Porto Velho (RO) domingo, 18 de novembro de 2018
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Gente de Opinião

Esron Penha de Menezes

7 de Setembro


Quem de nós for a São Paulo procure visitar, no Ipiranga, a "Casa do Grito", uma reprodução bem aproximada da fidelidade da cabana que aparece na tela do pintor paraibano Pedro Américo, intitulada "O Grito do Ipiranga". E também uma revelação histórica viajar a Santos pela estrada velha que demanda a Cubatão, para ficar conhecedor da percorrida feita pelo Príncipe D. Pedro, autor da nossa independência política, que se entrelaça com as nuances promovidas pela Maçonaria, objetivando o mesmo evento.

Naquele inicio de século eram os monarcas muito temerosos das penitências aplicadas pela religião católica, que também ditavam as normas de governo a muitas nações do Globo. Daí a Maçonaria, muito combatida, pelo clero, ter, para se impor, a necessidade de congregar para a instituição as simpatias dos detentores de cargos do segundo escalão dos governos que influenciavam diretamente os chefes de governos a decidia favoravelmente aos interesses da Ordem.

E não foi outro o procedimento de Irmãos como os Andradas, que tendo como chefe do clã José Bonifácio, cercaram o Príncipe Regente de atenções e o doutrinaram a compreender os propósitos de nossa Sublime Instituição até conseguirem autorização para proceder as demarques da sua iniciação, que ocorreu, de um só golpe, do 1o ao 3o grau na mesma sessão magna da admissão do príncipe.

Usaram esses nossos valorosos Irmãos de vários atalhos para conseguirem chegar sem percalços à estrada real.

Logo depois da partida de D. João VI, maior evidência tomou o Movimento Liberatório. Vivia-se uma época de exacerbação nacionalista e as personalidades portuguesas em postos de mando provocavam desconfianças, embora português fosse o Príncipe Regente, para quem estavam voltadas as simpatias do povo brasileiro.

O principal alvo das críticas era o Conde dos Arcos, pessoa de inteira confiança do Rei, que deixara como Ministro, para auxiliar — melhor dito — para fiscalizar as atividades do Príncipe Regente.

Para combater o Ministro, começaram a reunir-se na casa do Juiz de Fora, José Clemente Pereira, o cônego Januário da Cunha Barbosa, Joaquim Gonçalves Ledo e outros maçons que difundiam suas mensagens através do jornal "Revérbero Constitucional Fluminense" e depois também pela folha "O Espelho”, dirigido por Manoel de Araújo Guimarães.

Era do conhecimento dos brasileiros que as Côrtes exerciam total domínio sobre D. João VI, que se encontrava sob a tutela das mesmas. Mais grave se tornou a situação quando, em dezembro de 1821, correu a noticia de que aquela Assembléia estava preocupada com a situação do Brasil, que caminhava em marcha acelerada para se tornar independente. E para evitar que esse movimento se agravasse, pretendiam chamar o Príncipe a Lisboa com a alegação muito pueril de que ele precisava completar sua educação viajando por muitos países da Europa. Essas notícias deram maior alento as agitações e começaram a surgir outros jornais e a serem fundadas associações e clubes destinados a resistir aquelas ordens consideradas estapafúrdias.

Surgiu o Clube da Resistência, que tinha como sede à residência de José Joaquim da Rocha e o jornal "A Malagueta", dirigida por Luiz Augusto May, que mais que os outros dinamizaram o movimento independencista.

No Rio de Janeiro, em São Paulo e Minas Gerais, tratou-se de colher adesões para um memorial pedindo a permanência do Príncipe. Conseguiram 8.000 assinaturas no documento que foi apresentado ao Regente por José Clemente Pereira no dia 9 de Janeiro de 1822. Esse documento despertou sentimentos de rebeldia no Príncipe, que aderiu a causa prometendo ficar no Brasil a despeito das ordens recebidas das cortes de Lisboa.

Sobre esse episódio vamos reler trechos da carta feita por D. Pedro ao Rei seu pai, participando aquela sua decisão. Para não ser muito prolixo vamos nos ater só sobre os principais tópicos da missiva fazendo a sua tradução que e parcialmente a seguinte:

“Meu pai e meu Senhor”,

Dou parte a Vossa Majestade que no dia de hoje, às 10 horas da manhã, recebi uma participação do Senado da Câmara pelo seu procurador, pedindo uma audiência. Concedi-lhes a audiência e fixei para as 11 Horas receber o Senador. Este me apresentou um memorial onde dizia que se eu desamparasse o Brasil ele se tornaria independente. Ao contrário se eu permanecesse ele continuaria unido a Portugal. Ao que eu respondi: Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto, diga ao povo que FICO.

Com esta decisão estava dado o primeiro passo para a nossa Independência, que se concretizou em nossos Templos no dia 20 de agosto e, fora deles, a 7 de Setembro de 1822.

Retroagindo no tempo e no espaço vamos procurar narrar muito sucintamente o prólogo do evento da Independência do Brasil que, como já explicamos em linhas antes, teve o incentivo nos bastidores da ação decisiva da Maçonaria, que não se limitava a fazer insinuações ao Príncipe Regente, iniciado há pouco em seus augustos mistérios. Ia mais além: prancheou por diversas vezes Metternich, Ministro do pai da Princesa Leopoldina, o Imperador Francisco José I, da Áustria, a corte mais sofisticada e evoluída da época a apoiar a causa dos brasileiros que queriam fazer da princesa austríaca a sua primeira imperatriz e por isso não admitiam ser ela relegada à humilhante condição de obscura dama na corte portuguesa, antes do falecimento de D. João VI.

Por isso toda vez que chegavam despachos de Lisboa sobresaltavam-se os principais cortesãos da incipiente corte do Rio de Janeiro. E o Príncipe não se decidia.

O primeiro rasgo de autoridade do Príncipe ocorreu a 9 de janeiro, quando declarou, solenemente, apesar de já estar de bagagem arrumada para a volta à Europa, que ficaria com os brasileiros.

Mas a história assinala esse evento de duas maneiras diferentes: na primeira, o Príncipe declarou que retardaria seu regresso aguardando a decisão das Côrtes e de seu augusto pai. Assim, foi lançado no auto de vereação, mas refletindo melhor sobre as palavras finais do manifesto: "O NAVIO QUE RECONDUZIR O PRÍNCIPE REAL APARECERÁ, NO TEJO, COM O PAVILHÃO DA INDEPENDÊNCIA DO BRASIL", compreendeu o crítico da situação e que a sua atitude de dubiedade poderia fazer romper-se o frágil laço que nos unia a Portugal e por isso enfatizou que FICAVA.

Enquanto perdurava a euforia, dois dias depois a Divisão Auxiliadora, com seus 2.000 homens sob o comando do Tenente General Jorge de Avilez Zuarte de Souza Tavares, ensaiou prender o Príncipe e embarcá-lo mesmo contra a sua vontade, na fragata “União” fato que não chegou a consumar-se por haver ocorrido numerosa força brasileira, sob o comando do general Joaquim Xavier Curado, que não só repeliu o ataque como ainda obrigou a Divisão Auxiliadora a atravessar apressadamente à baia de Guanabara e se acantonar em Niterói, de onde embarcou a 15 de fevereiro para Lisboa. Não contente com a derrota sofrida por Jorge Avilez, decidiram as Côrtes mandar uma esquadra de 7 navios, sob o comando do vice-almirante Francisco Maximiliano de Souza, com 1.250 homens de desembarque, às ordens do coronel António Joaquim Rosado. Essa expedição foi detectada antes de atingir as águas territoriais brasileiras, que a esbarrou obrigando-a ao retorno, com a perda da fragata “Real Carolina”, que aderiu com toda a sua tripulação à causa do Príncipe.

O Rei de Portugal a tudo assistia impassivelmente, torcendo para que seu filho se revoltasse contra as Côrtes (Parlamento) e assumisse de uma vez o governo do Brasil efetivando suas palavras. "Pedro, se algum dia o Brasil se separar de Portugal, põe a coroa na tua cabeça antes que algum aventureiro lance mão dela".

Caminhavam as cousas por esses caminhos, com revoltas  na Bahia, chefiadas por Madeira de Melo, depois e Minas, contida por D. Pedro, e por fim em São Paulo, para onde seguiu a 14 de agosto, em companhia de Luiz Saldanha da Gama, Francisco Gomes da Silva - o Chalaça — Francisco de Castro Canto e Melo e os criados João Carvalho e João Carlota. No pernoite em Santa Cruz, se juntaram à caravana o padre Belchior Pinheiro e o Tenente Coronel Joaquim Aranha Barreto de Camargo.

Prosseguindo, chegou a comitiva a São Paulo a 25 de agosto, onde foi recebida com muitas pompas.

Verificou D. Pedro que as ocorrências dali não passavam de desinteligências entre pessoas da terra, ciúmes e brigas de famílias e ideais políticos mais ou menos exagerados, mas que todos estavam coerentes no propósito de resistir tenazmente as Côrtes de Lisboa.

Desanuviados os horizontes, deu o Príncipe instruções às Câmaras e ao funcionalismo para cumprirem escrupulosamente as ordens que em seu nome lhes fossem transmitidas regularmente.

Passaram em São Paulo mais alguns dias, desfazendo as intrigas, e a 5 de setembro a comitiva partiu para a vila litorânea de Santos, onde passou todo o dia 6, e ao alvorecer de 7, rumou de volta à São Paulo. Chegando ao lugar Moinhos, ordenou D. Pedro que a Segurança passasse à frente e fosse espera-lo perto da cidade.

Vamos aproveitar o relato de Veiga Cabral, do momento épico da Independência do Brasil, narrado assim: Ficara D. Pedro a poucos quilômetros do Ipiranga, quando nesse mesmo dia 7 de setembro, então sábado, aí recebeu dois emissários vindos do Rio de Janeiro: o estafeta Paulo Emílio Bregaro e o Major Antônio Ramos Cordeiro. Eram eles portadores de cartas de José Bonifácio e da Princesa Leopoldina com as notícias mais recentes de Portugal e decretos que haviam chegado pelo navio "Três Corações", que aportara ao Rio de Janeiro a 28 de agosto.

D. Pedro desmontou, sentou-se à margem da estrada e leu detidamente primeiro a carta de sua esposa, em seguida os despachos e por fim a carta de José Bonifácio. Terminada a leitura entregou arrebatadoramente toda a correspondência ao ajudante de ordens Francisco de Castro Canto e Melo, muito sério, meditou alguns instantes e por fim exclamou, em tom desanimado: "Tanto sacrifício feito por mim e pelo Brasil inteiro... e não cessam de cavar a nossa ruína". Continuou passeando para lá e para cá, com a mão no queixo. Em seguida monta, desembainha a espada e exclama: “Ainda é tempo... Independência ou Morte. Estamos separados de Portugal” e esporeando ferozmente o animal, parte em desabalada carreira até as margens do riacho Ipiranga, onde permanecia o grosso da comitiva.

A chegada intempestiva do Príncipe causa apreensão naquela gente pela sua atitude de guerreiro espartano, espada desembainhada, as faces afogueadas, as feições alteradas, denotando claramente a gravidade do momento que atravessava e as suas reações, e grita: "Camaradas: As Côrtes de Lisboa querem mesmo escravizar o Brasil; cumpre, portanto, declarar já a sua independência; estamos definitivamente separados de Portugal: Independência ou Morte."

Quando esses fatos ocorreram os relógios marcavam 4 e meia da tarde do dia 7 de setembro de 1822.

O regato Ipiranga corria mansamente, agora no seu novo leito de uma nação Independente, enquanto se repetia na metrópole o Hino da Independência, no qual o Príncipe cantava para os brasileiros a grandeza da liberdade, o esplendor da independência política da nação brasileira.

Fonte: Esron Penha de Menezes

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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