Porto Velho (RO) quinta-feira, 19 de maio de 2022
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Gente de Opinião

Helder Caldeira

Bolsa Macunaíma



HELDER CALDEIRA*

Escritor e Jornalista Político

www.heldercaldeira.com.br[email protected]

*Autor dos livros “ÁGUAS TURVAS” e “A 1ª PRESIDENTA”.

Há um demônio rondando o sacrossanto universo político brasileiro. No início da tarde de um dia (in)útil, deitado no velho sofá de molas da sala sem reboco, um desdentado macunaímico fecha a enciclopédia messiânica e liga a TV LCD de 32 polegadas comprada em 60 prestações — das quais só pagou as duas primeiras, deixando as demais à esculhambação do SPC e Serasa e crente na prescrição pós cinco anos —, onde pretende assistir a 856ª reprise do clássico “A Lagoa Azul”. Apesar de seu quase meio século, ainda adora a jovem Brooke Shields seminua, passeando pela praia. Hipocrisia inata, reserva apenas o soslaio às curvas e cachos dourados de Christopher Atkins.

Entre o desejo por uma e a pecadora excitação pelo outro, mergulha em sua mais gloriosa digressão na última década: como comprar o Playstation para o filho, agora com 15 anos e da geração “Nem-Nem-Nem” — nem trabalha, nem estuda, nem joga futebol —, e alimentar seus dois netos, concebidos após o baile da garotada? Talvez fosse necessário fundar um sindicato de beneficiários ao lado daquela senhora que virou hit na internet após protestar contra a miséria do Bolsa Família que não lhe permite ultrapassar a fronteira das desigualdades sociais e comprar uma calça de R$ 300 pra filha.

“É mais de trezentos reais... é mais de trezentos reais... ‘Tô’ com mais de oito ‘anu’ que eu recebo Bolsa ‘Famía’, não tá ‘danu’ pra ‘comprá’ nem uma calça pra minha ‘fia’. Porque uma calça pra uma jovem de 16 anos é mais de trezentos reais... é mais de trezentos reais... uma calça pra uma jovem 16 anos é mais de trezentos reais... meu dinheiro nunca... nunca... nunca ‘aumentô’”♫ (Confira e abuse do [sic]: http://youtu.be/3LYbXSHVL4M)

Foi interrompido em sua divagação pelo comercial de uma cerveja que lhe apresentava as vantagens morais e cívicas de ter uma “loirinha bem gelada” em casa. Lembrou a asinha de frango no último churrasco na laje — “Pô, que quarta! O ‘Mengo’ foi tri! Inesquecível!” — e pensou como eram bons os tempos do Fernando Henrique, quando o frango era baratinho. “Mas, é mel

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hor continuar no 13, senão cortam minha ‘Bolsa’ e aí, ‘cumpade’, já viu, né?!”, concluiu, calçando o tênis falsificado e saindo em direção ao mercado. “Uma gelada. É disso que preciso agora!”

À entrada da Mercearia do Bigode, na esquina, deparou-se com a edição diária da Folha de S.Paulo, a tratar da explosão de programas sociais nos governos do Partido dos Trabalhadores. Fitou o gráfico: “Atualmente são 72 milhões de benefícios concedidos pelo Governo Federal. Uma escalada de 180% que exige hoje mais de R$ 400 bilhões por ano dos cofres públicos”. Desistiu da leitura. Considerou bobagem. “É por isso que a Dilma vai ganhar de novo!”

Quando estava alcançando as garrafas de cerveja que anotaria na “caderneta do fiado”, foi abordado pelo Bigode: “Estou precisando de um atendente para o período noturno. Segunda à sexta, salário mínimo. Você está desempregado, né?! Quer a vaga?”

“Pô, Bigode! No momento, ‘tô’ descolando um ‘trampo’ em casa... coisa boa... trabalho sério... tem até carteira assinada. Mas, valeu mesmo assim, ‘gente fina’!”Saiu do estabelecimento para não ter que ouvir os lamentos do proprietário. Seguindo a passos curtos e calmos, ousou cogitar a verdade sobre aquela escusa: “Esse cara é maluco! Vê se pode?! Oferecer trabalho na hora da novela. O Bigode não ‘tá’ batendo bem da ‘cacholeta’!”

Quando se aproximava de casa, avistou um jovem uniformizado e com uma tabuleta nas mãos, aguardando-o ao portão. “Pesquisa de opinião. Se a eleição fosse hoje, em quem você votaria?”, perguntou o rapaz. “Na Dilma, claro! Ou no Lula. Qualquer um dos dois!” Voltou a deitar-se no velho sofá e foi curtir o último bloco de “A Lagoa Azul”. Sobre a improvisada estante de tijolos jazia, impoluto, seu cartão verde-e-amarelo do Bolsa Macunaíma. “Ai, que preguiça!”, bocejou enquanto Richard, Emmeline e o pequeno Paddy comiam sementinhas de Prozac. Viva a #BananeiraJeitinho!

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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