Sexta-feira, 15 de janeiro de 2021 - 06h00

Bagé, 15.01.2021
Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte VII
Pioneiros
Brasileiros II
A Seca Grande (1877-1879)
Guiado talvez por instintivo impulso de
aventura, desprezou as regiões dos baixos Rios, que continuaram a ser o
habitat da população indígena, penetrou os altos
sertões e violou-os até as linhas imprecisas
de suas fronteiras ainda mal traçadas. (LIMA)
As caravanas de retirantes a
marchar sempre, como o Ahasverus da lenda, suplicando
embalde à muda imensidade uma gota d’água para lhes mitigar o calor dos lábios
incendiados pela sede! Tudo era miséria e desolação! As árvores, como
esqueletos de pé, estendiam os braços ao espaço, enquanto um vento quente e
impetuoso varria do solo as folhas torradas pelo Sol! (THEOPHILO)
A
maior seca de todos os tempos assola a região Nordeste vitimando mais de 500
mil nordestinos. O auge da produção e comercialização da borracha estimula
enormes levas de flagelados a serem transportados precariamente para os
seringais. Milhares perdem a vida no trajeto e os sobreviventes são abandonados
à própria sorte na floresta hostil. Rodolpho Theophilo faz uma analogia entre o
fado dos retirantes nordestinos e a maldição do lendário Ahasverus. Reza a lenda que Ahasverus, contemporâneo de Jesus
Cristo, possuía uma oficina, em Jerusalém, localizada na rua por onde cruzavam
os condenados à morte por crucificação, carregando suas pesadas cruzes.
Na
Sexta-feira da Paixão, Cristo, ao passar na frente da oficina de Ahasverus, foi
por ele escarnecido e agredido e, Jesus, então, condenou-o à imortalidade e a
vagar “in æternum”.
O
Seringueiro, como o sertanejo de Euclides da Cunha, era antes de tudo um forte,
não esmorecia e com a obstinação de um titã, com uma energia e tenacidade
assombrosas enfrentava, heroicamente, a floresta, os selvagens e as feras que
os espreitam nas estradas da seringa.
É
uma raça extraordinária empreendendo uma marcha colonizadora épica jamais
registrada nos anais da História da Humanidade. Pouco a pouco, os seringais vão
prosperando às margens do Madeira, do Purus, do Acre, do Tarauacá, do Juruá, do
Abunã, do Iaco e do Beni. Não lhes importa de quem seja aquilo, como dizia
Euclides da Cunha, era “terra por
desbravar, por construir”. O látex transforma a Amazônia num verdadeiro “El-Dorado”.
O Vaticínio de William Chandless
William
Chandless, como todos os cientistas e naturalistas estrangeiros que percorreram
os “ermos sem fim” da Amazônia
Brasileira, não acreditavam na férrea determinação e a ciclópica vontade de uma
raça forjada no calcinado sertão nordestino expulsa de seu torrão natal pela
seca inclemente. Desconheciam a força de uma raça capaz de enfrentar as mais
adversas reações do meio físico, uma raça que foi capaz de adaptar-se e
triunfar sobre a natureza, gravando nas páginas de nossa história gloriosos
exemplos de civismo e de heroicidade.
William
Chandless não tinha a lucidez de um Euclides de Cunha que nos faz uma análise
importante, no seu “Um Paraíso Perdido”,
de como os vigorosos estrangeiros nordestinos pagaram caro o aclimatamento à “Terra das Águas” antes que os genes mais
vigorosos dos pioneiros fossem impregnados com as suas melhores e mais fortes
virtudes e predicados e repassados às novas gerações.
De fato – à parte o
favorável deslocamento paralelo ao Equador, demandando as mesmas Latitudes – não se conhece na História exemplo mais
golpeante de emigração tão anárquica, tão precipitada e tão violadora dos mais
vulgares preceitos de aclimatamento, quanto o da que, desde 1879 até hoje,
atirou, em sucessivas levas, as populações sertanejas do território entre a
Paraíba e o Ceará para aquele recanto da Amazônia. [...]
Salvam-se os que melhor balanceiam os fatores do clima e os atributos
pessoais. O aclimado ([1])
surge de um binário de forças físicas e morais que vão, de um lado, dos
elementos mais sensíveis, térmicos ou higrométricos, ou barométricos, às mais
subjetivas impressões oriundas dos aspectos da paisagem; e de outro, da
resistência vital da célula ou do tônus muscular, às energias mais complexas e
refinadas do caráter. Durante os primeiros tempos, antes que a transmissão
hereditária das qualidades de resistência, adquiridas, garanta a integridade
individual com a própria adaptação da raça, a letalidade inevitável, e até
necessária, apenas denuncia os efeitos de um processo seletivo. Toda a
aclimação é desse modo um plebiscito permanente em que o estrangeiro se elege
para a vida. (CUNHA, 2000)
Migração Nordestina
João
Craveiro Costa no seu livro “A Conquista
Ocidental do Deserto Ocidental”, editado pela Companhia Editora Nacional,
em 1940, rebate o vaticínio de William Chandless e relata a migração
nordestina.
O Purus
A impressão de Chandless não foi favorável ao Purus. Dela refere Jean
Jacques Élisée Reclus a notícia que nos chegou. Levou-a Chandless ao
conhecimento da Geographical Society, de Londres, prenunciando ao grande Rio séculos
para o seu povoamento, “tal o flagelo dos
mosquitos, a insalubridade dos campos ribeirinhos e as mudanças incessantes que
se dão no regime do Rio”.
Mas o próprio Chandless registrou o movimento comercial que se operava no
Purus. A exportação, em 1861, não era de desprezar: 793 arrobas de
salsaparrilha, 9.936 de cacau e 16.777 de borracha. Três anos depois,
verificava-se um aumento sensível: salsaparrilha 3.092 arrobas; 14.100 de cacau
e 36.625 de borracha. A importação, segundo o mesmo explorador, assinalava a
cifra de 20.000 libras esterlinas, aproximadamente. Falhou o vaticínio de
Chandless. A riqueza vegetal das margens do Purus despertou a cobiça do
comércio e, em 1869, ele começou a ser navegado por vapores da Companhia
Fluvial Paraense, organizada no mesmo ano da celebração do Tratado de Limites
com a Bolívia, para a navegação do Amazonas e seus tributários principais. Em
1871, excedia de 2.000 o número de seringueiros na região estabelecidos e a
fundação da Cidade de Lábrea, à Foz do Rio Ituxi por Pereira Lábrea, data
daquele ano.
Não eram o Purus e o Acre, como declarou
o Sr. Dyonizio de Cerqueira, uma região
abandonada, por ocasião do tratado de 1867. Pela
Bolívia ela o era certamente, não só abandonada, mas inteiramente
desconhecida. O Acre entrou para os nossos conhecimentos hidrográficos desde
1860, pela exploração de Manoel Urbano, ao passo que os bolivianos o
desconheciam por completo, tanto assim que o próprio Beni, “depois de várias tentativas para ser
explorado, só o foi em 1881 por Antenor Vasquez e, em 1884, pelo Padre Armentia”.
(COSTA)
(Antônio de Frederico Castro Alves)
Sabes quem foi Ahasverus? ([2]) – o precito ([3]),
O mísero Judeu, que tinha escrito
Na fronte o selo ([4]) atroz!
Eterno viajor de eterna senda...
Espantado a fugir de tenda em tenda,
Fugindo embalde à vingadora voz!
Misérrimo! Correu o mundo inteiro,
E no mundo tão grande... o forasteiro
Não teve onde... pousar.
Com a mão vazia – viu a terra cheia.
O deserto negou-lhe – o grão de areia.
A gota d’água – rejeitou-lhe o Mar.
D’Ásia as florestas – lhe negaram sombra
A savana sem fim – negou-lhe alfombra ([5]).
O chão negou-lhe o pó! ...
Tabas, serralhos ([6]), tendas e solares...
Ninguém lhe abriu a porta de seus lares
E o triste seguiu só.
Viu povos de mil climas, viu mil raças,
E não pôde entre tantas populaças
Beijar uma só mão...
Desde a virgem do Norte à de Sevilhas,
Desde a inglesa à crioula das Antilhas
Não teve um coração!
E caminhou! ... E as tribos se afastavam
E as mulheres tremendo murmuravam
Com respeito e pavor.
Ai! fazia tremer do vale à serra...
Ele que só pedia sobre a terra
– Silencio, paz e amor! –
No entanto à noite, se o Hebreu passava,
Um murmúrio de inveja se elevava,
Desde a flor da campina ao colibri.
“Ele não morre” a multidão dizia...
E o precito consigo respondia:
– “Ai! mas nunca vivi!” –
O Gênio é como Ahasverus... solitário
A marchar, a marchar no itinerário
Sem termo do existir.
Invejado! a invejar os invejosos,
Vendo a sombra dos alamos frondosos...
E sempre a caminhar... sempre a seguir...
Pede uma mão de amigo – dão-lhe palmas;
Pede um beijo de amor – e as outras almas
Fogem pasmas de si.
E o mísero de gloria em gloria corre...
Mas quando a terra diz: – “Ele não morre”
Responde o desgraçado: – “Eu não vivi! ...”
Bibliografia
COSTA, João Craveiro. A Conquista Ocidental do Deserto Ocidental
– Brasil – São Paulo, SP – Companhia Editora Nacional, 1940.
LIMA, José Francisco de Araújo. Amazônia - a Terra e o Homem –
Brasil – São Paulo, SP – Companhia Editora Nacional, 1937.
THEOPHILO, Rodolpho. Libertação do Ceará – Brasil – Ceará –
Fundação Waldemar Alcântara, 2001
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
[1] Aclimado: aclimatado.
[2] Ahasverus:
também chamado de Assuero ou Cartafilo, zombou de Jesus Cristo quando este
passava em frente a sua residência com a pesada cruz às costas. A punição por
esse ato tão desrespeitoso veio logo em seguida. Como castigo, o sapateiro foi
amaldiçoado pelo Messias à errância eterna: a caminhar infinitamente pelo
mundo, até o fim dos tempos, até a chegada do Apocalipse, sem ter paz nem descanso
e sem nunca poder conhecer a morte. (Kenia Maria de Almeida Pereira) ‒
referência na página 104 deste livro.
[3] Precito:
condenado.
[4] Selo: destino.
[5] Alfombra: tapete
espesso e fofo.
[6] Serralhos:
palácios dos sultões.
Galeria de Imagens
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