Porto Velho (RO) quarta-feira, 5 de agosto de 2020
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Dante Fonseca

A origem de Guayaramerín, Bolívia


A origem de Guayaramerín, Bolívia - Gente de Opinião


A cidade de Guayaramerin surgiu durante o Primeiro Ciclo da Borracha em razão da intensificação do comércio da goma elástica que até aproximadamente os anos de 1880 era transportada com muita dificuldade da Bolívia para o alto Madeira. A partir da exploração de Edwin R. Heath em 1880 o rio Beni passou a compor a rota de navegação dos rios daquela região, integrando essas partes longínquas cujo percurso, antes da navegação regular desse rio, era extremamente demorado e dificultoso. O surgimento de Guayaramerín está vinculado a esse momento histórico.

Recentemente um importante testemunho sobre a origem dessa cidade foi descoberto e transcrito por Juan Carlos Crespo Avaroma, interessado pesquisador da história mojenha, administrador do “Palacio de la Cultura y Galería de Notables del Beni” e presidente da “Sociedad de Escritores de Guayaramerín” (Guayaramerín – Beni – Bolivia). O amigo Juan Carlos teve a generosidade de compartilhar comigo sua descoberta, a qual tive o interesse de traduzir a transcrição e, com a autorização do mesmo, publicá-la para servir aos demais pesquisadores e interessados. Desde já manifesto ao escritor meus agradecimentos.

Mas, continuemos com a gênese de Guayaramerín. Após o início da exploração de borracha no baixo Mamoré, outra área gumífera instalou-se entre Reyes e Cavinas. O temor dos ataques promovidos por grupos indígenas desestimulava o aumento da produção, que então seguia um caminho tortuoso e demorado, porém mais seguro. De Cavinas seguia para Porto Salina e dali para Reyes, jornada que demorava coisa de dois meses. De Reyes seguia por terra, em um percurso de quase sessenta milhas, até o rio Yacuma e daí mais quinhentas milhas via Santa Ana e Exaltación atingindo então o rio Mamoré. Essa dificuldade desestimulava muito a produção de borracha naquela região.

As descobertas do médico Edwin Heath, que explorou o Beni em 1880, declarando sua navegabilidade, serviram de rápido estímulo para a expansão da exploração gumífera naquela área. Como resultado dessa descoberta foi constatada a possibilidade de navegação franca por vapores desde Cachuela Esperanza até Huachi e por canoas até Irupana, situada no Departamento de La Paz. A expansão do extrativismo foi de tal monta que segundo o Edwin Heath, aquele rio ocupava menos de 200 trabalhadores na extração da goma elástica no final de 1880. Poucos meses depois esse número cresceu para um total de um a dois mil extratores. Fato atribuído à descoberta de que as duas principais áreas de exploração de borracha estavam ligadas pelo rio Beni e que o baixo Beni não era ocupado por grupos nativos hostis, que serviu de estímulo à intensificação da exploração daquele rio.


Cachoeira Esperança no rio Beni - Bolivia/Brazil.

Observem à esquerda os trilhos da pequena ferrovia que contornava a cachoeira.

Fotógrafada possivelmente entre 1908 e 1911.

Fotógrafo: possivelmente Dr. Bauler (Suíça).


Já em 1881 a empresa Suarez Hermanos, que viria a ser o maior empreendimento da economia gumífera na Amazônia, fundou sua sede em cachuela Esperanza no rio Beni, a alguns quilômetros de sua foz no rio Mamoré. A localidade situa-se próxima ao encontro dos rios Beni e Mamoré, que formam o rio Madeira. Ali, uma pequena ferrovia foi construída para contornar a cachoeira e facilitar o comércio de importação e exportação daquela empresa com o resto do mundo.

Diversos empresários iniciaram suas atividades coletoras de borracha nessa região a partir da iniciativa de Suarez: Antenor Vásquez estendeu suas atividades ao longo do baixo Madre de Dios; a empresa francesa Braillard (mais tarde Seiler) estabeleceu-se em Reyes; Vaca Diez estabeleceu seringais ao longo do Beni abaixo de Riberalta e à montante do rio Orton. Todos esses pioneiros migravam principalmente de Santa Cruz de La Sierra. Como desde vinte anos antes, em 1885, essa produção de goma elástica boliviana seguia pelo rio Madeira abaixo.

A partir de então uma série de povoações surgiram em razão da exploração da goma elástica nos atuais departamentos bolivianos de Pando (antigo Território de Colônias) e Beni (antiga província jesuítica de Moxos). Em 1892 o empresário Manuel Jesús Añez Paredes, partindo de Villa Bella chega a Guayaramerin com o objetivo de ali instalar uma base para o comércio da borracha. Em 1898 esse empresário abriu um caminho de 62 quilômetros e dois metros de largura, conforme ele mesmo declarou, destinado ao tráfego de cavalgaduras entre Villa Bella e Guayaramerin, para o qual obteve a concessão para cobrar pedágio. Cachuela Esperanza fica há quarenta quilômetros de Guayaramerin e hoje é povoação daquele município.

Note-se que hoje Guayaramerin é cidade fronteiriça a Guajará-Mirim (BR), surgida no ponto final da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré décadas depois. O lugar onde hoje está situada Riberalta, capital do Departamento de Pando, na confluência dos rios Madre de Dios e Beni, foi batizado durante da viagem de exploração de Heath com o nome de Barranca Colorada. Posteriormente a empresa francesa Braillard instala um barracão naquele local onde já havia a atividade extrativa da borracha, que denominou La Cruz. Em 1894 a cidade foi fundada oficialmente. A superação dos obstáculos e o estabelecimento do comércio regular com o alto dos rios apresentava-se, além de melhor recurso para o escoamento da borracha, como mais um elemento que viria a facilitar a atração de braços para explorar aquelas regiões de difícil acesso.

Por volta de 1896 não existia o povoado brasileiro de Guajará-Mirim, no rio Mamoré, cercanias da cachoeira de mesmo nome, embora já houvessem seringais pertencentes aos brasileiros naquele local. Contudo, na margem oposta existia a povoação boliviana de Guayaramerím habitada pelos seringalistas bolivianos Manuel e Memesio Jordán e Leonor de Castro. Conforme transcrito por Juan Carlos Crespo Avaroma:


Fundação Guayaramerín

 "No dia 19 agosto de 1892, cheguei a este lugar, procedente de Villa Bella, onde vivia e possuía uma casa comercial, em um barco tripulado por 15 peões mais o capataz Antonio Fresco, trazendo como único propósito estabelecer os trabalhos de colonização desse local. Efetivamente em um período de 30 dias de trabalho incessante foi aberta uma clareira de cerca de 10 hectares em uma colina alta e construída uma casa para moradia na parte de cima da cachoeira. Depois dos 30 dias previstos voltei a Villa Bella, deixando a clareira limpa e plantada com milho e bananas. Ficaram no local dois homens para cuidarem da roça e da casa. – Dentro de um mês enviei como empregado da nova posse José Castro, que auxiliado por alguns peões plantou no local mais milho, mandioca, banana e feijão. Mais tarde, foi admitido como inquilino para os trabalhos agrícolas Dom Antonio V. Salvatierra, que não podendo comparecer pessoalmente para executar suas tarefas, associou-se a um tal Oronó que o despojou, estabelecendo então Oronó sociedade com o dr. Nemésio Jordán, que por sua vez mais tarde despojou a este de seus direitos. – Foi assim que o Dr. Jordán obteve participação nas terras de Guayaramerín.

Em 1895 a Casa J. Añez e Irmãos, celebrou contrato social com Dona Leonor Castro para administrar os negócios desta senhora naquele lugar. Estabeleceu então essa firma uma casa de comissões e consignações e, ainda, encarregou-se cuidar das roças já estabelecidas. Este contrato social durou 4 anos e a empresa foi liquidada em 1899. Foi assim que Dona Leonor Castro passou a possuir também terras neste porto.

A Casa Añez somente obteve 50 hectares de terra naquela localidade mediante petição de compra feita à Delegação Nacional, a qual era então chefiada pelo dr. Dámaso Sanchez. Mais tarde, transferiu esse direito pendente à Casa Vaca Diez de Orton [...] Assino o presente com minha própria caligrafia, em Guayaramerín, em 23 de junho de mil novecentos e quatro. (Assinado M. Jesus Añez)”. Transcrito do jornal "La Voz del Beni”, no. 242, página 6, Riberalta, 06 de agosto de 1963.


Podemos então deduzir do texto transcrito por Juan Carlos que a ocupação principal desses pioneiros habitantes de Guayaramerín era o apoio ao transporte entre o Mamoré e rios adjacentes e o Madeira, inclusive abastecendo com o produto de suas plantações de bananas, macaxeiras e outros gêneros de alimentação as embarcações em trânsito. No caso de Manuel Jesús Añez sua firma, ao operar com comissões e consignações, também apoiava o comércio naquela parte do rio.

Por volta de 1896 não existia o povoado brasileiro de Guajará-Mirim, no rio Mamoré, cercanias da cachoeira de mesmo nome, embora já houvessem seringais pertencentes aos brasileiros naquele local. Na margem oposta já existia então a povoação boliviana de Guayaramerím habitada pelos seringalistas bolivianos Manuel e Memesio Jordán e Leonor de Castro. Na povoação propriamente dita, a população estimada, em 1903, era de 20 habitantes ocupados nas atividades de transporte de mercadorias entre Trinidad, Villa Bella e Riberalta. A influência de Suárez Hermanos ainda se mantinha firme na região e, no Madeira, continuavam a manter depósitos e empregados na vila de Santo Antônio.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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