Quinta-feira, 22 de julho de 2021 - 06h02

Bagé, 22.07.2021
Expedição Centenária Roosevelt-Rondon
2ª Parte – VI
Cáceres – Ilha da Amizade III
Relatos Pretéritos - Rio Tenente Lyra ou Sepotuba
Rondon
Deixando Cáceres (06.01.1914), deixamos também o “Nyoac” ‒ não poderia ele ir além. Começamos a subir o Sepotuba
[Tapir], explorado cientificamente em 1908. Rio claro, descendo do planalto
para as florestas das terras baixas, só era navegável no tempo das águas.
Subimos até Porto Campo, onde pousamos a 07.01.1914. (VIVEIROS)
Pereira da Cunha
CAPITULO
VI
06.01.1914: Cáceres deveria ser o termo da minha viagem e aí era mister deixar os bons companheiros que, tomando uma pequena lancha, tinham que subir ainda o Paraguai, e tomar o Sepotuba, quis, porém, a boa-sorte que tão cedo não fosse privado daquela companhia, e que conhecesse maior trecho navegável do Rio Paraguai e ainda o Sepotuba. De fato, não estando no porto a lancha para conduzir a Expedição, resolveu-se que o “Nyoac” subisse mais o Paraguai e penetrasse no Sepotuba, até Porto do Campo, onde Roosevelt aguardaria a lancha, caçando antas e porcos.
Como não houvesse para mim condução de regresso ([1]),
continuei a viagem com os antigos companheiros e mais alguns outros, que nos
esperavam em Cáceres e aí completaram a Expedição. Íamos partir, e, sendo
forçada a permanência por alguns dias em Porto do Campo, embarcaram conosco,
para que fosse possível fazer Roosevelt caçar, dois ou três caçadores, todos
com matilhas, mas, um deles, o Sr. João Ribeiro, com uma cachorrada que entre
todas sobressaia pelo número e pela qualidade, e, como tudo e todos
estivéssemos prontos para partir, deixamos, Cáceres na tarde desse dia ([2]), em demanda do
Sepotuba.
O extenso Paraguai, já de há muito correndo entre terras mais altas,
estreitava-se agora sempre entre renques de mato, e era bem outro o aspecto do
grande alagador de pantanais, subindo sempre, encontramo-nos, à tardinha, em
uma posição interessante e pitoresca, pois que com o nosso navio estávamos ao
centro de uma “perfeita cruz” ([3])
formada pelas águas em que navegávamos.
Para quem se encontrasse pela primeira vez nesse ponto do Rio, e na
intenção de continuar a subi-lo, difícil seria a sua orientação, pois que, como
tudo indica, o natural seria seguir para frente, tomando como afluentes os dois
Rios que aí vêm desembocar de um e outro lado. Mas enganosa, quão aparentemente
certa, seria tal solução, visto como a cruz é assim formada: a parte inferior,
pelo trecho do Paraguai já por nós navegado, o braço direito, pelo próprio
Paraguai que aí defleta em ângulo reto, a parte superior, pela entrada de uma “baía” [grande lago ou sacado]; e o braço
esquerdo, pelo Sepotuba.
Entramos pelo Sepotuba, e logo foi a nossa primeira observação a limpidez
de suas águas, e a sua forte correnteza que a
custo era vencida pelo pequeno “Nyoac”, estávamos na “poaía”, como lá se diz, e que exprime estar nas regiões das matas
ricas em ipecacuanha ([4]), como
são as das terras que margeiam o belo Rio que agora navegávamos, correndo em
asseado leito de pedras, entre margens bem altas e cobertas de forte orla de
mato. A noite clara e enluarada permitia ver o soberbo panorama, e a magia do
astro de luz suave, tocando como sempre almas e corações, recrudescia a saudade
daqueles que de nós distavam, e fazia-nos pensar nestes que de nós distariam,
dentro em breve, na ousada empresa em que não nos era dado também aventurar.
07.01.1914: a manhã de 7 encontrou-nos em Porto do Campo e,
logo cedo e bem atracado que foi o “Nyoac”,
começou a descarga de tudo quanto pertencia à Expedição, enquanto a turma de soldados,
em terra e dirigida pelo infatigável Capitão Amílcar, estabelecia o primeiro
abarracamento. Na tarde desse dia, partiram alguns membros americanos da
Expedição, aproveitando a lancha, que subia com uma chata levando bagagens e
carga para Tapirapuã; era esse o último ponto atingível por via fluvial, sobre
o próprio Sepotuba, base e ponto de apoio escolhido pelo bravo Coronel Rondon,
para as suas extraordinárias explorações, e donde deveriam seguir por terra,
através do Sertão, Roosevelt e mais membros da Expedição, até as cabeceiras do
Rio da “Dúvida”, nome que exprimia
bem o ignorado de seu curso e a mágica atração que o mistério, fascinador como
a esfinge, exercia sobre a alma sempre ardente e viva do antigo “cowboy”.
Tal como desde 17 de dezembro do ano anterior, ainda nesse dia, apesar do
abarracamento, jantei ao lado de Roosevelt e com ele troquei ideias, como de
costume e quase diariamente sucedia, sobre problemas sociais e políticos, e,
como já nos houvesse ele dito que nós, no Brasil, havíamos resolvido problemas
que ainda estavam insolúveis nos Estados Unidos.
Embora o inverso também fosse verdadeiro, tentei ainda uma vez sondar o
espírito do experimentado estadista, no intuito de conhecer quais seriam esses
problemas, e saber, principalmente, quais teriam sido as soluções dadas aos que
nos restavam ainda insolúveis.
Ou fosse porque o Destino [que os primitivos já consideravam imutável até pelos Deuses] não permitisse, ou fosse porque o nosso hóspede não quisesse desvendar o seu pensamento, o caso é que, só a respeito do problema relativo ao perpetuamente ou desaparecimento do negro entre nós e entre os americanos foi que se expandiu o meu vizinho de mesa.
Condenava ele o processo norte-americano que, fazendo a completa separação
de raça, só conseguia com isso desenvolvimento sempre crescente do número de
negros, arredando assim a solução do problema e tornando-a cada vez mais
difícil e grave, e, dizia, então, enquanto nos Estados Unidos é cada vez maior
o número de negros, sucede no Brasil o fato inverso, desaparecendo a
dificuldade da solução e a gravidade do problema com o desaparecimento do
próprio problema, pois que, diluída no sangue branco a pequena porção de sangue
negro ainda existente, dentro de um futuro não muito remoto estará a população
do Brasil isenta de negros.
Mais tarde soube por que razão não tivera segredo para com esse problema o forte explorador; lendo os artigos por ele escritos no Outlook, lá deparei, no número de 21 de fevereiro de 1914, com um desses artigos sob o título: “Brazil and the Negro” – e que nada mais era do que o desenvolvimento dessas ideias. (CUNHA)
Faço
aqui um curioso adendo, repercutindo um artigo que representa bem, ainda que de
certa forma hilária, a profunda admiração dos negros americanos pelo então
candidato Roosevelt.
O Exemplo, n° 37 ‒ Porto Alegre, RS
Sexta-feira, 23.10.1904
Eleitor
Apaixonado
O homem de cor, que sente seus melindres abocanhados pelo boçal
preconceito que pretende implantar a superioridade das raças humanas,
baseando-se na cor da epiderme, quando lhe abrem os braços fraternos,
reconhecendo que a sua cor trigueira não o incompatibiliza para as funções com
que seu mérito pode arcar, o seu reconhecimento vai ao fanatismo para com os
que assim lhe fazem justiça.
Os descendentes de africanos não primam pela humildade, como dizia um
notável político; e sim primam pela gratidão, gênero que já vai escasseando no
mercado dos sentimentos afetivos da humanidade. Roosevelt, benemérito
Presidente da República dos Estados Unidos da América do Norte que, convidando
a sentar-se em sua mesa um célebre homem de cor, declarou guerra tenaz contra o
menosprezo em que éramos tidos, ao ponto de serem linchados os que conquistavam
uma mulher descorada, tem colhido dos homens de cor a flor da gratidão que
desabrocha de todos os feitios de acordo com a excentricidade inata aos
americanos, como se pode apreciar da local que, sob a epígrafe acima, em
seguida transcrevemos das colunas da “Federação”.
A próxima eleição presidencial nos Estados Unidos da América do Norte já tem
provocado apostas interessantíssimas. Agora é um negro, influente político em
S. Luiz, grande admirador de Roosevelt, que oferece a vida contra a módica quantia de
cinco dólares. Para maior garantia da aposta, assinou este contrato:
A todos que lerem o presente, e Senhor seja convosco! Sabei que eu,
Américo Prates, são de corpo e de espírito, prometi solenemente, tomando Deus
por testemunha, pôr termo à minha existência, atirando-me do meio da ponte do
Eads ao Mississpi, num dos sete dias seguintes ao da eleição presidencial de
1904, se Theodoro Roosevelt, candidato republicano, não for eleito.
São do corpo e do espírito... Do corpo talvez; do espírito, certamente
que não, acrescenta um colega. (O EXEMPLO, N° 37)
Bibliografia
CUNHA, Comandante Heitor
Xavier Pereira da. Viagens e Caçadas em
Mato Grosso: Três Semanas em Companhia de Th. Roosevelt – Brasil – Rio de
Janeiro, RJ – Livraria Francisco Alves, 1922.
O EXEMPLO, N° 37. Eleitor
Apaixonado – Brasil ‒ Porto Alegre, RS ‒ O Exemplo, n° 37, 23.10.1904.
VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta Sua Vida ‒ Brasil ‒ Rio de
Janeiro, RJ ‒ Livraria São José, 1958.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas,
Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
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