Quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021 - 07h03

Bagé, 25.02.2021
Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte XXXVI
Porto Walter –
Cruzeiro do Sul
Depois de alguns dias de
permanência, os mosquitos foram-se tornando tão intoleráveis que já não nos
permitiam sequer pensar em ficarmos sentados à tardinha lendo ou escrevendo. Aí
ficamos sabendo que os moradores costumam queimar esterco de vaca junto às portas,
a fim de afugentar aquela praga, que é como aqui os denominam com muita
propriedade. Esse é o único recurso que produz algum efeito contra eles.
(WALLACE)
25.12.2012 ‒ Rumo à Comunidade Ruças
O
Angonese resolveu tentar a sorte na pescaria embarcando na lancha “Mirandinha” e o Marçal assumiu o comando
do “indomável”, me acompanhando neste
percurso de mais de 55 km até o Rio Valparaíso. Partimos às 07h15, o nível das
águas do Juruá baixara mais de um metro em 24 horas e, em consequência, a
velocidade das águas diminuíra consideravelmente. Como se isso não bastasse, o
Sol inclemente e a ausência de nuvens minou sensivelmente nossas energias e
chegamos bastante cansados à Foz do Rio Valparaíso (08°01’09,5” S\72°44’43,1”
O) onde tivemos ainda de remar uns 500 m Rio acima para alcançar a Comunidade
Ruças. O Angonese e o Mário já tinham conseguido com o Sr. Antônio, morador
local, autorização para acamparmos na Escolinha Municipal Alfredo Said.
Poderíamos
fazer uso das instalações sanitárias e tomar um bom banho de caneca, usando a
água da cisterna, alimentada por água da chuva. O excelente carreteiro para
nosso almoço foi preparado pelo Marçal na residência do Sr. Antônio, tudo
corria bem, havia apenas um senão, enxames de carapanãs, piuns e maruins disputavam
nosso sangue avidamente. Alguns deles conseguiam passar pela tela das barracas
– a situação era drástica. O Mário conseguiu uma chapa metálica e iniciou um
pequeno fogo onde colocou folhas verdes de ingá. O Angonese e o Mário foram
pescar e eu e o Marçal ficamos sofrendo com o ataque dos pequenos insetos que
não se intimidaram com a fumaça, até que resolvemos fazer uso de uma antiga e
infalível receita. Recolhemos esterco seco de gado e alimentamos o fogo, o
efeito logo se fez sentir – os famigerados seres alados sumiram e nos deixaram
em paz.
Quando
criança, desde os 6 anos de idade, acompanhava meu pai nas caçadas e pescarias
e este remédio contra os insetos sempre se mostrou extremamente eficaz.
Diferente das noites anteriores em que os maruins conseguiam passar pelas telas
das barracas e os carapanãs ficavam zumbindo do lado de fora, tivemos uma noite
agradável e reparadora.
26.12.2012 ‒ Rumo à Comunidade Nova Cintra
Partimos
eu e o Angonese logo depois das 07h00. Diferente do dia anterior, a manhã já se
iniciou bastante nublada e uma garoa fina nos acompanhou até a Comunidade Nova
Cintra (07°49’28,1” S/72°39’31,1” O) aonde aportei por volta das 12h10,
plenamente em forma, depois de percorrer 56 km.
Estranhei
a demora de minha equipe e resolvi adiantar os contatos. Puxei o caiaque
barranco acima e procurei a moradora de uma casa mais próxima. A simpática Dona
Maria de Nazaré de Souza Correia, muito prestativa, informou-me onde ficava a
residência da Sra. Nonata, encarregada da modelar Escola Estadual José de Souza
Martins. Depois de recorrer a diversos moradores, cheguei, finalmente, à
residência da Dona Nonata, uma simpática idosa, que informou que não tinha
autoridade para liberar as instalações escolares para montarmos nosso acantonamento,
mas que podíamos utilizar a varanda e a grande cozinha de sua casa para nos
instalarmos. Frustrado nas minhas pretensões de acampar na escolinha, resolvi
deixar o material que carregava na casa de minha nova anfitriã e voltei para a
margem para aguardar minha equipe.
Estava
na margem observando o Rio quando se aproximou Dona Maria de Nazaré e perguntei
se poderíamos usar a igreja em construção para acampar e ela informou que sim.
A igreja ficava bem mais perto da margem do que a residência de Dona Nonata.
Poderíamos fazer a comida na cozinha de Dona Maria e tomar banho na cacimba
logo abaixo.
Ficamos
conversando durante uma hora até que avistamos o Coronel Angonese. Chamei o
amigo e ajudei-o a puxar o caiaque pelo alto e escorregadio barranco. Aguardamos
uns dez minutos até que o Mário e o Marçal apareceram subindo o Rio. Os
marinheiros não haviam notado o meu caiaque na barranca e passaram ao largo. O
curioso é que eles tinham fotografado a Comunidade Nova Cintra e meu caiaque “Cabo Horn” aparecia nitidamente nas
fotos.
Falei,
brincando, que como castigo o Mário teria de ir até a casa de Dona Nonata
buscar minhas coisas e trazê-las para a igreja onde iríamos acampar.
Descarregamos o material da lancha e eu estava fazendo uma faxina na igreja em
construção quando o Mário disse que estávamos autorizados a acampar na
escolinha. Quando lá cheguei, estava Dona Nonata gerenciando a limpeza do local
para nosso acampamento, ela liberou, também, através da servente da escola, a
cozinha e as instalações sanitárias. Realmente a sagaz capacidade de negociação
do Mário para com os ribeirinhos ficou, mais uma vez evidenciada, conseguindo
deles o maior apoio possível. Tomamos um bom banho com água de poço artesiano e
fomos almoçar o saboroso carreteiro preparado pelo Marçal, na residência da
simpática senhora Maria de Nazaré. Enquanto almoçávamos, Dona Maria de Nazaré
relatou a passagem do místico Irmão Francisco José da Cruz pela Comunidade nos
idos de 1968, quando ela tinha apenas 5 anos, e o enorme Cruzeiro que o mesmo
fez erigir na elevação mais alta defronte ao Rio Juruá. A Cruz fora atacada
pelos cupins, mas os fiéis erigiram uma nova no mesmo local e a ela amarraram a
antiga e venerada cruz. Mais adiante, contaremos a história deste estranho e
místico pregador que plantou inúmeros cruzeiros ao longo da Bacia do Amazonas.
27.12.2012 ‒ Rumo a Cruzeiro do Sul, AC
Acordamos
ao clarear o dia e, depois de fazer uma faxina completa nas instalações da
escolinha e nos despedimos de Dona Maria de Nazaré, iniciamos nossa jornada. O
ritmo das remadas foi bem mais lento que o dos dias anteriores.
Apenas
45 km nos separavam do Porto do 61° BIS, em Cruzeiro do Sul. Tínhamos
combinado, com o repórter Leandro Altheman, jornalista da TV Aldeia, do grupo
SBT, que passaríamos pela Ponte da União exatamente às 13h00. A “Mirandinha” teve de abastecer 20 litros
em Rodrigues Alves, a 30 km de nosso destino, nosso motor de 40 Hp, na descida
mantivera uma média preocupante de apenas 2 km/l. Aproveitamos para curtir a
natureza, observar as frágeis embarcações ribeirinhas que passavam carregadas
de gêneros e pessoas, em uma delas seis cães acompanhavam, estáticos, seus
donos sem esboçar o mínimo movimento o que, certamente, poderia comprometer o
equilíbrio da instável voadeira. Aportamos, às 11h00, em uma praia 500 metros à
montante da Foz do Moa e fizemos contato com o Leandro, através de minha
querida parceira Rosângela que se encontrava em Bagé, para tentar antecipar em
uma hora a reportagem. O Leandro acionou imediatamente sua equipe e agendamos
então, para as 12h00, a passagem pela Ponte.
O
dia claro e com poucas nuvens prometia facilitar as tomadas da equipe de
televisão. Às 11h30, iniciamos lentamente nossa aproximação, o tempo começou a
mudar, nuvens pesadas surgiram pela proa trazendo logo em seguida chuva, ventos
fortes encapelando as águas. Era cedo ainda, eu e o Angonese nos agarramos a
alguns arbustos nas margens, aguardando a hora marcada. Às 11h40, mandei a
equipe de apoio realizar um reconhecimento para verificar se os repórteres
estavam a postos e, como a resposta foi negativa, ficamos realizando pequenas
remadas Rio acima, para aquecer os corpos castigados pela chuva fria,
aguardando a hora exata da transposição.
Como
a chuva e o vento continuavam castigando-nos, ao meio-dia, em ponto, decidi
abordar a Ponte (07°49’28,1” S / 72°39’31,1” O). Não notamos nenhum movimento
da reportagem e resolvi rumar diretamente para o Porto do 61° BIS. A meio
caminho, por telefone, a Rosângela me informou que a repórter Glória Maria
estava na Ponte nos aguardando. Determinei à equipe de apoio que buscasse a
equipe de reportagem para que eles fizessem as tomadas a partir da lancha “Mirandinha” enquanto eu e o Angonese
aguardávamos os mesmos na margem direita, acostados em uma pequena chalana.
Depois
de feitas algumas tomadas de nosso deslocamento, abordamos a lancha para
permitir que a simpática e inteligente repórter nos entrevistasse enquanto as
embarcações desciam languidamente de bubuia. Depois da entrevista, fomos para o
Porto do 61° BIS (07°37’12,7” S / 72°38’47,0” O) onde uma viatura nos aguardava
para nos levar até o Hotel de Trânsito. Tivemos, finalmente, a oportunidade de
conhecer o Tenente-Coronel Alexandre Guerra, Comandante do 61° BIS, que hipotecou
total apoio à Expedição.
www.youtube.com/watch?v=bjH0BVXN8e4&feature=emb_logo
²Total Parcial: Mal Thaumaturgo ‒ C. do Sul = 329,0 km
²Total Geral: Foz do Breu ‒ Cruzeiro do Sul = 467,5 km
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
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