Porto Velho (RO) quinta-feira, 19 de setembro de 2019
×
Gente de Opinião

Helder Caldeira

Enchentes culturais


Enchentes culturais - Gente de Opinião
 


HELDER CALDEIRA

 Se estamos em dezembro, o ar fica abafado e o céu começa a ser tomado por nuvens escuras, não é preciso ser um Nostradamus para adivinhar as horas seguintes: enchentes assolando as principais cidades brasileiras. Anos após ano, trata-se de uma tragédia anunciada. Seja no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Cuiabá, em Florianópolis, em  São Luís, em Vitória ou em Teresina. Não há discriminação regionalista. É uma mazela incurável do Brasil. Nos últimos tempos, as enchentes, de tão culturais, ganharam até os contornos dos roteiros de sitcom. Se não há remédio, melhor fazer o povo rir com a desgraça. Quando faltam os pães, vamos ao circo.

Entram e saem governantes e ninguém faz nada. E o motivo é simples: obras para conter ou minimizar os estragos das enchentes, em geral, ficam enterradas, nunca estão visíveis e, portanto, se não forem realizadas, de fato, ninguém saberá, ou, quando executadas, não rendem votos no nosso sistema eleitoral doente e carcomido. Isso sem contar que as tragédias provocadas pelas enchentes legitimam uma imensa gama de movimentações fraudulentas do dinheiro público, como dispensas de licitações, compras superfaturadas e toda série de mutretas e malandragens que os Tribunais de Contas dos Estados e da União e o Ministério Público aceitam ser justificadas pelo “caráter emergencial”.Em português claro: as enchentes, que para a maioria são tragédias monumentais, para alguns poucos não passa de uma caixinha de Natal.

O assunto já é tão comum e caiu em tamanho descrédito que, na última semana e motivados pela chegada do verão, foi tema central de dois sitcons de grande sucesso na maior emissora de TV brasileira: “A Grande Família”, na quinta-feita, e “S.O.S. Emergência”, no domingo. Isso sem falar na criatividade dos produtores de efeitos visuais da emissora, que já inventaram um modelo de caractere que se forma a partir da chuva forte caindo num vidro de janela. A inovação foi usada em ambos sitcons e ficou interessante. Na ficção, o Lineu Silva de Marco Nanini, preso em sua casa suburbana pelos alagamentos, perdeu uma cafona noitada especial com sua Dona Nenê num hotel na praia de Copacabana e o Dr. Solano de Ney Latorraca perdeu-se de sua jovem e gostosa mulher em meio ao dilúvio. Mas, na vida real, centenas de pessoas perderam tudo que tinham e os governos encontraram a primeira brecha desse verão para roubar mais alguns milhões de reais dos cofres públicos. É como disse o lunático presidente venezuelano Hugo Chávez, ao culpar o capitalismo pelas trombas d'água que castigam seu país nos últimos dias.

Por ironia do destino e do histórico descaso, enquanto o fictício médico com nome de cantor brega, vivido pelo excelente ator Bruno Garcia, admirava os sedutores “airbags” de sua colega Ellen Roche, presos dentro do carro sob forte chuva e vendo a rua tornar-se um rio e o veículo um aquário, na vida real um dilúvio inundava as ruas do Rio de Janeiro naquele final de domingo. A enchente da ficção é tranquila, água límpida, parece piscina clorada. “À vera”, o negócio é bem outro. Enquanto eu olhava pela janela do meu apartamento no Catete, na Zona Sul carioca, e via a correnteza imunda tomar a rua e os carros e trazer consigo lixo, esgoto, cones de sinalização e até uma porta de madeira, Ney Latorraca encerrava o episódio de “S.O.S. Emergência” no melhor estilo Gene Kelly, de galocha branca nos pés, cantando “Singing in the Rain”, sentando no teto do seu carro alagado. Mergulhou na bela enchente televisiva e seguiu pela rua, apenas com o guarda-chuva à mostra. Enchentes culturais, meus caros. Enchentes culturais!

Fonte: HELDER CALDEIRA

Escritor, Colunista Político, Palestrante e Conferencista
www.magnumpalestras.com.brheldercaldeira@estadao.com.br

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Mais Sobre Helder Caldeira

Chegou a hora de enfrentar o STF

Chegou a hora de enfrentar o STF

A atual composição do Supremo Tribunal Federal é a pior de sua História. Não apenas pela desqualificação técnica de alguns ministros, mas pela postu

A tragicômica amnésia da esquerda

A tragicômica amnésia da esquerda

A estreia internacional do presidente Jair Bolsonaro revelou bem mais do que sua capacidade de quebrar protocolos oficiais, despistar a imprensa e i

O auxílio-moradia e a amnésia seletiva - Por Helder Caldeira

O auxílio-moradia e a amnésia seletiva - Por Helder Caldeira

Em recente entrevista ao apresentador Pedro Bial, na Rede Globo, o ministro Luiz Fux, atual presidente do TSE e relator no STF das ações que discutem

Povo fraco ceva porcos imundos - Por Helder Caldeira

Povo fraco ceva porcos imundos - Por Helder Caldeira

(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({}); HELDER CALDEIRA, Escritor. www.heldercaldeira.com.br – helder@heldercaldeira.com.br *Autor dos livr