Domingo, 7 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Adeus Mestre José Holanda


Adeus Mestre José Holanda - Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva (*), Porto Alegre, RS, 17 de abril de 2015

Soneto do amigo

(Vinicius de Moraes)

Enfim, depois de tanto erro passado

Tantas retaliações, tanto perigo

Eis que ressurge noutro o velho amigo

Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado

Com olhos que contêm o olhar antigo

Sempre comigo um pouco atribulado

E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano

Sabendo se mover e comover

E a disfarçar com o meu próprio engano

O amigo: um ser que a vida não explica

Que só se vai ao ver outro nascer

E o espelho de minha alma multiplica...

Partiu para o Oriente Eterno meu caríssimo Amigo e Mestre José Holanda. Por uma destas estranhas, misteriosas e curiosas coincidências engendradas pelo Grande Arquiteto do Universo e que Carl Gustav Jung denominava de “sincronicidade”, no mesmo dia e mês do nascimento, de meu pai e meu herói. Desde que tive a honra e o privilégio de conhecer o José Holanda, nossas rotas, apesar da distância física que nos separava, vinham se entrelaçando constantemente e nos comunicávamos, sem falta, nas datas mais importantes do calendário, havia um respeito e uma admiração mútua que nos unia.

Sua biografia é um exemplo de luta e determinação de um homem que jamais se conformou, nunca se acomodou e que, graças a isso, conseguiu que sua família viesse a desfrutar uma vida mais confortável. É um privilégio poder dizer que fui e serei sempre seu Amigo, mesmo que estejamos agora ocupando planos divinos distintos, o Zé foi e será sempre um de meus mais queridos Mestres. Listo algumas das felizes passagens, relatadas nos meus livros, que tiveram o José Holanda como protagonista.

Descendo o Rio Amazonas I (2010/2011)

28.12.2010 (terça-feira) – Itacoatiara, AM

Depois do almoço, recebemos a visita do Senhor José Holanda que subiu a bordo perguntando em alto e bom tom:

– Aonde está o atleta?

Depois das devidas apresentações, o Zé, gentilmente, convidou-nos para conhecer sua fazenda, localizada na Foz do Madeira, no dia seguinte.

29.12.2010 (quarta-feira) – Itacoatiara, AM

À tarde, visitamos a fazenda de Búfalos do senhor José Holanda na Foz do Rio Madeira.

Descendo o Rio Madeira (2011/2012)

25.12.2011 (quarta-feira) – Humaitá, AM

Novamente minha rota se entrelaça com a do amigo José Holanda, de Itacoatiara, AM. No Porto do Caçote, ancorado no Flutuante Vovó Abigail, se encontrava sua lancha “Rosa Holanda” e sua simpática tripulação, Comandante Elizeu dos Santos Gonçalves, Marinheiro Fluvial de Convés (MFC) e o maquinista Khryslley Márcio Fonseca de Souza, Marinheiro Fluvial de Máquinas (MFM). Os marinheiros do Zé nos informaram que ele estaria nos esperando, a partir das 11h00, do dia 16 de janeiro, na sua fazenda com um churrasco.

16.01.2012 (segunda-feira) – Rumo à Fazenda do Sr. José Holanda

Havia prometido ao grande Amigo e Mestre José Holanda que chegaria à sua Fazenda, a 78 km de distância, exatamente às onze horas e, para isso, precisava manter uma média de 13,8 km/h, um ritmo bastante forte para o final dessa 1ª Etapa da 4ª Fase do Projeto Desafiando o Rio-Mar.

Acordei às 04h45 e fui direto para o Porto. Às 05h30 partimos, eu e o Soldado Marçal Washington Barbosa Santos (Cozinheiro do B/M Piquiatuba), embarcado no caiaque “indomável” de propriedade do José Holanda. A correnteza forte, a ausência de troncos, as nuvens encobrindo o sol causticante, tudo conspirava para que atingíssemos nosso objetivo no tempo estipulado. O Marçal resolveu deixar o João Paulo remar comigo os últimos quinze quilômetros. Uma esperada garoa começou a cair refrescando nossos corpos, o Grande Arquiteto, por intermédio de São Pedro, resolvera dar uma “forcinha” para que atingíssemos nosso objetivo com mais tranquilidade ainda. Chegamos às 11h01, um minuto além do programado para o tão esperado churrasco. O Mestre Holanda fora abastecer sua lancha e chegou logo em seguida. Degustamos uns saborosos jaraquis e carne de porco assados enquanto ouvíamos atentamente as histórias de sua vida.

O Mestre perguntou a meu filho se ele estava satisfeito com o caiaque que ele emprestara e, como ele respondesse afirmativamente ganhou o caiaque de presente.

28.01.2012 (terça-feira) – Partida de Mauari

Em contrapartida, o Mestre José Holanda, com sua fidalguia peculiar, deixou-nos seu carro à disposição e tive que reaprender a dirigir utilizando os recursos da direção hidramática do sofisticado veículo. Confesso que é muito mais fácil nos adaptarmos ao conforto e às coisas boas do que à carência e às dificuldades. Graças a isso, conseguimos visitar os prédios históricos da Cidade e fotografá-los.

29.01.2012 (quarta-feira) – Itacoatiara, AM

No domingo, Holanda nos proporcionou um belo almoço no Restaurante Panorama, de sua sobrinha, e à tarde concedeu, no Piquiatuba, uma entrevista, acompanhado de seu neto, contando sua origem e sua história de vida que, oportunamente, reproduziremos.

Descendo o Rio Juruá (2012/2013)

18.12.2012 (terça-feira) – Partida para Foz do São João

Acordamos cedo e partimos às sete horas. O Angonese, ainda um neófito na canoagem, demonstrou uma coragem e uma determinação invulgar na condução do caiaque “indomável” doado pelo Amigo José Holanda.

Grande Mestre José Holanda

Descendente de cearenses que se estabeleceram nas proximidades de sua atual propriedade, possui a determinação e a vontade férrea dos sertanejos cuja têmpera foi forjada no Sol causticante da caatinga.

Com treze filhos e mais de 30 netos, Holanda encanta a todos com sua fala mansa, seu carisma contagiante e a riqueza ímpar de suas experiências em suas mais de sete décadas de vida na região. Alfabetizado tardiamente pelo antigo MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização), recuperou o tempo perdido lendo autores consagrados, dentre eles Ernest Hemingway.

O deslocamento até a fazenda de Holanda, na Foz do Rio Madeira, foi realizado numa lancha rápida por ele mesmo projetada, com motor Suzuki de 300hp.

Holanda comentou que o abigeato é comum na região e que em determinada ocasião um comerciante local, seu vizinho e proprietário de um comércio instalado em um flutuante, surrupiou-lhe seis cabeças de gado. Conhecendo o responsável pela autoria do roubo, ele se dirigiu, com a tranquilidade que lhe é peculiar, ao estabelecimento comercial do mesmo e fez uma compra considerável de combustível e de gêneros bem superior ao preço dos seis bois levados pelo inescrupuloso mercador.

Determinou que a embarcação carregada se afastasse e ficou com uma lancha rápida para lhe facilitar uma emergencial evacuação. Chamou o comerciante meliante para uma mesa e disse que precisava conversar com ele. Olhando fixamente nos olhos do ladrão disse que o pagamento do material que ele havia acabado de adquirir deveria ser abatido do preço dos bois roubados. Quando o malandro se esticou para pegar uma arma por traz do balcão, Holanda mostrou-lhe a Calibre 12 engatilhada e destravada e saiu sem ser incomodado pelo covarde trapaceiro.

Fonte:

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM - RS);

Sócio Correspondente da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER)

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: [email protected];

Blog: desafiandooriomar.blogspot.com.br

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoDomingo, 7 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Persona non grata XIII

Persona non grata XIII

Bagé, RS, 05.06.2026 Termo de Depoimento do Sr.José Antônio Carneiro Borges Aos 29 dias do mês de agosto de 2022, às 16h30 (Horário de Brasília), e

Persona non grata XII

Persona non grata XII

Bagé, RS, 04.06.2026 Cel Eng José Antônio Carneiro Borges Lembranças da Minha Vida no Destacamento Sul do 6° BECCheguei a Manaus, com minh

Persona non grata XI

Persona non grata XI

Bagé, RS, 03.06.2026 Depoimento do Cap Telmo Travassos de Azambuja Termo de Depoimento do Sr. Telmo Travassos de Azambuja Aos 29 dias do mês de ag

Persona non grata X

Persona non grata X

Bagé, RS, 02.06.2026  Cap Telmo Travassos de AzambujaVerdades X Mentiras: O Exército Brasileiro na Construção da BR–174 A melhoria da infraestrutur

Gente de Opinião Domingo, 7 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)