Sexta-feira, 11 de setembro de 2020 - 09h13

Bagé, 11.09.2020
Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte XI
“BANDEIRA” de
Francisco de Mello Palheta – III
No dia 20 de junho, a Expedição alcançou a Foz do Rio Jamari, no
dia 22, chegam à primeira Cachoeira do Rio Madeira, a de Santo Antônio,
denominada pelo narrador da Expedição como Maguari e, no dia 23, a Cachoeira de Iaguerites (atual
Teotônio).
Chegamos ao
Rio Jamari com dez dias de viagem, e continuamos para cima; aos 22 do mês,
chegamos à Cachoeira chamada Maguari ([1])
e, na passagem dela, se alagou Damaso Botelho em uma galeota, na qual perdeu o
Cabo a sua capa, o que deu por bem empregado por ser em serviço de Sua
Majestade que Deus guarde. Daqui fomos à Cachoeira dos Iaguerites ([2]),
onde chegamos às vésperas de São João e nela vimos sem encarecimento ([3])
uma figura do inferno [...], pois nenhuma se iguala nem tem paridade a esta do
Rio Madeira, na sua grandeza e despenhadeiros de pedras e rochedos tão altos
que nos pareceu impossível a passagem, como na realidade, pois para passarmos
foi necessário fazer-se caminho, cortando uma ponta de terra onde fizemos
faxinas, sendo o Cabo o primeiro no trabalho a dar-nos exemplo. Fizemos uma boa
grade de madeira por onde se puxaram as galeotas; no dito dia ainda se puxaram
4, suposto que com muita fadiga, e já acabamos tarde; e no outro dia, que foi o
do nascimento de São João, se puxaram as mais e se carregaram outra vez com
farinhas e munições, que as fomos comboiar mais de meia légua de caminho por
terra.
Daqui continuamos nossa jornada
passando Cachoeiras umas atrás das outras e chegamos à quinta Cachoeira, a que
chamam Mamiu ([4]), que gastamos três dias
em passar nela as galeotas a corda, não havendo exceção de pessoa neste grande
trabalho, e com tal perseguição de pragas de piuns, que cada mordedura é uma
sangria, e ficamos em uma ponta aonde foi julgada que humanamente se não podia
passar; e passamos as galeotas a outra banda do Rio para haver de melhor
passar, e o Cabo mandou puxar a sua galeota por cima das lajes e as duas mais
pequenas que servem de espia, e foi esperar pelas mais canoas à Ilha chamada
das Capivaras, e pela tardança deram bem cuidado ao Cabo até 9 horas da noite,
que nos ajuntamos.
Logo que amanheceu fomos seguindo
nossa viagem à Cachoeira chamada Apama ([5])
véspera de São Pedro; e fazendo faxinas igualmente Soldados e índios, rompemos
as matas terra a dentro dois quartos de légua, em que gastamos dois dias em
fazer caminho e grade, rompendo a golpe de machado e alavancas grandes pedras e
afastando outras aos nossos ombros com bem risco de vida.
Esta Cachoeira assinalada dos
Apamas, é tão terrível e tão monstruosa e horrível, que aos mesmos naturais de
Cachoeiras mete horror e faz desanimar, porque de contínuo está no mais
violento curso de sua desatada corrente, o que não encareço por não ser
suspeitoso, porém deixo à consideração e representação dos experientes, pois
por muito que dissera não dizia nem ainda a terça parte do que é, o que se pode
perguntar igualmente assim ao Cabo e Capitão como a todos os mais da Companhia.
Aqui demos ordem a puxar as
galeotas, e se puxaram três a meio caminho, porque uma galeota botou o beque ([6])
fora cérceo ([7]), desfazendo a amura ([8])
e as conchas ([9]) que foi necessário
por-se-lhes rodela, ao outro dia se puxaram as mais; e a 2 de julho, depois das
galeotas consertadas e breadas ([10])
que se acabaram pelas 10 do dia, partimos e fomos seguindo a nossa jornada todo
aquele dia, sem acharmos Porto capaz até às 8 da noite, porque este Rio em si
está a cair toda a beirada continuamente e de tal sorte caem pedaços de terra,
que deixa uma enseada feita, e fomos dormir a uma Ilha de pedras donde achamos
boa ressaca para as galeotas se amarrarem seguras; e logo que amanheceu,
seguimos viagem ao Porto dos Montes, onde disse o guia vira um caminho que
descia ao Porto que era do Gentio, que habitava naquele lugar, mas não se viram
trilhas nem caminhos, por estar já deserto; neste dito Porto, fomos visitados de
uma praga de abelhas, assim a quantidade das grandes, como uma máquina das
pequenas tão espessas como nuvens, buscando-nos olhos, e ouvidos e boca, e
todos engoliram bastantes, porque se as enxotassem das rações ficaríamos
destituídos de toda a limitação que temos de farinha, que é tão limitada a
medida em que se dá, que apenas é para dois bocados de boca, e fechada cabe em
uma mão toda; logo também o que vamos comendo, são camaleões e uns animais a
que chamam capivaras, e alguns, por se não atrever a estas poucas carnes, comem
só os ovos dos ditos lagartos. Peixe de nenhuma casta nem sorte se acha, que
das pobres espingardas é que vamos passando a remediar a vida.
O Cabo que nos rege não dorme nem
sossega antevendo o futuro e por isso é tão previsto e assim vamos com muita
regra com a farinha; e tornando à nossa derrota, fomos caminhando até a noite
que aportamos na beirada de uma Cachoeira ([11])
e determinamos passá-la no seguinte dia. Neste lugar, deu parte o Principal
Joseph Aranha ao Cabo haver visto uma mui grande aboiada ([12]),
que afirmam todos os que a viram teria de comprimento pouco menos de 40 passos
([13])
e de grossura julgaram ter 15 a 17 pés ([14]).
Grandes monstruosidades de animais semelhantes têm este Rio, porque com esta
são duas que se tem visto nesta viagem, e outras maiores imundices se podem ver
nele, porque não há dúvida que estas veemências de pedras [nas concavidades que
têm] muito mais podem criar.
E assim que amanheceu, fomos
seguindo nossa jornada até ser hora de parar e tomamos Porto pelas 11 do dia.
Aos 7 do mês de julho, indo gente a descobrir campo, viram trilha nova de
gentio e lugares frescos, o que logo deram a saber ao Cabo que, no mesmo
instante, mandou gente bastante para ter encontro a qualquer invasão, ordenando
ao Soldado Vicente Bicudo os seguisse e os mandasse praticar para que viesse o
Principal à sua presença, declarando-lhe os não mandava fazer mortes ou
amarrações nem outro gênero de agravo. Haveria espaço de duas horas que tinha
partido o dito Soldado, quando chegaram as mais galeotas da conserva, que de
retaguarda vinham, mandou logo o Cabo ao ajudante Manuel Freire com grosso
poder, fazendo-lhe a mesma advertência e que declarasse logo pazes com o dito
gentio pelos meios mais suaves de dádivas.
Partiu
o ajudante a incorporar-se com o Soldado Bicudo e, por ser já tarde, dormiram
no mato e depois que o dito ajudante partiu, ordenou mais o Cabo a Damaso
Botelho engenhasse uma picada em forma de trincheira, o que logo se fez com
três guaritas ([15]), em que ficamos seguros
como já para ter encontro ao inimigo.
Assim que amanheceu, foi um
Soldado com dois índios nossos [de licença do Cabo] a buscar a vida, quando nas
mesmas horas voltou a dar parte tinha ouvido rumor de gentio e chorar de
criança, o que ouvido pelo nosso Cabo mandou logo ao Capitão fosse mandar
praticar ao dito gentio, mas estes, como nunca tinha visto brancos, se puseram
de fugida debaixo de suas armas, e despedido o Capitão para a diligência,
mandou o nosso Cabo guarnecer as guaritas, e os poucos índios com que nos
achávamos a desfilada pela coartina [troço do reparo situado entre dois
baluartes], já para ter mão ao que pudesse suceder, mas tudo se acabou com a
chegada do Capitão, apresentando por presa a um velho que no pé esquerdo não
tinha dedos, três índias e três crianças.
Chegou logo o ajudante com um lote
de gente onde vinha o Principal, índio moço e mui arrogante, e é certo que
chegou com mui pouca vontade porque dizem se atracara com um índio nosso, mas
que, vendo o nosso poder, aplacara da fúria, e assim solto o trouxeram à
presença do nosso Cabo.
Acompanhavam a este dito Principal
dois mocetões, seus filhos, de pouco mais que 15 a 12 anos e duas índias, mães
dos ditos e mulheres do Principal, com mais um rapaz e uma rapariga e todos
faziam cômputo de treze cabeças.
Fez o Cabo o possível por uma
língua para os mandar praticar, mas não se achou quem os entendesse, porque
falando a nossa língua, batiam com as mãos nos ouvidos, mostrando ter
sentimento de não ouvir a nossa prática, mas com grandiosos mimos e dádivas
ficaram mui contentes e satisfeitos no que mostravam.
Aqui Nossa Senhora do Carmo, que
não falta a seus devotos, “espiritou”
a língua em falar-lhes em língua de outro gentio seus Conhamenas, logo
respondeu o Principal gentio com um agrado ao que lhe propunha a nossa língua
por cuja gíria foi continuando a prática, e sobre e por razão da paz firme e
valiosa que com eles pretendíamos fazer, e na mudança de vida para virem ao
grêmio da Igreja, avassalando-se como os mais gentios fizeram, a que respondeu
estava contente e certo nas cláusulas e firmeza da paz, e dizendo ao Cabo que o
esperasse que o queria vir visitar da sua Província e trazer-lhe algumas coisas
em reconhecimento do bom trato e mimos que lhe havia dado, se queria recolher;
ao que o Cabo respondeu mandando-lhe dizer que tudo agradecia e que se fosse em
paz, que sua vontade era seguir para cima o Rio, fazendo pazes e descobrimento,
que não vinha fazer escravos, senão amigável paz com todos; e aqueles que lhe
quiseram impedir sua jornada tomando armas para ele, que a este sim lhe
declararia guerra.
Foi o Principal gentio em paz para
a sua Província, o qual na estatura e presença muito bem parecido e os enfeites
que trazia era uma coleira de miúdas contas de fruta do mato, muito negras, e o
cabelo atado atrás em molho e nele um penacho, e por diante trazia o cabelo
cortado, de orelha a orelha, os beiços tintos de vermelho de uma casca de pau
que mordia; as índias cobriam, o que a natureza ocultar ensina, com uma franja
de fio tecido, e cingiam no cinto uma enfiada de contas das ditas frutas do
mato; era para ver como festejavam os nossos avelórios ([16]):
é este gentio muito pobre; as suas redes são de casca de pau aqui chamados
embira. Despedidos eles, ficamos de aposento até ao outro dia ao amanhecer, que
fomos seguindo a viagem, e sendo por horas de vésperas chegamos a paragem em
que o Rio estava tapado com uma grande Cachoeira ([17])
e andamos buscando canal com excessivo trabalho. (ABREU)
No dia 1° de agosto, prosseguem
subindo o Rio Mamoré, passam pela Foz do Rio Guaporé ([18]) e no
dia 08 chegam à Povoação espanhola de Santa Cruz de Cajuava, onde foram
recebidos e hospedados pelo Padre Miguel Sanches de Aquino, Superior da Missão.
Nos dias 09 e 10, reuniram-se com os
Padres Superiores das Províncias de Moxos e Chiquitos, João Batista de Bosson,
Missionário de Santa Ana, Gaspar dos Prados, Missionário de São Miguel e
Nicolau de Vargas, Missionário de São Pedro. Palheta informou-lhes estar a
serviço Rei Dom João V de Portugal e do Capitão-General Maia da Gama,
Governador do Maranhão, e recomendou-lhes que limitassem suas ações às margens
esquerdas dos Rios Guaporé e Mamoré, não ultrapassassem suas respectivas Fozes
e nem recrutassem indígenas dessas margens Rio abaixo por pertencerem a
Portugal, desde 1639. (Continua...)
Bibliografia
ABREU, J. Capistrano. Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil –
Brasil – São Paulo, SP –Ed. Itatiaia – Edusp, 1989.
KELLER, Franz. The Amazon and Madeira Rivers – EUA –
Philadelphia – J. B. Lippincott and C°., 1875.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
[1] Maguari: Santo
Antônio.
[2] Iaguerites: Teotônio.
[3] Encarecimento:
exagero.
[4] Mamiu:
Caldeirão do Inferno.
[5] Apama: Jirau.
[6] Beque: parte
mais avançada da proa.
[7] Cérceo: rente.
[8] Amura: quadra
da proa.
[9] Conchas:
caçoleta do canhão.
[10] Breadas:
revestidas de breu.
[11] Cachoeira: Três Irmãos.
[12] Aboiada: Sucuri ‒
Eunectes murinus.
[13] 40 passos: 59,2
m.
[14] 15 a 17 pés:
4,57 a 5,18 m.
[15] Guaritas:
pequeno abrigo onde se recolhem as sentinelas.
[16] Avelórios: peça
de roupa com vários pingentes colocados na gola e na manga da camiseta ou na
barra da calça.
[17] Cachoeira:
Ribeirão.
[18] Guaporé: Itenes.
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