Porto Velho (RO) quinta-feira, 15 de novembro de 2018
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Gente de Opinião

Dante Fonseca

"La gesta libertaria de Moxos", Beni, Bolivia.


No dia 10 de novembro próximo, às nove horas (manhã) no “Palacio de la cultura y Galería de Notables del Beni”, se realizará o colóquio denominado "La gesta libertaria de Moxos". O programa será dividido em três partes:

I.1.- Antecedentes: Os jesuítas em Moxos, sua obra cultural e pacífica de 100 anos.

I.2.- A expulsão dos jesuítas dos domínios da coroa espanhola.

I.3.- A carta do ano de 1798 aos espanhóis-americanos de Juan Pablo Viscardo y Guzmán (jesuíta peruano), publicada por Francisco Miranda (venezuelano) em 1801.

II.1.- O levante dos líderes mojenhos Etanislao Tilila e José Bopi na missão de Loreto (1802)

II.2.- O governo indígena de Moxos e seu primeiro presidente Pedro Ignacio Muiba.

III.1.- O martírio de Muiba e seus seguidores.

III.2.- As consequências.

III. 3.- Declaração de “Heróis da Independência da Bolívia” a Pedro Ignacio Muiba de Trinidad; Juan Maraza, canichana de San Pedro e Gabriel Ojeari do Baure.

Palestrantes: Gaby Cuellar Camacho, Jesús Suárez Chimanacay e Juan Carlos Crespo Avaroma.

O tema desse encontro é da maior importância para aqueles que buscam melhor conhecer a dinâmica da colonização na área do nosso vizinho Departamento do Beni/Bolívia, antiga Província Jesuítica de Moxox. Essa área foi inicialmente colonizada pelos europeus sob os auspícios da ordem jesuítica principalmente a partir da Província Jesuítica do Paraguai. A ordem foi expulsa dos domínios espanhóis na segunda metade do século XVIII, ficando os nativos nela missionados entregues ao governo laico. Em 1842 foi nessa região criado o Departamento do Beni. Esse ato intensificou a descida de colonos do Altiplano Andino para constituir extensas haciendas na região, utilizando-se dessa mão de obra indígena, já habituada às formas de trabalho do colonizador pelo secular esforço jesuítico. Mesmo antes, o abandono dos jesuítas deixou aquela população nativa entregue à cobiça dos curas e colonos leigos, causando conflitos sociais de enormes proporções.

No início do século XIX, os trinitários e demais povos de fala mojenha, liderados pelo indígena Pedro Ignacio Muíba, participaram de um movimento contra os colonizadores de origem espanhola.

O texto abaixo (em itálico) comemora esse feito. Foi escrito por Juan Carlos Crespo Avaroma, dedicado pesquisador da história mojenha, administrador do “Palacio de la Cultura y Galería de Notables del Beni” e presidente da “Sociedad de Escritores de Guayaramerín” (Guayaramerín, Beni, Bolívia), que gentilmente participa desse pequeno artigo.

 

“Para que o tempo não fira a nossa memória”

As nações indígenas de Moxos viveram cem anos de ouro pois, foram orientados e sujeitos à formação humana e produtiva pelos missionários jesuítas. Depois da expulsão dos jesuítas de todos os domínios da coroa espanhola vieram os governadores espanhóis que os espoliaram até o extremo, de tal modo que os líderes mojenhos decidiram dar-se ao governo próprio. Pedro Ignacio Muiba iniciou a insurreição libertária em 1802 até conseguir o primeiro governo indígena de nossa América Morena e de Moxos em 10 de novembro de 1810 até janeiro de 12 de janeiro de 1811, dia em que foi impiedosamente assassinado.

Discursou Pedro Ignacio Muiba na praça pública da Segunda Missão Jesuítica de Trinidad, diante das autoridades políticas e religiosas, acompanhado do demais insurgentes trinitários e loretanos por volta das 10 horas da manhã do dia 10 de novembro de 1810. Com a voz potente de quem tem a autoridade proclamou sem rodeios:

¡Ma taeyara’o to España tepenoripo!

]“Viti vitjiwyorepo Tajích o to wonorekopi. To ´pog´e Vye´e nawoniipi no ´chosionini Vyochkono. Eno nackichojruu´i no espanoriono.”

Muechjimiwo ma tata ´nasio Muiwa.

(Palavras do cacique Pedro Ignacio Muiba, texto em língua Mojenha/Trinitária do prof. Jeronimo Tamo corrigido pelo “Instituto de Lengua Mojeño trinitário José Santos Noco Guaji”, Trinidad, Beni, Bolívia).

 

Tradução:

“O rei de Espanha morreu. Nós seremos livres por nosso próprio mandato. As terras são nossas por delegação de nossos antepassados, a quem os espanhóis espoliaram.”

Desde esse momento o governador e os curas que o protegiam se refugiaram no templo durante três dias, até que chegaram as forças realistas dirigidas por Juan Maraza, cacique de São Pedro, capital de Moxos.

 Imagem copiada do livro de Antonio Carvalho Urey, 2005, intitulado Pedro Ignacio Muiba “O herói”, quarta edição, impresso na industrias gráficas Sirenas, Santa Cruz, Bolivia, 2010.

 

Os colonizadores com o auxílio dos canichanas (guaranis), liderados pelo cacique Juan Maraza, reprimiram violentamente a revolta. Ao final da repressão, Juan Maraza recebeu, das autoridades coloniais, uma série de privilégios.

Anos depois, em 1822, o governador Francisco Javier de Velasco, revogou todos os privilégios dados ao cacique. Maraza, insatisfeito, dirigiu-se a Trinidad com a intenção de reclamar o retorno dos privilégios. Ao entrevistar-se com Velasco, no palácio do governo, Maraza foi assassinado. Os canichanas do pueblo de San Pedro, profundamente ofendidos com o ato do governador, tomaram Trinidad e o mataram, assim como aos seus assistentes, e incendiaram o palácio do governo. Não foi essa a última rebelião indígena no Beni, que continuou enquanto perdurou a exploração e o sacrifício dos indígenas. É que rebeliões são como plantas, que somente fertilizam quando semeadas no terreno fértil da opressão, quando então transformam-se nessas frondosas árvores chamadas de revoluções que com suas extensas copas lançam sua sombra de sofrimento e destruição sobre uns e outros, opressores e oprimidos.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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