Segunda-feira, 14 de dezembro de 2020 - 09h04

Bagé, 14.12.2020
Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte LXXVIII
Só
se pode amar as coisas que se conhece e entende... Só lutamos e defendemos o
que amamos.
(Thiago de Mello)
Marmelos (31.12.2011/01.01.2012)
Nossa
passagem pelo Rio Marmelos, teve muitos significados importantes. Além de
transpormos as fronteiras físicas de dois Municípios, Humaitá e Manicoré,
rompemos a barreira cronológica de 2011 para 2012, encerramos as homenagens aos
40 anos do 2° Grupamento de Engenharia, Grupamento Rodrigo Octávio e iniciamos
nosso preito aos 100 anos do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA).
Meu
filho João Paulo, que me acompanha neste périplo, é, por enquanto, o último de
três gerações de “Reis e Silva” que
vibraram e se emocionaram percorrendo as históricas arcadas do Velho Casarão da
Várzea. Meu pai, Cassiano Reis e Silva, da turma de 1939, foi aluno da então
Escola Preparatória de Cadetes, local em que eu e meus dois irmãos estudamos,
nas décadas de 60/70, e em que, mais tarde, passaram meus três filhos, na
década de 90 e na primeira década da virada do século.
Praticamente,
de duas em duas décadas um “Reis e Silva”
se fazia presente no CMPA, por isso recorri ao número 20, seguido de dois zeros
(centenário do CMPA) para determinar a extensão de minha jornada. Esta descida
de 2.000 km, a mais longa de todas até agora, reflete o meu reconhecimento aos
queridos mestres e ao Velho Casarão que orientaram meus passos desde a
adolescência e me encaminharam, adulto, vitorioso e virtuoso, para a Academia
Militar das Agulhas Negras.
Lá,
segundo o Capitão Camargo, Comandante da 2ª Companhia do Curso Básico, a missão
dos instrutores não era “corrigir
defeitos, mas sim para aprimorar virtudes”. Meu querido CMPA: tenhas a
certeza de que cada gota de suor derramado no Rio Madeira ou no Rio Amazonas,
cada contração muscular, cada regozijo ou dor fazem-me vibrar de emoção porque
cada um deles representa uma humilde oferenda por tudo que tu representas para
mim, para meus familiares e para o Brasil. Zum zaravalho!!!
Última Noite em Manicoré (06.01.2012)
A
distância que nos separava do próximo alvo, Nova Aripuanã, era de 150 km. No
planejamento inicial, eu previra três dias; o que se alcançaria com muita
folga, decidi fazer em dois ‒ o primeiro lance em torno dos 85 km, e o segundo,
dos 65 km. Na véspera da partida, dia seis de janeiro, mostrei ao Comandante
Mário nosso objetivo intermediário, a Foz do Rio Mataurá. Pela imagem do Google
Earth, era um belo Rio de águas limpas que se chocava com as barrentas do
Madeira, proporcionando um breve e curioso “encontro
das águas”.
Combinei
com nosso caro amigo e repórter Walter Filho que estaríamos em condições de
sair a partir das cinco horas da manhã, condicionando a largada aos primeiros
raios de luz, já que a jornada era muito longa.
Partida de Manicoré (07.01.2012)
Resolvi
dormir embarcado para não atrasar a saída. A sinfonia noturna foi muito ruidosa
e meu sono por demais entrecortado; arrependi-me de não ter permanecido no
Hotel dos irmãos Macaxeiras, por mais uma noite.
Uma
das pequenas pererecas mais parecia uma velha e barulhenta furadeira, cheguei a
sonhar com alguém furando um piso de granito. Acordei às 04h40 e resolvi me
equipar silenciosamente. Às cinco horas, toquei alvorada e no mesmo instante
visualizei a silhueta do Walter descendo a enorme escadaria de madeira que dava
acesso à embarcação. Pela primeira vez, pude constatar um repórter
britanicamente pontual. Os poucos dias de convivência com o Waltinho, como
carinhosamente o chamam, mostraram o quanto ele ama o que faz e o seu alto grau
de profissionalismo e perfeccionismo.
Colocamos
o caiaque n’água e remei um pouco para montante e depois ao sabor da corrente,
sob o holofote do Piquiatuba, para que o Walter fizesse sua última tomada da
matéria. Retornei para despedir-me do caro amigo de Manicoré e remei forte rumo
ao Mataurá. Tinha remado alguns quilômetros quando o João Paulo resolveu me
acompanhar, acordar cedo nunca foi seu forte.
Nas
primeiras duas horas, a neblina reduzia a visibilidade a uns 800 metros, o
tempo foi melhorando e mantivemos um ritmo forte e sem paradas, a hidratação e
alimentação no percurso foi feita embarcada. Pouco antes de abordarmos a Foz do
nosso alvo, observamos um bando de urubus sobre algumas árvores à flor d’água,
resolvi me aproximar, para averiguar, e avistei um jacaré-açu de uns quatro
metros e meio sendo devorado pelos funestos carniceiros. Chegamos à Foz do
Mataurá, por volta das 11h30, depois de remar 85 km sem parar, a uma média de
13,5 km/h. As águas eram muito limpas e o local bastante agradável, ouvimos ao
longe um foguetório que anunciava que a Comunidade Maravilha estava em festa,
afinal era sábado.
O
leiloeiro do evento, conhecido como “Jabá”
veio, gentilmente com seus familiares, até o Piquiatuba convidar a tripulação
para participar dos festejos que incluíam jogos, leilões e naturalmente um
animado forró.
Partida de Mataurá (08.01.2012)
O
lance era mais curto, aproximadamente de 65 km, mas resolvi sair cedo aproveitando
a lua. Logo na saída da Foz do Mataurá, o Rio inflete para a esquerda num
ângulo de 90° ao mesmo tempo em que se comprime entre as margens aumentando
sensivelmente a correnteza e provocando redemoinhos e banzeiros já que as
ondas, acompanhando a corrente, se chocam contra o enorme barranco e retornam
provocando um perigoso turbilhonamento. Felizmente ninguém resolvera me
acompanhar, de caiaque, logo cedo; eu precisava, nesta hora, de toda a atenção
concentrada no meu deslocamento apenas.
O
fétido jacaré-açu morto que encontráramos, na véspera, estava descendo o Rio,
felizmente minha velocidade era bem maior e logo me vi livre do ar nauseabundo
que o cercava. A meio caminho, uma voadeira veio na minha direção, seus
tripulantes tinham participado dos folguedos da Comunidade Maravilha e estavam
curiosos a respeito de minha viagem, respondi às suas perguntas e continuei,
célere, minha jornada. O Comandante Mário resolveu me acompanhar em dois
trechos, a velocidade agora oscilava entre 15 e 16 km/h, ele precisou voltar ao
Piquiatuba por duas vezes tendo em vista que alguns locais exigiam cautela
redobrada na condução do barco a motor. Chegamos a Nova Aripuanã exatamente às
10h00, depois de 04h30 de navegação. Havíamos quebrado nosso recorde de velocidade
média, atingimos 14,44 km/h. Brinquei com meu filho e a tripulação, que esta
etapa, não dera tempo nem mesmo de aquecer o corpo, tão rápido fora o
deslocamento.
Nova Aripuanã (08.01.2012)
Depois
do almoço, procuramos a PM que indicou o Hotel do Tio Zé para me hospedar. Mais
tarde, seguindo a orientação do Walter Filho, procuramos o Ir:. Newton Aroucha
Filho, no seu Posto de Combustível. O Newtinho contatou o Prefeito que,
imediatamente, nos procurou e nos levou até um encontro das 32 Comunidades da
Reserva Juma, coordenado pela Amarjuma que estava acontecendo na Cidade.
O
Prefeito Aminadab Meira de Santana foi interpelado sobre diversas questões como
educação, merenda escolar, saúde e transporte e a todas respondeu com muita
serenidade.
A
administração está conseguindo recursos através de créditos de carbono que
deverão dobrar o orçamento da Prefeitura para o ano que vem. Aminadab Santana
prometeu aplicar 90% destes recursos na área rural.
Nova Aripuanã (09/10.01. 2012)
Logo
de manhã, acompanhamos o Prefeito Aminadab nas suas andanças pela Cidade,
tomamos café na sua residência, visitamos a Prefeitura e as Secretarias, onde
pudemos observar a falta de comprometimento com o trabalho por parte da maioria
de seus Secretários, forçando o Prefeito a intervir diretamente em questões
inerentes a cada uma das pastas.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
Galeria de Imagens
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