontos de vista. Em comum, a esperança de que o País esteja caminhando agora firmemente em busca da verdadeira democracia representativa. O Presidente da Arena surpreendeu o plenário afirmando que concordava em parte com a Oposição.

 

Não elogiamos a violência nem apoiamos os excessos”, disse o Presidente do MDB, Senador Oscar Passos. Respondeu o Senador Filinto Müller, Presidente da Arena: “Não pode ser imputada à Arena a responsabilidade da reação gerada pela situação anterior a 1964, bem como a que provocou a edição do Ato Institucional Número 5”. Um único deputado, sem partido, retirou-se do plenário. Chama-se Paulo Brossard de Souza Pinto, do RS.

 

Cinco dias antes de ser eleito Presidente da República, o General Garrastazu Médici participou, em Porto Alegre, de sua última solenidade como Comandante do III Exército. A transmissão do cargo ao General Campos de Aragão foi feita no Parque Farroupilha, com a presença dos três Governadores da Região Sul. Em seu discurso, o General Médici prometeu que jamais transigirá com a verdade e a justiça, nem tampouco mudará suas atitudes no exercício da presidência. Prometeu o General Médici aos Soldados do III Exército: “Não mudarei”.

 

1° de abril de 1918. Na entrada do Colégio Militar de Porto Alegre um garotão desajeitado, como são os meninos que entram na adolescência, espera a vez de ser chamado. Enquanto isso, lá dentro, no pátio, a algazarra marca o reencontro de velhos amigos que retornam das férias. Emílio Garrastazu Médici aparentava muita calma, mas, no fundo, experimentava, a coexistência de dois sentimentos: timidez e curiosidade. Só pensava em como seria a vida ali dentro e no recado que lhe fora confiado pelos pais, distantes, no interior: “ser um bom aluno”. Por sua cabeça não passava, naquela hora, a hipótese de que exatamente 51 anos e sete meses depois seria o Presidente da República do Brasil e o Comandante Chefe das Forças Armadas.

 

Os Presidentes Dutra, Castello Branco, Costa e Silva e Médici Passaram seus Primeiros Anos de Estudo no Colégio Militar de Porto Alegre

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Nem ele nem ninguém sabia, por aqueles anos, que o Colégio Militar de Porto Alegre viria a ser a escola secundária que mais daria Presidentes ao Brasil. No fim do ano anterior, ali haviam concluído o seu curso dois outros militares que mais tarde assumiriam a Presidência da República: Humberto de Alencar Castello Branco e Arthur da Costa e Silva. E, alguns anos atrás, de lá saíra um homem que seria o primeiro Presidente constitucional do Brasil, depois da redemocratização do País, em 1945: Eurico Gaspar Dutra.

 

Nos anos em que os meninos Eurico, Humberto, Arthur e Militão brincavam no pátio do Colégio Militar de Porto Alegre, ali não existia uma brincadeira hoje bastante comum entre os alunos. Eles costumam dizer, nas horas de folga, que estão fazendo “o curso de Presidente”. E talvez alguns dos 800 alunos do CMPA estejam com a razão. Afinal, o Colégio dá sorte.

 

Emílio veio de Bagé para o Colégio Militar de Porto Alegre, junto com o primo Hugo. A turma era grande e os dois Garrastazu receberam os números 140 – Emílio e 141 – Hugo. Ali começava a trajetória militar do atual Presidente do Brasil. Porque já trazia um apelido de Bagé, Militão não foi alcunhado ([1]) pelos colegas do CMPA. Castelo Branco, por iniciativa de Costa e Silva, foi apelidado de “Tamanco” e Arthur, que tocava na banda, logo ficou conhecido como “Clarinete”. Arthur e Militão eram contribuintes do CMPA, mas Castello estudava sem pagar.

 

De abril de 1918 a dezembro de 1923, Emílio foi um aluno exemplar. Não aparecia entre os primeiros de sua turma, mas sua ficha indica que sempre foi estudioso e cumpridor dos deveres do Colégio. Nunca entrou para a categoria dos indisciplinados, mas algumas vezes perdeu o recreio e em outras o direito à saída do domingo. Mas todos esses castigos foram impostos pela prática de pecados veniais, próprios de sua idade. Tanto assim que em 1921, depois de haver sido promovido a terceiro-sargento do Batalhão Colegial, foi agraciado, quando das comemorações do 7 de Setembro, com uma medalha de bronze por bom comportamento. Era um excelente aluno da cadeira de inglês, durante todo o curso. Sua menor nota nessa disciplina foi 8.

 

O currículo do CMPA era, nessa época, de cinco anos, mas quem cursasse o 6° ano sairia também com o título de agrimensor. Nascido numa zona de gente que lidava com a terra, Milito saiu agrimensor do Colégio. Nos esportes, Castello Branco, Costa e Silva e Emílio Garrastazu Médici tiveram um ponto em comum: todos gostavam de esgrima, embora praticassem outras modalidades de esporte. Da turma dos dois primeiros faziam parte alguns nomes que depois ganhariam notoriedade, por diversos motivos, como Amauri e Riograndino Kruel, Riograndino Costa e Silva, Décio Palmeiro Escobar, Ernesto Geisel e Ladário Teles. Da turma de Militão faziam parte, entre outros, Adalberto Pereira dos Santos e Orlando Geisel, hoje figuras das mais importantes do mundo político e militar brasileiro.

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Mais de 400 quilômetros separam a terra natal de Garrastazu Médici, Bagé, da cidade de Porto Alegre. Bagé fica para os lados da campanha, da fronteira com o Uruguai. Mesmo com as dificuldades de transporte da época, Militão nunca deixou de passar as férias em casa, com os pais e irmãos. Seu pai, falecido em 1950, era ainda um pequeno fazendeiro, na época em que Garrastazu Médici cursava o Colégio Militar de Porto Alegre. Há apenas pouco tempo deixara o comércio, rendendo-se a uma vocação que o atraía para o campo e a fazenda. E essa alteração na vida do pai propiciava a Milito uma outra alegria: a de ter um cavalo com que percorrer os 24 quilômetros que separavam Bagé da fazenda em que morava Scyla, a moça com quem se casaria ao completar 23 anos de idade, no posto de 1° Tenente.

 

As origens históricas do Colégio Militar de Porto Alegre remontam ao século passado. Ele foi criado por um Decreto Imperial de D. Pedro II, em 1851. Porém, foi o Visconde de Pelotas quem mais interesse demonstrou por sua sobrevivência como um dos estabelecimentos de ensino, do Exército. Quando de sua fundação, se chamava Escola Militar de Tática, Infantaria e Cavalaria do Rio Grande do Sul.

 

Eurico Gaspar Dutra foi, formalmente, aluno da Escola Militar da Província do Rio Grande do Sul e não do Colégio Militar de Porto Alegre, nos primeiros anos do século. O edifício principal do CMPA, ainda em funcionamento, embora tenha passado por diversas reformas, foi construído entre 1872 e 1881, quando ganhou a denominação de Escola Militar da Província do Rio Grande do Sul. Entre 1905 e 1912, chamava-se Escola Preparatória de Porto Alegre. Em 1912 ganhou a denominação que até hoje persiste.

 

Pois foi exatamente em 1912 que mais começaram a chegar alunos de outros Estados. Entre eles Humberto de Alencar Castello Branco, que terminaria o curso em 1917, com Arthur da Costa e Silva, seguindo depois para a Academia Militar. Em 1939, com a eclosão da II Guerra Mundial, o Colégio Militar de Porto Alegre transformou-se provisoriamente em Escola Preparatória, em virtude da súbita ampliação das necessidades militares brasileiras.

 

A área ocupada pelo Colégio Militar de Porto Alegre é um quarteirão inteiro, na zona central da cidade, exatamente em frente ao Parque Farroupilha. Funciona, em regime de internato e de semi-internato. Na primeira categoria tem 168 alunos e na segunda, 632. O efetivo do CMPA é de 35 Oficiais e 10 civis professores e 36 Oficiais administrativos, além de 78 Subtenentes e Sargentos. Para ingressar no Colégio Militar de Porto Alegre o candidato deve ter no mínimo 11 anos de idade e no máximo 14. A não ser que venha transferido de outro Colégio Militar, iniciará seus estudos na primeira série ginasial. O curso completo é atualmente de sete anos, sendo quatro de ginásio e três de colégio.

 

Ao completar o curso, o aluno que não desejar seguir a carreira militar recebe seu certificado de reservista de primeira classe. As estatísticas indicam que 60% dos alunos do Colégio Militar de Porto Alegre prosseguem na carreira das armas, depois de concluído o curso e 40 % preferem prestar exames vestibulares para ingressar em cursos superiores. O atual Comandante do Colégio Militar de Porto Alegre é o Coronel Túlio Chagas Nogueira, que já dirigiu diversos cursos de aperfeiçoamento de Oficiais do Exército, em todo o Brasil.

 

Uma das tradições do Colégio é gravar a estilete o próprio nome nas pedras do pátio interno, com a data e a arma escolhida. Os nomes de Castello Branco, Arthur da Costa e Silva e Emílio Garrastazu Médici já não são encontrados nessas pedras. Mais de cinquenta anos foram suficientes para apagá-los. Outra, mais importante, é cada aluno decorar estes dizeres, que são uma espécie de lema do CMPA:

 

Quando você brinca, faça-o com todo o calor de seu entusiasmo; quando você estuda, faça-o com todas as energias do seu cérebro; quando você trabalha, faça-o com todas as forças de seu braço; quando você ama, faça-o com toda potência de seu coração; e quando você adora, faça-o com todo o dinamismo de sua alma(MANCHETE N° 916)

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

YYY Coletânea de Vídeos das Náuticas Jornadas YYY

https://www.youtube.com/user/HiramReiseSilva/videos

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);

Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);

Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);



[1]    Alcunhado: apelidado. (Hiram Reis)

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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