Porto Velho (RO) sexta-feira, 25 de setembro de 2020
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Dante Fonseca

Railway construction in Brazil: The Daily Graphic e as primeiras imagens da povoação de Santo Antonio do Rio Madeira (Rondônia)


 Por Dante Ribeiro da Fonseca.  

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No dia 26 de fevereiro de 1879 o jornal nova iorquino “The Daily Graphic” publicou, em sua edição de número 1849, um conjunto de imagens de um pequeno casario localizado junto à cachoeira de Santo Antonio no Rio Madeira (Amazonas-Rondônia). “The Daily Graphic” circulou entre 1873 e 1889 e ficou conhecido pelo seu pioneirismo, pois foi o primeiro tabloide ilustrado diário dos Estados Unidos, definindo-se como um: jornal vespertino ilustrado (Pictorial Newspaper).

O conjunto de desenhos reflete de certa forma o pioneirismo desse jornal, pois apresenta-nos nessa edição uma parte das primeiras imagens que disponibilizamos daquela localidade feitas antes de 1909. Daí sua importância como fonte de pesquisa histórica. Antes dessa edição, a única imagem que conhecemos sobre essa localidade é aquela reproduzida no livro do engenheiro Edward D. Matthews intitulado “Up the Amazon and Madeira Rivers through Bolivia and Peru” (1879, não disponível em português). São imagens interessantíssimas e podem ser muito esclarecedoras do ponto de vista da História daquela localidade e de Porto Velho, na medida em que a trajetória de ambas se vincula no tempo.

Faz já alguns anos que esses desenhos são conhecidos. Recorrentemente durante esse tempo passei a vista sobre eles displicentemente, considerando-os apenas como um recurso para ilustração de pesquisas sobre aquele local no final do século XIX, na medida em que não havia provas de que aquelas imagens eram reais. Contudo, recentemente um evento veio a despertar um interesse maior sobre essa fonte. Foi quando o ilustre intelectual e sócio efetivo da Academia de Letras de Rondônia (ACLER), Antonio Cândido, enviou-me uma cópia dessa imagem, ressaltando um detalhe do sobrado então ali existente. Já desde alguns anos discutimos com frequência sobre aspectos daquela pequena povoação ainda pouco observados e a imagem teve o condão de despertar-me o interesse em conhecer mais profundamente essa fonte de pesquisa. Eis a imagem abaixo:

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Lembrei então que já havia visto aquelas figuras em outro local. De fato, depois da impressão original no “Daily Graphic”, foram impressas novamente no livro do engenheiro norte americano Neville Craig (1907, pp. 310-301), que trabalhou na segunda tentativa de construção da ferrovia Madeira-Mamoré em 1878. Dessa edição há uma reprodução em inglês (ADAMS, 2013), mas não tivemos acesso a ela para conferir a imagem. Para aqueles que possuem a curiosidade em saber mais sobre esse engenheiro, procurem nesse mesmo site meu artigo “Pequena biografia do engenheiro Neville B. Craig, partícipe da tentativa de construção da Ferrovia Madeira-Mamoré em 1878”, aqui publicado em 14/10/2016. O título do livro de Craig poderia também ser traduzido como: “Recordações de uma malfadada expedição às cabeceiras do rio Madeira (ou ao alto Madeira), Brasil”. Todavia, foi mais apropriadamente, no sentido mercadológico do termo, traduzido para “Estrada de Ferro Madeira Mamoré: história trágica de uma expedição” (São Paulo: Nacional, 1947). É a única edição em português que temos notícia e nela não foi publicado o conjunto de desenhos de Santo Antonio sobre o qual tratamos aqui.

Então, a primeira tarefa da pesquisa foi obter uma cópia da edição do jornal onde originalmente saiu o artigo sobre a ferrovia Madeira-Mamoré e seu (então) ponto inicial, Santo Antonio do Rio Madeira. Ao obtê-la, percebemos que as cópias publicadas anteriormente, tanto em Craig como nas demais que podemos acessar na internet, apresentam dois sérios problemas: não possuem nitidez suficiente para que possamos analisar todos os aspectos das ilustrações, principalmente suas legendas; não trazem o texto que acompanha as imagens. Em razão desses problemas, inconscientemente, pensávamos que aqueles desenhos fossem fruto da imaginação de algum desenhista norte americano que ilustrou a reportagem do “Daily Graphic” “de ouvir falar”, como foram feitos grande parte dos nossos desenhos no período colônia até a Invasão Holandesa no século XVII.

Após conseguirmos essa edição (que publicaremos em breve), a segunda tarefa foi submeter à crítica histórica, interna e externa, tanto o conjunto de desenhos como o artigo que os acompanha. Alertamos desde já que o artigo será objeto de uma análise em separado, na medida em que nos concentraremos aqui apenas nos desenhos. Através dessa crítica poderemos delimitar as potencialidades e limitações das informações escritas e iconográficas contidas no artigo, garantindo assim um aporte empírico mais seguro para os avanços interpretativos que essa fonte poderá permitir. Utilizaremos como principal contraste, a crítica externa, o livro de Craig, já citado. Assim, o trabalho que segue é uma análise das ilustrações contidas do artigo publicado naquela edição do “Daily Graphic”.

Como resultado, tivemos a confirmação daquilo que supúnhamos, ou seja, que aqueles desenhos representavam edificações reais, existentes em Santo Antonio em grau de fidelidade antes por nós apenas suspeitado. Dada essa certeza, fomos beneficiados também com o fato de que agora podíamos saber que edificações eram aquelas apresentadas no conjunto, o que aumentava significativamente seu valor como fonte histórica. Enfim, com a cópia do jornal tivemos a confirmação da fidelidade dos desenhos, o que eles retratavam e mais informações sobre as edificações publicadas. É evidente que toda hipótese parte de algumas pistas, evidências, havia o sobrado no desenho e havia a menção do sobrado em Craig, mas como saber que o desenho fora realizado por quem viu o sobrado?

Como dissemos, o texto da reportagem será analisado em outra parte, em outro artigo, mas aproveitaremos dele algumas informações, quanto à autoria dos desenhos e, principalmente, o aspecto físico da localidade. Conforme nos informa o jornal, a maioria das edificações do conjunto de desenho publicado está a serviço da construção da estrada de ferro: escritórios, oficinas, residências e serraria. Mas há outras, nos desenhos encontramos um panorama da vila e outro da natureza na margem do rio e as edificações que serviam à guarnição militar ali sediada. Essas últimas, ressalto, são as únicas no conjunto não ligadas ao empreendimento ferroviário. No cabeçalho dos desenhos constam o nome e a data de publicação do jornal e no rodapé os seguintes dizeres: “Cenas na linha da Estrada de Ferro Madeira & Mamoré, Brasil” e abaixo acrescenta a informação de que os desenhos foram feitos por H. J. Goth a partir dos esboços de C. M. Bird, que era o engenheiro chefe em Santo Antonio. Portanto expressavam o que Bird havia visto.

Segundo Craig, o navio “Mercedita”, que conduziu a primeira equipe da P. & T. Collins, para construção da ferrovia na Amazônia, partiu festivamente do porto de Filadélfia no dia 4 de janeiro de 1878 e chegou a Santo Antonio no dia 19 de fevereiro. O “Daily Graphic”, cujo título do artigo é “Construção de ferrovia no Brasil” e o subtítulo “Supervisionado pelos contratantes americanos, prosseguem os trabalhos”, informa em fevereiro do ano seguinte que: “Neste número exibimos as paisagens de Santo Antonio, no Brasil, onde estão centralizados os trabalhos executados pelos empreiteiros norte-americanos, agora responsáveis pela construção da ferrovia Madeira & Mamoré.”

Quando a P. & T. Collins chegou a Santo Antonio do Rio Madeira, encontrou-a tal como a deixara Mathews em 1874, pois havia mudado minimamente. Mathews foi o engenheiro que trabalhou na tentativa fracassada de construção de ferrovia de 1872 e deixou no local edificações e material ferroviário. As memórias de Mathews pouco registram sobre a localidade de Santo Antonio e seus moradores, exceto que lá: “É mantido um posto avançado do exército brasileiro, ou "destacamento" com cerca de trinta soldados, sob o comando de um capitão, o próximo destacamento fica no rio Itenez, na província de Mato Grosso.” Para informação do leitor, o rio Guaporé é denominado na Bolívia Itenez. Assim, cremos, Mathews pouco ou nada encontrou de edificações e moradores no local, exceto a guarnição.

Já Craig afirma que em 1878 os expedicionários encontraram em Porto Velho várias edificações, a saber: 1) dois galpões de ferro corrugado próximos ao porto erguidos pela P. & T. Collins que serviriam de armazéns; 2) uma habitação e depósito de um comerciante local, térrea e de estilo rústico feita de “lascas de palmeira”, certamente de paxiúba, e coberta com folhas; 3) outra parecida, que estava ocupada pelo comandante do destacamento militar. Depois de procurar, abrindo caminho a terçado (facão) no mato fechado, encontraram mais três edificações. Como os galpões de ferro, também erguidos pelo pessoal da P. & T. Collins: 4)

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 Figura 1: Santo Antonio – Rio Madeira, cerca de 1873 Vista de montante
Fonte: Mathews, 1879, p. 25.


uma que servira ao engenheiro Mathews, próxima ao rio e cercada por um bananal, estava em estado irrecuperável. As outras se assentavam a mais de 300 metros da margem, em terreno mais elevado, foram assim distribuídas 5) a menor ficou para uso os operários que desembarcaram no vapor “Arari”, que chegou depois do “Mercedita” trazendo mais trabalhadores e 6) a outra, também rústica, de dois andares com um quarto em cada andar, ficou para a utilização dos engenheiros e projetistas (1947, pp. 131-133).

Se Mathews não deixou informações mais detalhadas da localidade sob a forma de palavras, deixou-as eloquentemente ilustrada, conforme podemos ver na figura 1:


 

Essa foi, em parte, a situação da povoação encontrada por Craig em 1878. Certamente nesse detalhe podemos observar a casa “[...] um pouco mais distante [...]” sobre a qual “[...] panejava orgulhosa a bandeira do Império.” onde morava o comandante da guarnição (1947, p. 132). A situação do local não era animadora, pois comentou que, de todas as povoações que havia aportado no Madeira, era aquela a que menos oferecia atrativos. Observou sobre as construções da povoação que havia apenas duas dignas de nota: uma pertencente ao dono do armazém e outra a residência do comandante do pequeno destacamento militar estacionado no local.Mesmo a casa da figura de destaque no local, o comerciante, era assim descrita por Craig: “Com apenas um andar, era de estilo rústico e tinha toda estrutura de madeira atada com cipós, soalho e paredes de coqueiro lascado, teto de folhas de uma palmeira muito abundante por toda parte. Nenhum prego em toda casa”. (CRAIG, 1947, p. 132).

No mesmo ano, João Severiano da Fonseca, que também passou por aquela vila, não demonstrou grande entusiasmo em relação ao povoado. Ressaltou o isolamento de Santo Antônio em relação à capital da província a que pertencia, Mato Grosso, ao informar que era do Amazonas que provinha a fiscalização e a guarnição daquele local. A localidade compunha-se de algumas casas cobertas de zinco e palha e apenas um sobrado (1986, p. 322).

Os desenhos publicados no “Daily Graphic”, mais o texto do artigo, complementam as informações de Craig. Dentre as imagens, uma panorâmica da povoação (Figura 1) composta pelas edificações deixadas pela Public Works e daquelas erguidas pela P. & T. Collins (Vista panorâmica de Santo Antonio do Rio Madeira, 1879). Nota-se a existência de aproximadamente 30 edificações.

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Figura 2: Vista panorâmica de Santo Antonio do Rio Madeira, 1879

 

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Figura 3: On the banks of the Madeira River  

A figura 3  tem em seu rodapé o seguinte título: On the banks of the Madeira River (Nas margens do rio Madeira). É uma paisagem do rio, da exuberante floresta em suas margens e de uma igarité atracada. O conjunto da figura 2 confere ao desenho um caráter bucólico, totalmente em contraste com a tragédia que ali se desenrolava.
 

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Figura 4: Camp in the woods

Sobre a figura 4, cujo desenho é intitulado originalmente Camp in the woods (Acampamento na floresta), não foi possível sua adequada localização. Retrata um tapiri, como chamamos na região uma tosca coberta de palha sustentada por estacas de madeira, que poderia servir para escritório ou refeitório improvisado. Embora não possamos localizar adequadamente esse desenho, Craig fala em um acampamento em Jaci-Paraná (1974, p. 407). Ao fundo, podemos ver as barracas de lona que serviam de dormitório.
 

Neville Craig faz menção a dois acampamentos da ferrovia onde foram instalados os operários e mecânicos em Santo Antônio: o acampamento “Edson”Railway construction in Brazil: The Daily Graphic e as primeiras imagens da povoação de Santo Antonio do Rio Madeira (Rondônia) - Gente de Opinião (Camp Edson) e o Variedades Gorman (1947, p. 133-134). O artigo do “Daily Telegraph” não menciona o acampamento “Variedades Gorman”. Diga-se a respeito que Craig não fornece nenhuma pista que esclareça a origem desse nome, talvez tenha alguma relação com Patrick Gorman, que fazia parte da expedição. Há, contudo, um desenho do acampamento Edson apresentado na figura 5. Aqui o padrão é dado pelas barracas de lona, o que indica a provisoriedade do acampamento, embora situado em Santo Antonio.

Figura 5: Camp Huff

Um parágrafo especial deve ser aberto para o Camp Huff (Acampamento Huff). Qual a

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     Figura 6: Camp Huff
 Fonte: Daily Graphic de    26/02/1879

origem desse nome? Para que servia esse acampamento? Informa-nos Craig que uma velha serraria que fora abandonada pelo pessoal da Public Works foi recuperada (CRAIG, 1947, p. 139) para fornecer madeira serrada, inclusive dormentes, ao empreendimento ferroviário. O sr. Benjamin Huff firmou contrato com o sr. Collins em 9 de abril de 1878 para derrubar a mata e limpar o curso de três quilômetros da ferrovia. Os troncos de árvore resultantes da derrubada seriam transformados na

serraria, pelo mesmo sr. Huff, em dormentes e caibros (1947, p. 236). Eis aí a origem do nome para aquele acampamento (Figura 6). O sr. Huff, entretanto, veio a falecer em Santo Antonio no dia 30 de julho de 1878 (1947, pp. 236).

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Figura 7: Headquarters of engineer corps
Fonte: Daily Graphic de 26/02/1879.

Para completar as construções da Public Works está uma edificação que Craig descreve: “A outra, de dois andares, em estilo local, mas que dispunha de dois quartos fechados, um em cada andar, foi temporariamente destinada aos engenheiros e desenhistas que deveriam permanecer em Santo Antonio.” (CRAIG, 1947, p. 133). Também esse único sobrado existente (Figura 7) foi aproveitado pela P. & T. Collins para servir como Headquarters of engineer corps (quartel general dos engenheiros).
 

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Figura 8: Havendo mesmo um sobrado
Fonte: Daily Graphic de 26/02/1879

Curiosamente, o desenho que acompanha a letra capitular da parte em que o general Severiano da Fonseca se despede de Santo Antonio é também um sobrado, muito semelhantes àquele do “Daily Graphic”. Certamente é o mesmo, pois afirma o general sobre as edificações de Santo Antonio: “Compõe-se de várias casas, uma cobertas de zinco, outras de palma, havendo mesmo um sobrado, onde nos alojamos.” (FONSECA, vol. II, 1881, pp. 309-311) Estava em perfeito estado, pois havia sido recém recuperado pelo pessoal da Collins.(Figura 8).
 

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Duas imagens do “Daily Graphic” retratam as instalações da guarnição militar estacionada em Santo Antonio. A primeira retrata as Soldier barraks (habitações dos soldados, figura 9), casebres de palha bastante precários onde aqueles exilados do Mundo tentavam proteger-se das intempéries. Note-se, porém que à esquerda dessa imagem uma edificação de teto abaulado parece ser o desenho de um dos galpões de ferro corrugado construídos pela Public Works. Reforça sugestão o fato de que tanto os galpões encontrados pela P. & T. Collins quanto as moradias da guarnição encontravam-se próximos ao rio.

Na figura 10, novamentte, como na ilustração de Mathews, panejando orgulhosa a bandeira imperial em frente ao Brazilian headquarter and prision pen (quartel e prisão da guarnição brasileira). Note que defronte à edificação passam os trilhos que saem do porto em direção à cachoeira.

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Figura 11: American Consulate
Fonte: Daily Graphic de 26/02/1879.

Uma última figura do conjunto publicado no “Daily Graphic” (11) é a única que talvez tenha sido construída pela P. & T. Collins no conjunto, pois é feita de madeira e aparenta ser coberta com folha de zinco. A legenda desse desenho é American Consulate (Consulado Americano). Dentre os passageiros que partiram para Santo Antonio no navio “City of Richmond” estava Charles L. Moore, que fora nomeado cônsul dos Estados Unidos naquela localidade. Essa edificação então, de fato, abrigou o consulado do sr. Moore.

Aproximadamente três anos após a partida da P. & T. Collins, O comerciante português Bernardo da Costa e Silva deixou um depoimento de sua passagem por aquela localidade em 1882. Resumirei as informações dele e de dois outros viajantes, com uma citação do Capítulo I, intitulado “Uma cidade à far-west: tradição e modernidade na origem de Porto Velho” (FONSECA, 2014, pp. 30-31):

Descreveu-a como um local em ruínas, com algumas casas de madeira cobertas com zinco e um caminho trilhado entre o porto dos vapores e o porto das canoas, remanescente da tentativa de construção da ferrovia da qual participou Neville Craig. De presença do Estado destacou apenas um subdelegado policial do distrito de Santo Antônio e um destacamento militar de três ou quatro soldados.

Ao contrário dos demais, Bernardo da Costa e Silva detém-se mais na composição social da vila, indígenas bolivianos em sua maioria ocupados no setor do transporte fluvial que vinham ou iam para os departamentos bolivianos próximos à fronteira: Santa Cruz de La Sierra e o atual Beni. A maioria dessa população era, portanto, flutuante, estava de passagem em direção à Bolívia ou à Belém e Manaus (1891, p. 181).

Na última década do século XIX, em pleno auge do ciclo da borracha, as perspectivas de Santo

Antônio pareciam promissoras. Segundo o Barão de Marajó um grande número de vapores fretados ou particulares animava o movimento portuário da vila (1992, p. 130). A atividade de transporte que sustentava o escasso povoamento do local intensificara-se de tal maneira que outro viajante da mesma época constatava a existência de quatro mil pessoas no povoado no período de transporte da produção gomífera, a maioria de passagem (COÌMBRA, 1989, p. 137), dispersando-se nos seringais ou voltando às suas regiões de origem após a entrega do produto aos navios a vapor.

Algumas outras observações, à guisa de finalização devem ser feitas. Outro aspecto que vale mencionar é semelhança entre a edificação apresentada na figura oito, que o “Daily Graphic” apresenta como sendo o quartel e a prisão da guarnição militar brasileira em Santo Antonio e o desenho abaixo. O tipo da casa, o mastro com a bandeira, os trilhos correndo defronte sugerem tratar-se da mesma edificação. Silva afirma que a edificação é residência de um comerciante. Mas, o que explica uma bandeira hasteada em frente a uma casa de comércio? A resposta a essa questão ficará para o futuro, quando algum fragmento permitirá esclarecer a questão.

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Casa de Bernardo Silva em Santo Antonio do Rio Madeira.
Observe os trilhos instalados na tentativa de construção da
ferrovia Madeira-Mamoré ocorrida em 1878.

Fonte: Silva, 1891, p. 174.

A exposição da figura 1 permite a conclusão que em 1879 havia em Santo Antonio aproximadamente 30 edificações dos mais diversos tipos. Como vimos pela figura 9 podemos deduzir que algumas foram construídas pela P. & T. Collins.

Em 1883 publicou um membro da “Comissão de Estudos da Estrada de Ferro do Madeira e Mamoré”:

No momento em que chegamos existiam sete casas: uma grande quasi em ruinas, que servio de escriptorio e residencia dos americanos da empreza Collins, de madeira e coberta de palha, onde nós fizemos tambem escriptorio e enfermaria, dispendendo muita madeira e muitos operarios para pol-a em estado de prestar serviços; a outra, que servio de residencia do fiscald'aquella empreza, em tal estado se achava que desabou tres dias depois de nossa chegada; uma outra, antiga residencia da familia Collins, coberta de zinco, cujos esforços inauditos da parte de todos nós, fizeram-n'a servir para moradia do nosso engenheiro; uma outra imprestavel absolutamente, antigo deposito da empreza; de dia para dia vai cahindo, pois todas ellas são de madeira de pinho. Além d'essas armações, que outro nome não podem ter, existiam a casa de Alvares & Leão, negociantes, uma outra que também a elles pertence e um armazém por acabar e que nos foram alugados por 50$, cada uma. (FORTE, 1883, pp. 145-146).

Além dos imóveis recuperados, conforme já vimos, informa-nos Maia Forte que a P. & T. Collins construiu em Santo Antonio dois armazéns, sendo um para depósito geral e outro para servir de loja. Construiu ainda quatro casas sendo: uma para os engenheiros; uma para os irmãos Collins; uma para O. J. Nichols e outra para Von Hoonholtz (1883, p. 11), este último contratado para o recrutamento de trabalhadores para a ferrovia no Ceará. Thomas Collins, Charles F. King e Othniel F. Nichols partiram para Santo Antonio no “City of Richmond”. Eram casados

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Ilha que existia na hoje inexistente cachoeira de Santo Antonio do Rio Madeira.
Fonte: Forte, 1883, p. 146.

e os acompanharam nessa viagem as respectivas esposas, com exceção da esposa do sr. Nichols, que veio a ter com ele posteriormente (CRAIG, 1947, 170-171). Não sabemos se o sr. King teve o privilégio de ter disponibilizada também uma casa e também se, dentre essas quatro casas alguma foi disponibilizada para servir ao consulado dos E.U.A. em Santo Antonio. O que importa, de fato, é que a empresa agregou, às edificações já existente em Santo Antonio, novas edificações. Cremos mesmo que novas edificações de “material rústico” também foram erguidas nesse momento (1878-1879).

Sobre o centro desse povoado que se formava, temos a dizer que a cachoeira, que não existe mais, pois virou uma barragem de usina hidrelétrica, ficava defronte ao promontório, onde depois (1913) seria erguida uma igrejinha cujo orago é Santo Antônio. Essa área do promontório foi ocupada pelo crescimento da povoação após os anos de 1907. Na época de Craig (1878) o porto situava-se a 1200 metros abaixo da igrejinha e no seu entorno havia as edificações ilustradas pelo “Daily Graphic”. Esses trilhos deixados pela P. & T. Collins saiam desse porto, chamado porto dos Vapores, para seguir até a cachoeira. Foram usados posteriormente para transportar em vagonetes as mercadorias dos vapores para as canoas, que iriam subir o trecho encachoeirado, ou vice versa.

Lentamente, em razão, principalmente da chegada da linha de navegação a vapor em 1870 e o estabelecimento de galpões e casas comerciais na localidade, Santo Antonio inicia a se tornar uma povoação, que tomará seu impulso definitivo com a construção da EFMM entre 1907 e 1912. Contudo, se a construção da ferrovia foi o impulso que a fez crescer a transferência do ponto inicial da ferrovia em 1907 de Santo Antonio para Porto Velho foi a razão de seu desaparecimento. Mas essa discussão fica para depois.

Fontes consultadas

ADAMS, William Lawrence. Pennsylvania's Amazon Princess Railroad. Hardcover: Bloomington: AuthorHouse, 2013.

COIMBRA, Juan B. Siringa: memorias de un colonizador del Beni. La Paz: Juventud, 1989.

CRAIG, Neville B. Estrada de Ferro Madeira Mamoré: história trágica de uma expedição. São Paulo: Nacional, 1947.

CRAIG, Neville B. Recollections of an Ill-Fated Expedition to the Headwaters of the Madeira River in Brazil. Philadelphia; London: J. B. Lippincott, 1907.

FONSECA, Dante Ribeiro da. Estudos de História da Amazônia. Volume I. Porto Velho: Rondoniana, 2014.

FONSECA, João Severiano da. Viagem ao redor do Brasil (1875-1878). Vol. 2. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1986.

FONSECA, João Severiano da. Viagem ao Redor do Brasil (1875-1878). Volume 2. Rio de Janeiro: Typographia de Pinheiro & C., 1881.

FORTE, Ernesto Matoso Maia. Do Rio de Janeiro ao Amazonas e Alto Madeira: Itinerario e trabalhos. Comissão de Estudos da Estrada de Ferro do Madeira e Mamoré. Impressoes de viagem por um dos membros da mesma comissão. Rio de Janeiro: Typographia a vapor de Soares & Niemeyer, 1883.

MARAJO, José Coelho da Gama Abreu (Barão de). As regiões amazônicas: estudos corographicos dos Estados do Gram Pará e Amazonas. 2. ed, Belém: SECULT, 1992.

MATHEWS, Edward D. Up the Amazon and Madeira Rivers through Bolivia and Peru. London: Sampson Low, Marston, Searle & Rivington, 1879.

Pictorial Newspaper. American illustrated journalism 1851 to 1900. Daily Graphic Newspaper (1873-1889) Catalog. Disponível em: http://www.historicpages.com/texts/dgcat01.htm

SILVA, Bernardo da Costa e. Viagens no sertão do Amazonas: do Pará à costa do mar Pacífico pelo Amazonas, Bolívia e Peru. Porto: s/ed., 1891.

The Daily Graphic [Periódico], An illustrated evening newspaper. New York, 26 february 1879, no. 1849.

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