Quarta-feira, 20 de janeiro de 2021 - 10h00

Bagé, 20.01.2021
Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte X
Realmente,
o caucheiro não é apenas um tipo inédito na História. É, sobretudo, antinômico
([1])
e paradoxal. No mais pormenorizado quadro etnográfico não há lugar para ele. A
princípio figura-se-nos um caso vulgar de civilizado que se barbariza, num
recuo espantoso em que se lhe apagam os caracteres superiores nas formas
primitivas da atividade. (CUNHA, 2000)
Castilla ulei
A
Castilla ulei, mais conhecida como caucho, é uma árvore nativa da floresta
amazônica, da qual se extrai um látex que produz borracha de qualidade
inferior.
A
técnica do caucheiro consistia em identificar a Castilla, abatê-la, cortá-la em
toras de aproximadamente um metro, fazer cortes profundos e extrair-lhe o leite
que escorria para dentro das rasas cavidades retangulares escavadas no chão ou
nos próprios troncos onde se acumulava e ganhava rigidez. O material elástico
da fôrma depois de pronto chamava-se “plancha”.
Quando o produto solidificava, o caucheiro o retirava e, se havia sido
manufaturado no chão, dava-lhe algumas pancadas para limpar a areia e o barro
aderido.
De
cada árvore conseguia retirar de 8 a 16 quilos de caucho. Em pouco tempo,
arrasado o cauchal e o seu entorno, havia necessidade de buscar novas fontes da
goma e os “exterminadores de árvores”
partiam cumprindo sua cíclica sanha.
Ocupação Predatória
Partiendo términos por el septentrión con la
Real Audiencia de Lima y Provincias no descubiertas... por el levante con el
Mar del Norte y línea de demarcación entre las coronas de los Reinos de
Castilla y de Portugal por la parte de las Provincias de Santa Cruz del Brasil.
(Libro 2° da “Recopilación das Indias”, 1680)
As
“Provincias no descubiertas” situadas
das cabeceiras do Madre de Dios e do Ucaiali foram sendo invadidas pelos
caucheiros somente a partir da segunda metade do século XIX (1860). Uma nova
civilização penetrava naqueles “ermos dos
sem fim”, resoluta e cruelmente “no
afogado das selvas”, como dizia Euclides da Cunha.
Desta forma, as suas extremas Setentrionais, apenas definidas nas terras
mais abeiradas da Cordilheira, a defrontarem as do Departamento de Cuzco,
ampliavam-se logo, indeterminadamente, para o Norte, no difuso de uma penumbra
geográfica, “Provincias no Descubiertas”.
E o que pode afigurar-se de restritivo neste rumo, desaparece de todo naquele
desafogo largo para o levante. A lei é límpida: os limites por ali iriam até
onde fosse a Linha de Demarcação entre Portugal e Espanha. As Províncias ainda
não descobertas, mostra-o o próprio impreciso desta expressão crepuscular,
predestinavam-se a extinguir-se, ou a recuar, continuadamente, ante o simples
desenvolvimento de uma divisa Oriental, que se dilataria, margeando a
meridiana, sem termos prefixos, até aonde se estendessem as terras lusitanas, a
extinguir-se no Atlântico Norte. Não há interpretação mais lógica. Todos os
antecedentes a esteiam, inabalável. A fatalidade física, tangível e rijamente
geognóstica, que apontamos, há pouco, como determinante da constituição
territorial da Bolívia, harmoniza-se, neste caso, com as leis sociais mais
altas. A sua missão histórica erigindo-a, no levante, em barreira protetora dos
domínios castelhanos, traçou-lhe desde o princípio, naturalmente ‒ no
indeterminado das paragens ainda ignotas, ou “no descubiertas”, uma diretriz inflexível para o Norte,
acompanhando, num movimento heroico, os rastros da expansão lusitana.
Paulatinamente os caucheiros ultrapassaram o Ucaiali e alcançaram as nascentes
do Purus, do Juruá e do Javari, estendendo seus limites aleatoriamente na faina
arrasadora de extrair a goma das árvores. (CUNHA, 1907)
Por
volta da última década do século XIX, o caucheiro peruano Carlos Fiscarrald
abriu o varadouro entre o Urubamba (um dos braços do Ucaiali) e o Madre de Dios
(afluente do Beni/Madeira), arrastando sua lancha Contamana pela terra, por uma
estreita faixa de terra (12 km), que separa as duas Bacias hidrográficas e que passou,
a partir de então, a ser denominada “Istmo
de Fiscarrald” (12°01’39,7” S / 71°56’04,2” O).
Aos
poucos, essas penetrações foram se estendendo até que Leopoldo Collazas, em
1899, partindo do Urubamba, chegou ao Alto-Purus, embora alguns autores atribuam
este feito a Delfin Fiscarrald, irmão de Carlos Fiscarrald. Estava aberto um
novo campo de ação para os caucheiros peruanos.
Collazas
instalou-se a montante de Sobral, último barracão brasileiro no Rio Purus, e
negociava com as populações ribeirinhas brasileiras, mercadoria ou dinheiro em
troca da extração do caucho e borracha. Estes produtos eram adquiridos em
Manaus e transportados na lancha “Rio
Autaz”, de sua propriedade.
Caucheiros (Euclides da Cunha)
[...] batedores da sinistra catequese a ferro e fogo, que vão exterminando naqueles
sertões remotíssimos os mais interessantes aborígenes Sul-americanos.
(CUNHA, 2000)
Euclides
da Cunha faz uma narrativa contundente do “Modus
Vivendi” dos caucheiros peruanos que somente décadas depois dos pioneiros
brasileiros começaram a penetrar na região marcando sua presença a sangue,
ferro e fogo.
Quando Carlos Fiscarrald chegou, em 1892, às cabeceiras do Madre-de-Dios,
vindo do Ucaiali pelo varadouro aberto no Istmo que lhe conserva o nome,
procurou captar do melhor modo os Mashcos ([2])
indomáveis que as senhoreavam. Trazia entre os Piros que conquistara um
intérprete inteligente e leal. Conseguiu sem dificuldades ver e conversar com o
curaca selvagem.
A conferência foi rápida e curiosíssima. O notável explorador, depois de
apresentar ao “infiel” os recursos
que trazia e o seu pequeno exército, onde se misturavam as fisionomias díspares
das tribos que subjugara, tentou demonstrar-lhe as vantagens da aliança que lhe
oferecia contrapostas aos inconvenientes de uma luta desastrosa. Por única
resposta o Mashco perguntou-lhe pelas flechas que trazia. E Fiscarrald
entregou-lhe, sorrindo, uma cápsula de Winchester. O selvagem examinou-a, longo
tempo, absorto ante a pequenez do projétil. Procurou, debalde, ferir-se,
roçando rijamente a bala contra o peito. Não o conseguindo, tomou uma de suas
flechas; cravou-a de golpe, no outro braço, varando-o. Sorriu, por sua vez,
indiferente à dor, contemplando com orgulho o seu próprio sangue que
esguichava... e sem dizer palavra deu as costas ao sertanista surpreendido,
voltando para o seu “tolderio” com a
ilusão de uma superioridade que a breve trecho seria inteiramente desfeita. De
fato, meia hora depois, cerca de cem Mashcos, inclusive o chefe recalcitrante e
ingênuo, jaziam trucidados sobre a margem, cujo nome, Playamashcos, ainda hoje
relembra este sanguinolento episódio... Assim vai desbravando-se a região
bravia. Varejadas as redondezas, mortos ou escravizados num raio de poucas léguas
os aborígines, os caucheiros agitam-se febrilmente na azáfama estonteadora. Em
alguns meses ao lado do primitivo “tambo”
multiplicam-se outros; a “casucha”
solitária transmuda-se em amplo “barracone”
ou “embarcadero” ruidoso; e
adensam-se por vezes as vivendas em “caserios”,
a exemplo de Cocama e Curanja, à margem do Purus, a espelharem, repentinamente,
no deserto, a miragem de um progresso que surge, se desenvolve e acaba num
decênio. Os caucheiros ali estacionam até que caia o último pé de caucho. Chegam,
destroem, vão-se embora. (CUNHA, 2000)
Bibliografia
ALVAREZ, Ricardo. Los Piros: Legendas, Mitos Cuentos – Perú –
Lima – Instituto de Estudios Tropicales Pio Aza, 1960.
CUNHA, Euclides da. Peru Versus Bolívia – Brasil – Rio de Janeiro,
RJ – Livraria Francisco Alves, 1907.
CUNHA, Euclides da. Um Paraíso Perdido – Brasil – Brasília, DF –
Senado Federal, Conselho Editorial, 2000.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
[1] Antinômico: contraditório.
[2] Mashcos: a primeira notícia que se tem
relativa aos Mashcos remonta aos idos de 1686, quando um grupo de soldados
espanhóis acompanhados dos Conibos subiu o Rio Ucaiali com o objetivo de vingar
a morte do Padre Jesuíta Richter, morto pelos Piro. No trajeto, o chefe Conibo
Don Felipe Cayá-bay relatou ao missionário franciscano Manuel Biedma que em um
tributário Oriental do Ucaiali, morava a “muito
numerosa nação dos Mashcos”. A palavra mashco na língua Conibo significa “pequeno, baixo em estatura”. (ALVAREZ)
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