Quarta-feira, 18 de novembro de 2020 - 06h00

Bagé, 18.11.2020
Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte LIX
Madeira-Mamoré ‒ Ferrovia do Diabo ‒ XI
Caso Nehrer X Pinkas
Enfim, a tal estaca de Guajará-mirim tem estado encantada:
ainda não apareceu quem queira tomar a inteira responsabilidade de a ter
fincado; parece que o espírito maligno meteu-se nesta estaca. (José Nehrer)
Em setembro de 1885, quase um ano depois de encerrados os trabalhos da
Comissão Pinkas, é apresentado o projeto e as plantas da ferrovia. O Sr. José
Nehrer, desenhista e auxiliar técnico da Comissão, afirma que grande parte do
projeto fora forjado no escritório de engenharia. O “Jornal do Commercio” publicou uma série de artigos desencadeados a
partir da lapidar afirmativa do desenhista José Nehrer:
‒ Quem Bateu a Última Estaca em Guajará-mirim!
Jornal
do Comércio, n° 323 ‒ Rio de Janeiro, RJ
Quinta-feira, 20.11.1884
Estrada
de Ferro do Madeira e Mamoré
Por telegrama
expedido pelo Sr. engenheiro Julius Pinkas [via Fortaleza] ao Sr. Ministro da
Agricultura, consta haver chegado à cidade de Manaus a última das turmas
incumbidas do estudo da diretriz da Ferrovia do Madeira e Mamoré, tendo sido
batida a derradeira estaca em Guajará-mirim, ponto terminal da via, no dia 7 de
setembro. [...] pediu o Sr. engenheiro J. Pinkas fosse levada a grata notícia
ao alto conhecimento de S. M. o Imperador, foi declarado por aquele chefe ser
excelente e econômico o traçado estudado. [...] (JC N° 323)
Jornal
do Comércio, n° 343 ‒ Rio de Janeiro, RJ
Quarta-feira, 10.12.1884
Gazetilha
Ferrovia
do Madeira e Mamoré
Da capital da Província do
Amazonas chegou ontem no paquete “Manaos”
o Sr. Dr. Julius Pinkas com parte da Comissão de que foi chefe, e que com o
melhor êxito levou a seu termo os difíceis estudos da Ferrovia do Madeira e
Mamoré. Acha-se assim no Rio de Janeiro toda a Comissão, que ao serem
terminados os mesmos estudos se achava composta do seguinte modo:
‒ Engenheiro-chefe:
Julius Pinkas;
‒ Chefes
de secção: Edgar E. de Prissy e Cândido Ferreira de Abreu;
‒ Chefes
de turma: Lupicinio Buarque, Joaquim Carneiro de M. Horta e Ignácio Moerbeck;
‒ Engenheiros
ajudantes: Costa Ferraz, Leonel Gomes, Gaudino Menelippio Junior e Giovanni
Gagliardo;
‒ Engenheiros
militares adidos: Capitão Joaquim de Andrade e Silva e 1° Tenente Felippe
Schmidt;
‒ Desenhistas:
José Aymez e José Nehrer;
‒ Médicos:
Drs. Pedro de Alcântara Nabuco de Araújo e José Bonifácio da Cunha;
‒ Secretário:
Innocêncio José de Almeida Junior;
‒ Almoxarife:
João Lopes Pontes;
‒ Farmacêutico:
José Constâncio de Jesus.
Dois
outros membros da Comissão, o engenheiro Emílio Rahe e o Capitão Sant’Anna
Xavier de Barros, adido militar, pagaram com a vida a dedicação pelos seus
deveres falecendo o primeiro no campo, à frente da turma que dirigia, e o
segundo na capital do Pará, ao retirar-se louco para o Rio de Janeiro.
A laboriosa Comissão, ao receber
ordem de sobrestar ([1])
nos trabalhos por falta de crédito na lei de orçamento do atual exercício,
tinha-os concluído com a maior prontidão e de acordo com as instruções dadas
pelo engenheiro chefe devassando território inexplorado e, em parte,
absolutamente desconhecido, correu a Comissão e nivelou 206 quilômetros desde
Jirau até Guajará-mirim, ponto terminal da linha, tomando seções transversais
de 5 em 5 estacas. Este considerável trabalho foi efetuado no meio de
dificuldades e perigos de todo o gênero, levando-o a efeito a Comissão com
atividade e zelo que não poderiam ser excedidos.
O terreno verificado não oferece
obstáculos nem acidentes que dificultem a construção da linha. O percurso
desta, a começar do Porto-Velho que demora 6 quilômetros e 400 metros abaixo de
Santo Antônio, terá ao todo de 337 quilômetros, sujeito a encurtamentos. Os 206
quilômetros corridos e nivelados pela Comissão Pinkas nunca haviam sido
estudados. A planta levantada pela “Public
Works Construction”, somente organizada para o fim da rescisão do contrato
desta empresa com a “Madeira e Mamoré
Railway Company”, não representava traçado propriamente dito.
Tal é o valor dos estudos que
acabam do ser realizados sob a direção do Sr. engenheiro Julius Pinkas e com o
concurso de seus prestantes auxiliares. Já uma vez dissemos e é ocasião de
repetir, que louvores não devem ser regateados a quem os merece por título,
deste gênero. Os estudos de Jirau a Guajará-mirim são dos mais penosos e
arriscados que a engenharia já levou o efeito no Brasil. Com isto não
desmerecem os serviços da anterior Comissão, à qual fizemos justiça em tempo. (JC N° 343)
Jornal
do Comércio, n° 164 ‒ Rio de Janeiro, RJ
Domingo, 14.06.1885
Publicações
à Pedido
Comissão
de Estudo da
Estrada de Ferro do Madeira e Mamoré
Muito se tem falado sobre esta
Comissão. Tem-se dito mesmo, por este Jornal que os estudos foram levados até
Guajará-mirim, que, no dia 07.09.1884, fora batida em Guajará-mirim a última
estaca.
Pois bem, fiz parte da chamada 4ª
turma e fui um dos que mais longe fora Rio acima, e declaro que eu e toda o
pessoal desta turma não passamos das Bananeiras, cachoeira muito abaixo de
Guajará-mirim. No dia 10.09.1884, toda a 4ª turma achava-se no Salto do
Ribeirão, ponta inicial dos trabalhos dessa turma. Quem, pois, bateu essa
última estaca em Guajará-mirim?
Para evitar qualquer
coparticipação ou responsabilidade futura da minha parte, faço a presente
declaração. José Nehrer. (JC N° 164)
Jornal
do Comércio, n° 166 ‒ Rio de Janeiro, RJ
Terça-feira, 16.06.1885
Estrada
de Ferro do Madeira e Mamoré
Chamando a atenção para o artigo
de 14 do corrente do Sr. Nehrer, pergunta-se ao Sr. Pinkas: “Quem bateu em Guajará-mirim a última estaca?”
Em vista desse artigo é admirável a ousadia de quem passou o telegrama
publicado na gazetinha do “Jornal do
Commércio” de 20.11.1884, dirigido ao Ministro da Agricultura, no qual pede
a S. Exª para levar a grata notícia ao alto conhecimento de S. M. o Imperador.
Não respeitar o chefe da nação,
tão respeitado por todos os brasileiros, é ousadia de mais. A luz. (JC N° 166)
Jornal
do Comércio, n° 176 ‒ Rio de Janeiro, RJ
Sexta-feira, 26.06.1885
Publicações à Pedido
Comissão
de Estudo da
Estrada de Ferro do Madeira e Mamoré
Tendo chamado à responsabilidade o
signatário do artigo que com a epigrafe acima foi publicado no “Jornal do Commércio” de 14 deste mês,
apresentou-se como responsável legal pela publicação do tal artigo Romão José
de Lima, já há muito conhecido do público. [...]
Por este documento verá o público
e os meus colegas a boa-fé dos que negam os brilhantes trabalhos que esta
comissão efetuou. Um último aviso: Publiquem artigos caluniosos, arranjem
comparsas irresponsáveis, neguem a todo o transe a verdade dos fatos, que o
público, os meus colegas e o Governo Imperial estão plenamente convencidos de
ter esta comissão cumprido o seu dever. Aos que tratam de explorar, aconselho
outro procedimento, e aos irresponsáveis prometo não mais responder.
Engenheiro Ignácio Moerbeck,
Ex-chefe da 4ª turma
Rio de Janeiro, 25 de junho de
1885. (JC N° 176)
Bibliografia
JC N° 164. Comissão de
Estudo da Estrada de Ferro do Madeira e Mamoré – Brasil – Rio de Janeiro,
RJ – Jornal do Comércio n° 164, 14.06.1885.
JC N° 166. Estrada de Ferro
do Madeira e Mamoré – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Jornal do Comércio n°
166, 16.06.1885.
JC N° 176. Comissão de
Estudo da Estrada de Ferro do Madeira e Mamoré – Brasil – Rio de Janeiro,
RJ – Jornal do Comércio, n° 176 26.06.1885.
JC N° 323. Estrada de Ferro
do Madeira e Mamoré – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Jornal do Comércio n°
323, 20.11.1884.
JC N° 343. Ferrovia do
Madeira e Mamoré – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Jornal do Comércio n° 343,
10.12.1884.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
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