Porto Velho (RO) quarta-feira, 16 de outubro de 2019
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Dante Fonseca

Rondon: racismo e esquecimento internacional


Rondon: racismo e esquecimento internacional - Gente de Opinião

Recentemente recebi como presente de um amigo um livro escrito pelo jornalista norte americano Larry Rohter. A obra trata da biografia de Rondon e sua referência segue ao final. De interesse sobre tantas outras biografias desse nosso ilustre conterrâneo é o tratamento analítico realizado pelo autor. Não oferece a obra apenas um repositório cronológico da vida e obra do marechal, mas do empenho em situá-lo dentro de seu tempo para melhor compreender seus atos e suas ações. Eis então a diferença entre o biógrafo e aquele que escreve pouco mais que uma fé de ofício. É, evidentemente, um risco, um atirar-se ao desconhecido, todo aquele que arrisca a compreender, deixando de lado a cômoda descrição de uma vida. Como homens do presente podem falar, e compreender, as ações de homens do passado? Como podem abordar sociedades e comportamentos que não viveram? Essa é a tarefa geral daquele que enfrenta o desafio, para a qual o grande historiador francês Marc Bloch declara possuir o profissional da História a característica de ser humano, como aqueles sobre os quais escreve. Talvez essa seja a maior regalia do historiador. Mas não é única, nem definitiva, embora sem a qual seria inútil qualquer esforço de inteligibilidade. Essa inevitável vantagem deve ser complementada então com o método de trabalho, com a teoria, com a crítica e, principalmente, com a disciplina intelectual. Resulta daí, senão um trabalho irretocável, uma obra de profissional. Jornalistas e historiadores, o quanto têm em comum?

Da leitura da obra, que recomendo a quantos tenham curiosidade sobre o assunto e, creio, seja de interesse especial para os cidadãos de Rondônia, destaco a surpreendente constatação do biógrafo sobre o desconhecimento da obra de Rondon fora do Brasil. Animou-me essa denúncia, porque partindo de um estrangeiro deveria receber acolhida e providências das autoridades brasileiras. Nossas autoridades deveriam divulgar mais a vida e obra de Rondon. Particularmente porque nossa República está cada vez mais faminta pela escassez de heróis que, por sua vida, possam dar exemplo de abnegação patriótica na realização das obras exigidas pelo bem da nação. Sim, porque ainda somos uma nação, independentemente dos interesses particularistas que intentam impor-se acima do bem geral. Esquecem esses grupos vorazes pelos “direitos” que as crises econômicas e políticas, as calamidades causadas pela insânia de maus brasileiros, atingem a todos, embora, como sempre, atinjam mais aos menos favorecidos, que muitas vezes são vítimas dos erros justamente daqueles que mais se empenham em propagar que os defendem. O Brasil passa por um jejum de cidadãos que sejam muito mais conduzidos pelo senso do dever do que pela busca de mais e mais direitos, que geralmente satisfazem a fome dos pequenos grupos e ignoram ou mesmo causam a inanição geral da nação.

Sim, a vida de Rondon deve ser ensinada, mais no Brasil e divulgada mais no exterior, justamente pelo exemplo que ela representa. Cândido Mariano da Silva Rondon nasceu em Santo Antônio de Leverger (MT) em 5 de maio de 1865  e faleceu no Rio de Janeiro em 19 de janeiro de 1958. Formado oficial pela Escola Militar do Rio de Janeiro passou a servir nas obras de construção das linhas telegráficas nos sertões brasileiros, justamente a tarefa que muitos queriam evitar. Dessa missão inicial progride ao longo do tempo para a causa de sua vida. Juntamente com a extensão dos fios do telégrafo promove o conhecimento do solo pátrio, o contato e a defesa das populações nativas.

Segundo Rohter, tanto no que se refere a quantidade de expedições realizadas, quanto às distâncias vencidas, dificuldades encontradas ou número de informações coletadas: “Rondon é o maior explorador dos trópicos na história”. Suas realizações superam os feitos de exploradores como Henry Stanley, David Livingstone ou Richard Francis Burton. Participou de mais de vinte e cinco expedições pelos sertões do Mato Grosso, que cobriram o percurso de mais de quarenta mil quilômetros a cavalo, a pé, em canoas ou sobre mulas. Nessa ocupação abriu estradas, fundou povoações e contatou grupos indígenas. Era também um homem de ciência, foi engenheiro militar, bacharel em matemática e ciências físicas e naturais, além de professor de astronomia na escola militar. Publicou mais de cem artigos científicos versando sobre antropologia, astronomia, biologia, botânica, ecologia, etnologia, geologia, ictiologia, linguística, meteorologia, mineralogia, ornitologia e zoologia. Os cientistas que trabalharam sob suas ordens catalogaram novas plantas, animais e minerais. Contudo, seu interesse principal eram as populações das regiões que percorreu. Assim, muitos dos seus registros científicos referem-se à língua, crenças e costumes dos povos com os quais entrou em contato. Foi o inspirador e primeiro dirigente do Serviço de Proteção ao Índio. Essa instituição propugnou a defesa do nosso nativo, em um momento onde o grande tema da política nacional era quanto ao destino das populações indígenas no Brasil. Quando alguns pregavam a “inutilidade” dessas populações para o “progresso” nacional, considerando essas populações como um estorvo e recomendando seu “desaparecimento”, Rondon propugnava sua proteção e inserção na sociedade nacional.

Apesar de ter obtido o reconhecimento nacional que se manifestou com o recebimento da patente de marechal, de ter sido escolhido para patrono da arma de comunicações do Exército Brasileiro (creio que devia ser também o patrono da “Arma da Paz” recentemente criada no  Exército Brasileiro), e de ter sido o único dos nossos conterrâneos a merecer a homenagem de com seu nome batizar um estado (Rondônia), entre tantas outras manifestações reveladoras da importância do trabalho que desenvolveu por décadas em favor da ciência e do nosso povo. Apesar de merecer o reconhecimento de diversos cientistas de renome internacional, como Claude Levi Strauss, teórico franco-belga da antropologia estrutural, também de Albert Einstein que, maravilhado com a ideia de um general que pregava o contato pacífico com os indígenas, indicou Rondon para o Prêmio Nobel da Paz em 1925, Rondon não mereceu até hoje o devido respeito internacional por parte de importantes instituições de pesquisa. É Larry Rohter que informa não existir: [...] um verbete para Rondon no prestigiado Oxford Atlas of Expoloration [...], embora nele contenha nomes de outros exploradores que mais tarde percorreram os mesmos caminhos já abertos por Rondon. Do mesmo modo é registrada a ausência de seu nome no National Geographic Expeditions Atlas, que reserva ao presidente Theodore Roosevelt todas as glórias da expedição ao rio da Dúvida, hoje conhecido por rio Roosevelt. Em geral, quando se trata da Expedição Roosevelt-Rondon no exterior, Rondon é tratado mais ou menos como o guia nativo do buana Roosevelt. É interessante observar que Roosevelt reconheceu os grandes méritos do marechal ao afirmar que um país que possuía um homem daquela envergadura estava destinado a figurar entre as grandes nações do Mundo.

A razão desse esquecimento e desvalorização da figura e da obra de Rondon no exterior? Responde Rohter em uma palavra: racismo. Não se enquadrava Rondon no estereótipo do explorador alto, branco, de preferência louro e de olhos azuis. Na sua ancestralidade constava a composição de índios guanazes, terenas e borôros, além de europeus e algum suposto africano. Era de baixa estatura, tinha a pele escura, aproximando-se seu tipo físico mais do índio. Para o brilho de sua biografia sua missão também diferia daqueles colonizadores que carregados da mentalidade imperialista, com métodos e objetivos apropriados à essa ideologia, vasculhavam o Mundo fora da Europa. Também se distinguia daqueles, cujo interesse era meramente científico ou daqueles cujo interesse era a simples aventura. Rondon unia a curiosidade científica com a preocupação pelos destinos do nosso povo, principalmente pela parte mais esquecida e vilipendiada dele, a população rural: o índio e o caboclo. Além de falar o inglês e o francês, Rondon dominava diversas línguas nativas. Era, portanto, a síntese bem-sucedida de um povo miscigenado e portador de uma cultura mestiça cuja obra o alçou à condição de herói nacional. Completa Rohter então sua análise:

 

Mas, sem dúvida, o racismo amplamente disseminado de sua época é um dos fatores preponderante - se não o principal – tanto de sua ausência no panteão de renomados exploradores quanto para o desconhecimento de sua vida entre o grande público.

 

ROHTER, Larry. Rondon, uma biografia. Tradução Cássio de Arantes Leite. 1a ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.

 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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