Segunda-feira, 30 de novembro de 2020 - 07h32

Bagé, 30.11.2020
Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte LXVII
Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XIX
Cada Dormente Representa uma Vida Humana
Em 1942, João da Costa Palmeira, no seu livro
“Amazônia”, disse:
Cada dormente representa uma
vida que ali se extinguiu, tal foi o tributo pago pelos trabalhadores, em geral
nordestinos, que ali ultimaram seus dias.
Em 1959, Benigno Cortizo Bouzas, no seu
livro “Del Amazonas al Infinito”,
afirmou:
Se dice que hubo tantos muertos
como traviesas tiene la via.
Em 1984, Edmar Morel, no seu livro “Amazônia Saqueada”, relata que:
No início da construção da
Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, diz a lenda que, para cada dormente assentado,
morreram vinte trabalhadores de malária, motivo pelo qual ela recebeu o apelido
de “Estrada dos Trilhos de Ouro”.
Em 1998, Zuleika Alvim, no livro “História da Vida Privada no Brasil -
República: da Belle Époque à Era do Rádio”, narra que:
[...] chegando até a Amazônia,
acompanhando a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, cujo preço, dizia-se, era o de
uma vida por dormente.
Em 2004, João Carlos Meirelles Filho, no seu
“Livro de Ouro da Amazônia”, conta
que:
A construção da Ferrovia sofreu
diversos reveses e resultou na perda de milhares de vidas, em função dos surtos
frequentes de malária. Muitos lembram a Estrada com o lema “cada dormente representa um operário morto
na construção”.
A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré tinha uma
extensão de 366 km, considerando que em cada quilômetro foram assentados 1.500
dormentes chegaremos, sem grandes dificuldades, a um total de 549.000
dormentes. Teriam, realmente morrido 549.000 trabalhadores na sua construção? O
relatório da Companhia especifica o número total de operários “importados” e o número de óbitos desde o
início das obras até a sua conclusão conforme o quadro seguinte:
|
Ano |
Operários |
Óbitos |
|
1907 |
446 |
006 |
|
1908 |
2.450 |
065 |
|
1909 |
4.500 |
425 |
|
1910 |
6.024 |
428 |
|
1911 |
5.664 |
419 |
|
1912 |
2.733 |
209 |
|
Total |
21.817 |
1.552 |
A estatística da companhia só contempla
aqueles que morreram no Hospital de Candelária. Não aparecem nestas cifras os
que faleceram depois de abandonarem Santo Antônio e Porto Velho em trânsito
para Manaus, em Belém, ou países de origem.
Consideramos razoável estabelecer que este
número seja três vezes maior do que o admitido pela construtora. Multiplicando
por quatro o total do relatório vamos chegar a 6.208 óbitos muito longe do
número de dormentes assentados na ferrovia – 549.000.
Os óbitos continuaram a ocorrer depois da
conclusão das obras, mas em número bem mais reduzido tendo em vista a melhoria
das condições sanitárias, de trabalho e dos melhores recursos de profilaxia das
doenças.
Administração da Madeira-Mamoré Railway
Em suma, podemos afirmar
que, para o ruinoso fracasso da citada empresa, influíram os fatores seguintes:
crise, má administração, excessivos gastos, inconcebíveis e imperdoáveis
caprichos comerciais, além de um profundo desconhecimento das características
psicológicas do meio em que se exerciam as suas atividades.
(J. de Mendonça Lima)
|
|
Receita |
Saldo |
Déficit |
|
Ano |
(Contos de
Réis) |
||
|
1912 |
4.656 |
3.188 |
|
|
1913 |
4.995 |
5.562 |
|
|
1914 |
2.724 |
|
209 |
|
1915 |
2.767 |
732 |
|
|
... |
... |
... |
... |
|
1922 |
1.443 |
|
821 |
|
... |
... |
... |
... |
|
1925 |
4.373 |
1.557 |
|
|
... |
... |
... |
... |
|
1929 |
1.990 |
|
156 |
|
1930 |
1.556 |
|
541 |
Os dois primeiros anos de operação (1912 e
1913) foram os de maior receita e maior saldo da Madeira-Mamoré Railway; a
partir destes anos, porém, as receitas acompanharam a queda do preço da borracha.
Os anos de 1914 e 1918, o período de 1921 a 1924 foram igualmente deficitários
para a empresa. Acompanhando o “crack”
da Bolsa de Nova York, de 1929, a empresa entrou em sérias dificuldades que a
levaram a solicitar à União a interrupção do tráfego.
O advogado e representante da empresa, Dr.
Ricardo Xavier da Silveira, no dia 25.06.1931, entrou com uma petição
declarando que a empresa estava disposta a interromper o tráfego e solicitava
que a Justiça citasse a União para receber o acervo da ferrovia.
À meia-noite do dia 30.06.1931, a Madeira
Mamoré Railway suspendeu o tráfego da Ferrovia. No dia 03.07.1931, o Procurador
Geral da República, Dr. Carlos Olyntho Braga, comparece em juízo, e apresenta a
contestação do Governo Federal afirmando que este se opunha à entrega da
Estrada.
Administração do Governo Federal
No dia 10.07.1931, o Chefe do Governo
Provisório, através do Decreto n° 20.200, determinou o restabelecimento do
tráfego da Ferrovia. O Decreto afirmava que o tráfego seria restabelecido por conta
da empresa arrendatária, com recursos provenientes da própria receita e, caso
estes não fossem suficientes, seriam computados como débito da Railway. É
interessante ressaltar que o Decreto não menciona que, conforme o estabelecido
no contrato de arrendamento de 1909, o Governo teria:
o direito de
impor uma multa por dia de interrupção igual à renda líquida do mesmo dia no
ano anterior ao da interrupção.
Esta omissão, no entanto, fora proposital já
que, no ano anterior, 1930, a receita tinha sido de 1.556 com um déficit de 541 contos de réis, não havendo,
portanto, nenhuma multa a cobrar da companhia.
|
|
Receita |
Saldo |
Déficit |
|
Ano |
(Contos de
Réis) |
||
|
1932 |
1.008 |
|
257 |
|
... |
... |
... |
... |
|
1936 |
2.138 |
155 |
|
|
1937 |
2.615 |
245 |
|
|
... |
... |
... |
... |
|
1939 |
2.496 |
|
803 |
|
... |
... |
... |
... |
|
1944 |
5.755 |
|
1.188 |
|
... |
... |
... |
... |
|
1951 |
5.358 |
|
15.147 |
|
1952 |
7.261 |
|
21.780 |
|
1953 |
6.849 |
|
29.779 |
|
1954 |
7.087 |
|
40.845 |
|
1955 |
6.772 |
|
52.887 |
|
1956 |
8.778 |
|
83.341 |
No dia 06.07.1934, o Governo Federal assinou
o Decreto n° 24.596 autorizando a rescisão amigável do contrato com a Railway.
No dia 05.04.1937, o Decreto n° 1.547 declarou rescindido o contrato de 1909.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
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