Quinta-feira, 19 de agosto de 2021 - 06h00

Bagé, 19.08.2021
Esteiras de palha, couros preparados, redes, jiraus de dormir, catres e
camas são modalidades de leito que predominam neste ou naquele estado de
cultura social. A presença das primeiras já indica certo adiantamento; os
Nambiquara não têm outro leito senão a terra. Dormem sobre o chão limpo. E não
tinham a rede, inseparável companheira dos Paresí, seus vizinhos; hoje, que a
conhecem, estimam-na infinitamente. No meio deles, para repousar um pouco, à
noite, era uma dificuldade; mal armávamos as nossas, surgiam logo três ou
quatro candidatos... E, uma vez donos dela, dificilmente nô-la deixavam.
Frequentemente éramos despertados por alguns índios, que a fina força,
desejavam dormir nas mesmas em que repousávamos. No pouso de Três Buritis, onde
estiveram acampados alguns dias conosco, à noite disputavam tosca mesa de pau,
em que os encarregados da estação faziam suas refeições; [...]
Por que, pois, não se utilizavam da rede? Porque não a conheciam. Trançar
fios de algodão e de tucum, trançam eles, de maneira mais que suficiente para
confeccionar uma delas; apreciar esse leito dos seus vizinhos, também haveriam
de apreciar, como agora acontece. [...]
Ora, todos os índios da Serra do Norte dormem diretamente sobre o solo.
[...] Deitam-se, quase sempre, em decúbito lateral, pondo o antebraço debaixo
da cabeça para servir de travesseiro. Os homens raro se sentam diretamente
sobre o chão. Em geral, acocoram-se. As mulheres fazem o contrário. Se estão de
pé, no fim de alguns instantes, os homens, habitualmente, flexionam uma das
pernas sobre a coxa, apoiando o pé respectivo sobre o joelho do outro lado; as
mulheres tomam atitude característica, que nunca vi descrita e se acha bem
clara nos instantâneos colhidos. Cruzam as coxas, adiantando o membro pelviano
direito em simples adução, enquanto colocam o membro pelviano esquerdo mais
atrás, em adução forçada. O grande eixo do pé direito, prolongado, corta o do
esquerdo quase em ângulo reto. Frequentemente cruzam os braços. [...]
Alimentam-se principalmente de produtos agrícolas; é um dos traços
paradoxais dessa população o desenvolvimento da agricultura no seu meio
atrasado. De um modo geral, pode se dizer que os Nambiquara comem tudo; não
respeitam certas espécies animais, como fazem alguns índios. Um mosquito que
apanham sobre o corpo, um piolho, um gafanhoto, uma lagartixa que passa
correndo, nada escapa. Alguns costumam andar com uma vara para matar as cobras
que vão encontrando: assam os ofídios no borralho e comem com prazer a iguaria.
Só o estômago das vítimas, depois de assadas, rejeitam. No pouso do Primavera,
quando algum tinha fome, corria ao cerrado e voltava trazendo um calango vivo;
batia com a cabeça do pequeno sáurio num pau qualquer e atirava-o às cinzas
quentes. Depois, com as unhas, rompia o abdômen do animal, retirava o estômago
e saboreava o resto.
Um tatu que, noutra ocasião, foi apanhado, mataram, torcendo-lhe o
pescoço. Para a caça e para a pesca usam flechas que serão descritas. Aproveitam
os ovos do pato do mato fazendo covas rasas no borralho quente e lá os
aninhando, depois de revolvidos com um graveto passado por pequeno orifício
aberto na casca. A carne de grandes caças: veado, paca, capivara, é primeiro
socada no pilão, ou batida entre dois paus, e só depois utilizada. Com as
unhas, com os dentes, e às vezes com facas de madeira ou de taquara, cortam grandes
bocados. Mal engolem o que lhes vai na boca, logo chupam os dedos, estalando a
língua com grande ruído. [...]
Bebem o mel sempre misturado com água: hidromel. Comem com prazer os
filhotes das abelhas, mergulhados no mel e no própolis, que não rejeitam. Não
deixam amadurecer o milho; comem-no assado, ainda verde. A mandioca sofre o
mesmo processo, ou então é utilizada em raspa, com que fazem beijus. Por meio
de uma fita de embira espremem a raspa, e com o amido fazem alvíssimos bolos.
Para confeccionar os beijus, abrem um buraco nas cinzas quentes de uma
fogueira, e lá depositam massa de mandioca, alisando o bolo com um pau qualquer
e com a mão. Cobrem tudo, depois, com cinzas e brasas; no fim de algum tempo,
que não sabemos como estimam, descobrem um grande bolo tostado e cheiroso, um
tanto azedo, que não seria desagradável se não tivesse tanta cinza e não fosse
preparado por tão desasseado processo... [...]
Obtêm fogo pelo atrito de dois bastões, em nada dissemelhantes dos que se
acham pelo Brasil afora. A operação é muito mais longa do que se imagina.
O índio começa forrando o chão com uma folha seca; sobre ela deita o
ignígeno fixo, que mantém com o pé e com o joelho. Com as mãos espalmadas,
imprime ao ignígeno móvel a rotação necessária, apertando-o, ao mesmo tempo, de
encontro ao primeiro. O movimento faz descer as mãos ao longo do bastão; o
índio recomeça, repondo-as na parte superior. De vez em quando para,
rapidamente, e passa a língua sobre a palma que o atrito requeima. No fim de
algum tempo, quando o suor já poreja a fronte do operador, surge a centelha, na
moinha que se depositou na folha. O processo só difere da operação clássica
pela presença da folha protetora. Por trabalhoso os índios o executam a
contragosto. Desejando obter um filme, que documentasse todos os seus tempos,
dificilmente obtive que um índio fizesse fogo. [...]
É fato curioso a falta de utilização dos palmitos por parte dos índios da
Serra do Norte. Gabriel Soares (1587) deixou bem expresso que o gentio do
litoral não desprezava o gomo folhear das palmeiras: “do olho destas palmeiras se tiram palmitos façanhosos de cinco a seis
palmos de comprido e tão grossos como a perna de um homem”. Quanto ao vinho
do ananás era bebida corrente; é ainda Soares quem diz: “a natureza deste fruto é quente e úmido, e muito danoso para quem tem
ferida ou chaga aberta; os quais ananases sendo verdes são proveitosos para
curar chagas com eles, cujo sumo come todo o câncer, e carne podre, do que se
aproveita o gentio: e em tanta maneira come esta fruta, que a limpam com as
suas cascas a ferrugem das espadas e facas, e tiram com elas as nódoas da roupa
ao lavar; de cujo sumo, quando são maduros, os índios fazem vinho, com que se
embebedam; para o que colhem mal maduros, por ser mais azeda...”
A comida salgada, de nosso uso, não agradava aos índios da serra do
Norte. Mais de um rejeitou o prato que lhe destinávamos, dando a entender que o
salino sabor o levava a proceder dessa maneira.
O leite condensado foi também, a princípio, recusado; diziam, fazendo uma
visagem, que era leite de mulher, e portanto repugnante:
‒ Anungçú!
É preciso conhecer a gula dos índios, sua fome insaciável, seu ‒ animus
devorandi ‒ contínuo, persistente, infalível, sincero, para bem compreender o
nojo que os conduzia a tal renúncia.
Às crianças dão tudo para comer; do que levam à boca vão sempre migalhas ao pequenino que lhes anda perto ou entre os braços. [...] As crianças tomam logo parte na comida; as mulheres comem depois... O que sobra, quando sobra. Aliás, esta é a regra, mesmo entre os índios já civilizados... Mas, em geral, se há abundância, cada qual se serve do que há, quando quer, como quer; a comida é de todos. (ROQUETTE-PINTO)
Filmete
https://www.youtube.com/watch?v=-ek3beISFFA&t=456s
https://www.youtube.com/watch?v=rECpPlEurDI&t=23s
https://www.youtube.com/watch?v=wxA1AJchYFM&list=UU49F5L3_hKG3sQKok5SYEeA&index=23
Expedição
Centenária R-R - III Parte - Fase I - YouTube
https://www.youtube.com/watch?v=3bt42u-sGtA&list=UU49F5L3_hKG3sQKok5SYEeA&index=20
Bibliografia
ROQUETTE-PINTO, Edgard. Rondônia ‒ Brasil ‒ Rio, RJ ‒ Companhia
Editora Nacional, 1938.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
E-mail: [email protected]
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