Segunda-feira, 16 de agosto de 2021 - 06h00

Bagé, 16.08.2021
Expedição Centenária Roosevelt-Rondon
2ª Parte – XXI
Utiariti – III
Jornal do Brasil n° 137 ‒ Rio de Janeiro, RJ
Quinta-feira, 09.06.1927
A Expedição Dyott-Roosevelt
Conversando com o Nosso Patrício Dr. José
Tozzi Calvão, que foi o Verdadeiro Organizador da Exploração Através dos Nossos
Sertões
Os leitores do Jornal do Brasil foram, a seu tempo, largamente informados
pelo nosso colaborador Ramon da Paz sobre a “Expedição Dyott-Roosevelt”,
que realizou uma viagem perigosa e interessantíssima através dos sertões
mato-grossenses e do Amazonas.
Ramon da Paz, que reuniu um enorme material de observações para editar um
volume acerca das regiões percorridas, acha-se atualmente nu Europa, onde, como
nos comunica um seu companheiro, o Dr. José Tozzi Calvão, tenciona organizar
uma expedição francesa. No entanto, quisemos aproveitar a presença no Rio, do
Dr. Tozzi Calvão, nosso patrício, que foi o verdadeiro organizador da “Expedição
Dyott Roosevelt”, para proporcionar aos leitores do Jornal do algumas
informações mais detalhadas sobre aquela empresa.
O Dr. Tozzi Calvão tomou parte em quase todas as expedições norte
americanas realizadas na América do Sul; e por isso, está em condições, melhor
do que qualquer outro, de expressar opiniões concretas sobre a importância das
dificuldades superadas e sobre os resultados efetivos das expedições.
Declarou-nos Dr. Tozzi Calvão:
O principal elemento de sucesso de uma expedição depende sempre do
cálculo exato dos mantimentos, que, para a sua duração, precisam, e da perfeita
saúde dos membros que dela tomem parte. Não é suficiente possuir uma boa
constituição física, mas é indispensável que ela seja preservada dos contágios
das febres maláricas e das outras moléstias fáceis a insinuar-se nos organismos
os mais fortes, pelo duro regimen de vida, que cada expedicionário se deve
impor.
A organização dos transportes e dos recursos alimentícios, exige também a
competência de homens experimentados nestas viagens, porque, como seria
prejudicial qualquer otimismo a respeito às condições do itinerário, assim
poderia resultar muito incômodo uma organização pesada dos ditos transportes.
Dados os meus conhecimentos dos sertões, e as experiências feitas nas outras
expedições, consegui desempenhar as muitas tarefas com a plena satisfação do
comandante Dyott.
A expedição teve encontros com os revoltosos em pleno sertão?
Dois encontros. O primeiro aconteceu na madrugada do dia 02.11.1926.
Enquanto eu, com a comitiva composta de animais de montaria, de quarenta e
cinco bois de carga e de dez homens, preparava-me para a travessia do sertão de
Mato Grosso em demanda do Rio Roosevelt [Dúvida], fui surpreendido pelos revoltosos
da Coluna Prestes, comandados pelo Capitão Miranda.
Em consideração de que a missão era estrangeira, o Capitão Miranda
requisitou somente os nossos animais de sela, que eu tinha escolhido em S. Luiz
de Cáceres, deixando-nos alguns cavalos magros e cansados. Com estes animais
atravessamos cento e oitenta léguas de sertão, habitado pelos célebres
Nhambiquaras, chegando a 24 de dezembro a Utiariti, que fica na margem esquerda
do rio Papagaio, acima do Salto de Utiariti, que mede quarenta metros de largura
por oitenta de altura.
Qual foi a parte mais difícil da Expedição?
A parte mais difícil da viagem foi a travessia do Rio Roosevelt, que está
cheio de cachoeiras e de voltas perigosa. Às vezes precisava parar longas horas
no Rio, para cortar algumas arvores colossais que obstruíam, a passagem das
nossas canoas. A 2 de fevereiro encontramos as primeiras cachoeiras, e fomos
obrigados a abandonar o batelão de madeira, como também parte da carga e os
nossos aparelhos radiotelegráficos e os motores.
Armamos então a terceira canoa de lona, e assim conseguimos superar a
primeira grande dificuldade. Eu procedia sempre na frente, explorando o rio e
os canais por onde poderíamos passar. No dia 28 de Fevereiro, precisando caçar,
entreguei o lugar de piloto ao índio, que me acompanhava e fiquei na proa, para
ter liberdade de matar alguma jacutinga ou mesmo algum macaco.
Foi um desastre, porque, pela imperícia do meu novo piloto, a canoa, ao
atravessar uma cachoeira, foi de encontro às pedras virando e jogando os tripulantes
n’água. Porém, por boa sorte, a carga de mais necessidade estava bem
acondicionada, por isso, flutuando pelas águas espumantes da cachoeira, foi
apanhada pelas outras canoas a 2 km abaixo. Lutamos assim, todos os dias,
sempre de baixo de fortes chuvas e trovoadas, molhados até os ossos.
No dia 3 de março, chegamos à serra do Sargento Paixão, e as cachoeiras
do mesmo nome. Tivemos de fazer um varadouro de 3 km. Enquanto eu com mais dois
homens íamos abrindo o varadouro numa floreta espessa, fomos cercados por uma
tribo de índios desconhecidos, em atitude hostil. Os meus companheiros
apavorados quiseram fugir, mas felizmente consegui contê-los, o que foi a nossa
salvação, pois, do contrário, os índios nos teriam atacado.
Mostrei, então, que éramos amigos, entregando à tribo, que depois soube
chamar-se “Araras”, machados e facões de presente e recebendo, em troca,
arcos, flechas, milho e “chicha” [aguardente de milho]. Até a chegada ao
rio Madeira varamos, em 45 dias, 65 cachoeiras.
Quantos meses durou a Expedição?
Deixamos o Rio de Janeiro aos 15.09.1926 e chegamos a Manaus no dia 2 de
maio deste ano.
Quais são as suas impressões sobre os nossos sertões?
O entusiasmo com que tenho tomado parte em tantas Expedições e o desejo
de realizar ainda outras explorações, podem demonstrar o meu vivo interesse
para o conhecimento mais perfeito e o estudo de regiões maravilhosas, assim
exuberantes de riquezas, e que poderiam, só elas, assegurar a prosperidade de
um grande País.
Quais são os resultados práticos dessas expedições?
Os resultadas, hoje, são para os estudiosos. E seja-me permitido afirmar
que talvez se interessem mais os estrangeiros do que os nossos patrícios em
conhecer as extraordinárias riquezas que existem naquele “inferno verde”.
Quando o problema das comunicações for resolvido, e parece que o voo de “De
Pinedo” têm apresentado a possibilidade de solução do problema, os
resultados das atuais explorações poderão ser apreciados praticamente.
O Dr. Tozzi Calvão está se preparando para tomar parte numa outra
expedição no interior desconhecido do País. (JORNAL DO BRASIL N° 137)
Magalhães (1942)
No Utiariti o Rio corre mansamente antes da queda; ao aproximar-se desta,
deu-se o desnivelamento brusco, de modo a formar uma grande corredeira
marulhosa e junto do salto as águas se subdividem por causa de uma pequena
ilha. Um grande golfo forma-se à esquerda; outra porção maior contorna a ilha à
direita e antes de se despenhar se subdivide, indo uma pequena parte para o
abismo, onde cai como extenso e alvo lençol e a outra, de maior volume, volve
por um salto preliminar a encontrar-se com o grosso das águas provenientes do
golfo. Despenha-se, então, toda essa massa, da altura de cerca de 80 m, no
mesmo enorme poço onde se desfaz o lençol da direita; e de onde se levanta uma
grossa nuvem de água como que volatilizada e que, de muito longe, anuncia a
existência do salto, a quem tem o hábito de ler e avaliar os acidentes de um
terreno. O corte de arenito vermelho, aí descorado em muitos pontos e completamente
desnudado, é vertical; o poço cavado pelas águas é semicilíndrico, aberto no
meio do arco anterior já esboroado. À esquerda segue-se o muro de grés,
vertical e reto, para o Norte, num abaixamento moderado; à direita a rampa é
mais suave para o Rio, então estreito, com especialidade logo depois do salto,
onde a sua largura é de 6 m; também aí correm as águas com enorme velocidade.
Antes da queda a largura é de 90 m. No salto a água se eleva em nuvens mais ou menos altas, conforme a temperatura do momento, fazendo sentir constantemente os efeitos da umidade, por mais de 200 m em redor. (MAGALHÃES)
Filmete
https://www.youtube.com/watch?v=-ek3beISFFA&t=456s
https://www.youtube.com/watch?v=rECpPlEurDI&t=23s
https://www.youtube.com/watch?v=wxA1AJchYFM&list=UU49F5L3_hKG3sQKok5SYEeA&index=23
Expedição
Centenária R-R - III Parte - Fase I - YouTube
https://www.youtube.com/watch?v=3bt42u-sGtA&list=UU49F5L3_hKG3sQKok5SYEeA&index=20
Bibliografia
JORNAL DO BRASIL N° 137. A
Expedição Dyott-Roosevelt – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Jornal do Brasil
n° 137, 09.06.1927.
MAGALHÃES, Amílcar A.
Botelho de. Impressões da Comissão
Rondon – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Companhia Editora Nacional, 1942.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
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