Terça-feira, 20 de julho de 2021 - 06h00

Bagé, 20.07.2021
Expedição Centenária Roosevelt-Rondon
2ª Parte – IV
Pensando
no crescimento do agronegócio mato-grossense, o Grupo Fogliatto com seu Diretor
Presidente Argeu Fogliatto, no ano de 1983 adquiriu a Fazenda Porto do Campo,
localizada no município de Lambari do Oeste, MT. A partir daí desenvolveu um
projeto ecológico de abertura de área, com ideias revolucionarias que
transformou a fazenda em um modelo de desenvolvimento ecológico e sustentável.
23.10.2015 (sexta-feira) – Navegando o Paraguai
Partimos
de Cáceres, margem esquerda do Rio Paraguai, às 15h20 em duas pequenas, mas
confortáveis, voadeiras pilotadas pelo alemão e pelo Angonese, dando início à
etapa mais tranquila de nossa Expedição.
Apesar
de ser uma sexta-feira, as margens estavam tomadas por pescadores ou grupos de
banhistas que aproveitavam as águas ou a sombra da vegetação para escapar da
canícula. Avistamos urubus, biguatingas e dois enormes e preguiçosos tuiuiús
(Jabiru mycteria) pescando pequenos e inocentes lambaris sem ao menos precisar
entrar n’água. Volta e meia o alarido provocado por bandos de araras e
periquitos quebrava, momentaneamente, a tranquilidade da natureza que nos
envolvia.
Depois de navegarmos por aproximadamente 30 km, encontramos a Foz do Rio Tenente Lyra (15°55’23,6”S / 57°39’05,0”O). Deixamos, então, o Rio Paraguai para trás e adentramos no Sepotuba. A jusante da Foz atual avista-se uma segunda Foz que pode ter sido o leito do Rio anteriormente. Os Rios de planície são inconstantes e tumultuários e tem a necessidade de redesenhar seus cursos continuamente.
A
perda da mata ciliar, a ação antrópica e o consequente assoreamento aceleram
ainda mais este processo. Aportamos no nosso destino, Pesqueiro da D. Josefina
(15°42’44,3”S / 57°40’01,6”O), sogra do nosso guia e piloteiro “Alemão”, a 72 km de Cáceres, às 18h30.
Tentamos, sem sucesso, fazer contato pelo celular com familiares e amigos e
depois de um saboroso peixe assado preparado pela D. Josefina fomos dormir em
nossas barracas armadas sob um tapiri.
24.10.2015 (sábado) – Navegando o Sepotuba
Partimos
às 09h40 do Pesqueiro da D. Josefina e, depois de percorrer 08 km, às 10h00
aportávamos na Fazenda Porto do Campo (15°42’36,3”S / 57°42’38,4”O) de
propriedade do Sr. Argeu Fogliatto. A família Fogliatto tem uma história de
sucesso ligada ao melhoramento genético do gado nelore que é considerado como
um dos melhores do Brasil.
O
Sr. Argeu concedeu-nos uma entrevista, à sombra de uma mangueira que teria sido
plantada, em 1914, por Theodore Roosevelt, discorrendo sobre sua trajetória de
vida e sua parceria de sucesso com os índios Paresí.
A
história da propriedade está intimamente ligada às Expedições promovidas por
Rondon e sua equipe. O Sr. Argeu mostrou-nos a figueira onde Rondon teria
determinado que pendurassem o veado abatido por Roosevelt:
Penduramos o veado numa árvore (ROOSEVELT).
Difícil
confirmar tal versão baseado apenas nos diários de Roosevelt e Rondon, mas o
Sr. Argeu afirma que assim reza a tradição oral.
Posso
afirmar, porém, com certeza, que, em 1912, sob a mencionada figueira, foram
montadas as redes de Rondon e Roquette-Pinto:
No mesmo dia da partida armamos nossas redes à margem direita do
Sepotuba, debaixo de uma figueira enorme, na fazenda de Porto do Campo.
(ROQUETTE-PINTO).
As
instalações de fazenda primam pelo bom gosto, limpeza e funcionalidade e a bela
e centenária residência da Fazenda foi reformada e ampliada mantendo o estilo
arquitetônico da época.
Partimos, depois de desfrutar de um lauto almoço com
a hospitaleira família Fogliatto.
Encerramos nossa jornada, depois de navegar por mais
de 85 km, na Ilha da Amizade (15°02’01,0”S / 57°41’56,0”O) onde, depois de nos
refrescarmos nas corredeiras do Rio, jantamos e pernoitamos na varanda da
residência de um amável pescador.
Relatos Pretéritos - Rio Tenente Lyra ou Sepotuba
06 a 08.01.1914
Magalhães
As 15h00 do dia 6, partiu o
Nyoac, Rio Paraguai acima, penetrando em seguida pelo curso do Sepotuba, e no
dia seguinte às 15h45 parava junto à fazenda do Porto do Campo [...]
(MAGALHÃES, 1916)
Roosevelt
06.01.1914: Após deixarmos
Cáceres, subimos o Rio Sepotuba, que no dialeto dos índios da região significa
“Rio das Antas”. Este Rio só é
navegável para navios grandes quando as águas estão altas. É de corrente rápida
e belas águas claras, que desce das terras elevadas do planalto e se estende
através da floresta tropical da baixada.
O Rio Sepotuba nasce no Norte do estado do Mato Grosso, estando suas
nascentes situadas nas escarpas da Chapada dos Paresí, que possui até 800
metros de altitude. Esta chapada é o divisor de águas entre a Bacia Amazônica e
a Bacia do Paraguai. À nossa direita, ou na margem Ocidental, e a espaços na
margem esquerda, a mataria é interrompida por pastagens nativas e campinas.
07.01.1914: Num destes locais,
chamado Porto do Campo, de 60 a 70 quilômetros acima da Foz, existe uma fazenda
de boa extensão. Ali fizemos alto, pois a lancha e as duas pranchas –
embarcações nativas de comércio, com casa no convés – que ela rebocava, não
comportavam toda a comitiva e bagagem.
Assim, grande parte da bagagem e
alguns do nosso grupo foram mandados à frente para Tapirapuã, ponto onde
devíamos encontrar nossa tropa cargueira.
Enquanto isso, nós com o resto da comitiva fizemos nosso primeiro
acampamento de barracas em Porto do Campo, para aguardar a volta das
embarcações. As barracas ficaram enfileiradas. Ao centro, lado a lado, a do Cel
Rondon e a que abrigava a mim e a Kermit. Em frente às duas, em altos mastros,
as bandeiras do Brasil e da América; ao nascer e ao pôr do Sol as bandeiras
eram içadas e arriadas ao toque de corneta e nós todos nos perfilávamos.
O acampamento foi instalado junto à casa da fazenda. Nas árvores próximas
viam-se admiráveis orquídeas violáceas. [...]
08.01.1914: Certo dia, quando
remávamos numa canoa esperando que os cães tocassem uma anta para nós, eles
trouxeram para o Rio um casal de pequenos veados catingueiros. Não seria
decente matá-los a tiro, por isso apanhamo-los a laço. Os naturalistas queriam
obtê-los como espécimes; e nós outros como petisco. Um dos homens foi picado
por um marimbondo vermelho. Sentiu fortes dores durante 24 horas e ficou impossibilitado
de trabalhar.
Em uma lagoa 2 cães tiveram as pontas das caudas arrancadas por piranhas,
quando nadavam, e o pessoal da fazenda contou que na mesma lagoa um cão fora
despedaçado e devorado por aqueles peixes vorazes. Foi esse um outro exemplo a
mais da variedade de comportamento daqueles monstrozinhos ferozes. Em outras
lagoas deixaram incólumes a nós e aos cães por vezes repetidas. Variam em
agressividade conforme o local, exatamente como os tubarões e crocodilos [...]
(Continua)
Filmete
https://www.youtube.com/watch?v=-ek3beISFFA&t=456s
Bibliografia
MAGALHÃES, Amílcar A.
Botelho de. Anexo n° 5 – Relatório
Apresentado ao Sr. Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon – Chefe da
Comissão Brasileira – Brasil – Rio de Janeiro, RJ, 1916
ROOSEVELT, Theodore. Através do Sertão do Brasil ‒ Brasil ‒
Rio de Janeiro, RJ ‒ Companhia Editora Nacional, 1944.
Solicito Publicação
(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de
Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
· Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
· Ex-Professor
do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
· Ex-Pesquisador
do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
· Ex-Presidente
do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
· Ex-Membro do
4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
· Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
· Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
· Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
· Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
· Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
· Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
· Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
· Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
· E-mail: [email protected].
Galeria de Imagens
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