Quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021 - 06h00

Bagé, 17.02.2021
Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte XXX
Vingaram as Sementes da Desídia e da Discórdia
Bárbaros, vós que o prendestes no
cárcere maldito do desespero, cujas brônzeas grades ele quebrou com o arremesso
de suas asas possantes de águia, iluminada e altiva, vós que o feristes com as
mil setas ervadas da injúria e da calúnia; vós que o trouxestes arrastado pelo
marnel ([1])
do mundo, sem que ele conspurcasse no pantanal as, suas asas célicas, feitas de
azul e feitas de perdão, vindo ver esta apoteose, esta festa que resume o
talento e a força sublimada da grandeza de um coração. Vós que fizestes a sua
alma sangrar, não fel de ódio, que a alma de um artista é bastante generosa
para o não possuir, bem clemente para o não guardar, mas o desconforto, que
aumenta essa tristeza ingênita que nós trazemos para
o mundo adverso e mau. (O PAIZ, N° 5.647)
Quando telefonei para o Gen José Luiz Jaborandy Júnior, este me informou,
bastante constrangido, que a imperativa ordem partira do Gen Eduardo Dias da
Costa Villas Bôas, Comandante do CMA.
Apelei, então, para o Gen Paiva, Comandante do 2° Gpt E (meu ex-Cadete),
que disse não estar autorizado, pelo Cmt do CMA, a providenciar o transporte
das embarcações de Porto Velho (RO) para Cruzeiro do Sul (AC).
Depois de relatar os fatos em artigo, publicado pela imprensa nacional e
o encaminhado a vários amigos, decidi, encarar o desafio sozinho, não tinha
recursos para custear as despesas com a voadeira, o Mário e o Marçal,
considerando as dificuldades adicionais proporcionadas pela falta de apoio por
parte do CMA.
Sina de um Bandeirante
Veio-me imediatamente à mente a figura do Coronel Flaviano de Mattos
Vanique, líder da Expedição Roncador-Xingu. Façamos uma breve digressão
histórica que culmina com a homenagem prestada em São Paulo aos bravos
expedicionários. Em 1937, na cidade de Genebra, o Barão Shudo, representante do
Japão, sugeriu no plenário da Sociedade das Nações (embrião da ONU), que as
nações que dispusessem de áreas inexploradas e sem desfrutar de seus recursos
naturais, deveriam permitir seu aproveitamento racional por países capazes de
explorá-las “para o bem comum dos povos”.
O Governo japonês tinha intenção de alojar vinte milhões de japoneses na
Amazônia Brasileira. Com a ascensão do nazi-fascismo ganhou corpo a doutrina do
“espaço vital”.
O Brasil era um dos alvos dessa doutrina, pois, na época, mais de 90% da
nossa população se achava distribuída por pouco mais de um terço de nosso
território. Em pleno século XX, grande parte do território nacional era
praticamente despovoado e desconhecido pela maioria dos brasileiros. Com o advento
II Guerra Mundial e o torpedeamento de navios brasileiros ao longo de nossa
costa a Capital Federal mostrava-se extremamente vulnerável a um ataque
inimigo.
O Presidente Getúlio Vargas, preocupado com o grande vazio demográfico
das regiões Norte e Centro-Oeste cobiçadas por países estrangeiros para assentamento
de seus excedentes populacionais e a vulnerabilidade de nossa Capital, criou,
em Setembro de 1942, a Comissão da Coordenação da Mobilização Econômica cujo
primeiro coordenador foi o Ministro João Alberto Lins de Barros. A Comissão
além de adotar práticas econômicas excepcionais no contexto emergencial gerado
pela entrada do Brasil na guerra, era encarregada de estimular o desbravamento
e povoamento das regiões desabitadas.
Correio Paulistano, n° 26.814
São Paulo, SP, Domingo, 08.08.1943
Benção do Pavilhão Nacional que Seguirá na
Expedição Roncador-Xingu
Oração do Dr. Gofredo Teixeira da Silva
Telles
Após a missa solene celebrada no altar
mor da Basílica, foi iniciada a cerimônia junto ao túmulo de Fernão Dias Pais
leme onde se encontrava o Pavilhão brasileiro que damas da nossa melhor
sociedade ofereciam ao Ten Cel Matos Vanique para levar junto à Expedição que a
exemplo das antigas Bandeiras paulistas seguirá para a região do Roncador-Xingu.
O pavilhão foi benzido por D. Domingos de Silos, findo o que fez uso da palavra
o Dr. Gofredo da Silva Telles ([2]),
Presidente do Conselho Administrativo, que disse o seguinte:
“O
Pavilhão que aqui tendes, senhores Bandeirantes, é um presentes das senhoras de
São Paulo, feito por suas mãos e entregue por suas mãos. Essa dádiva que tem o
caráter de uma oferenda votiva, nasce do ardor com que a paulistana acompanha
sempre os grandes empreendimentos dos filhos de nossa terra. Elas souberam de
vossas intenções. Tiveram notícias de vossos propósitos, de vossos sonhos, de
vossos preparativos. A viagem, sertão a dentro!
Inteiradas
do plano audacioso, alegraram-se com a descrição de vossos roteiros temerários.
E, longe de chorar, ante o quadro da campanha projetada, tiverem orgulho de
vós. As perspectivas desdobram-se em seu espírito alongando os olhos para os
extremos do sertão brasileiro, elas perscrutam, em pensamento, as solidões
indevassadas, cujos mistérios vão ser desafiados por vossa coragem.
E
por tudo isso, em vez de chorar, orgulham-se da vós. Não se iludem as nobres
doadores desta Bandeira sobre o que serão as asperezas da jornada. Pensaram na
mata inextricável, nos cerradões adustos, nas paludes traiçoeiras. E em vez de
chorar, vendo-vos parti, orgulham-se de vós.
Acompanhando-vos,
em sua imaginação realista, avistam, de longe, vossos pequenos grupos de
pioneiros, a salpicar o chão virgem do deserto. Medem as distâncias a
percorrer, contam os marcos da caminhada. Elevadas, contemplam vosso avanço
contra as barreiras naturais e contra as intempéries.
O
avanço que, apesar dos obstáculos, não se interrompe; o avanço que continua
para as metas visadas, desde o primeiro momento e das quais não vos sabereis
desviar! Por tudo isso, em vez de chorar, as senhoras de São Paulo orgulham-se
de vós.
Elas
compreenderam vossa empresa, senhores Bandeirantes, e confiam no triunfo de
vosso esforço. Confiam nele porque sentem viver em si próprias a mesma fibra
que vos impele – obedientes, tanto como vós, ao imperativo atávico, fieis,
tanto como vós, à vocação de uma raça que nasceu para avançar. Pensai um pouco
no que é ser Bandeirantes. Fácil sem dúvida, nesta igreja tradicional de São
Paulo, à beira do túmulo ancestral de Fernão Dias Pais Leme, apreender a
significação profunda desta palavra.
Ser
Bandeirante é ser forte e partir. É ser simples e confiar em si. Ser
Bandeirante é olhar para o sertão que ninguém penetrou e dizer: “Este é o meu
sertão!” É estender a mão de dono sobre as coisas que parecem fora de alcance,
além do poder humano. É preferir o perigo ao lucro. É ser desambicioso, e, ao
mesmo tempo, incontestado; modesto e insaciável. É querer avançar, pelo gosto
de – mais longe. É gritar: "além", depois de ter chegado ao fim. Ser
Bandeirante é deixar atrás a casa e família, o bem estar e a segurança, para
perseguir o sonho e tentar a caça da glória. É viver silencioso e otimista na
brenha onde não há rumos, no campo onde não há divisas. É estremecer as vezes
de febre, mas nunca tremer de medo. É sofrer com alegria o Sol dos chapadões e
resistir sem queixa nos aguaceiros de dezembro. É combater no varejão as
cachoeiras e investir, de simples facão à cinta, contra a floresta. Ser
Bandeirante, é gastar em busca de Itaberabessú, vinte anos de marcha na mata,
nos brejais, nas savanas. É procurar Palma e sonhar com Manos sabendo que elas
não existem. Ser Bandeirante é ser aquele que avança e aquele que conquista.
Ser Bandeirante é ser o primeiro... e o que vai mais longe. Para dizê-lo numa
só palavra, senhores sertanistas de São Paulo e de todo os Estados do Brasil,
basta a afirmação de que ser Bandeirante é ser a nossa raça.
Eis
ai o que sabem e sentem as doadoras deste estandarte. Elas aqui o deixam em
vossas mãos, Bandeirantes do dia presente, filhos de São Paulo e de todos os
recantos de nossa Pátria, como um penhor de sua aprovação a vosso sentimento.
Recebido por vós ante o altar de Deus, será o pavilhão brasileiro durante toda
a vossa jornada, o arrimo de vossa fé cristã e o símbolo de vosso ideal
patriótico.
As
bênçãos que o cobriram hoje nesta igreja derramar-se-ão também sobre vossos
passos, para que o possais levantar festivamente em cada pausa de vossa
caminhada, como a prova cotidiana de vossos triunfos. Levantai-o seguidamente,
sobre os campos e as matas de nossa terra. Levantai-o nos sertões de Araguaia,
do Rio de Mortes e do Xingu. E ao termo vitorioso da jornadas, levantai-o
sobretudo nos cimos lendários da Serra do Roncador para onde se dirigem vossa
esperanças de pioneiros. Suba ali o pavilhão brasileiro para que o Vento do
deserto desdobre seu pálio auriverde, sobre os nossos domínios de nossa raça.
Içada por vossas mãos desfralde-se a bandeira nacional em pleno dia no topo da
cordilheira, alçai-a mais e mais, tanto quanto puderdes. O simbolismo da
bandeira erguida no clarão radioso das alturas, dar-vos-á para sempre, senhores
Bandeirantes, o sentido de vossa obra em favor de nossa Pátria”. (CP, n° 26.814)
Bibliografia
CP, N° 26.814. Benção do Pavilhão Nacional que Seguirá na Expedição
Roncador-Xingu – Brasil – São Paulo, SP – Correio Paulistano, n° 26.814,
08.08.1943.
O PAIZ, N° 5.647. Um Artista
– Brasil – Rio de Janeiro, RJ – O Paiz, n° 5.647, 24.03.1900.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
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