Porto Velho (RO) domingo, 8 de dezembro de 2019
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Gente de Opinião

Abnael Machado

50 Anos da Caravana Ford - II


50 Anos da Caravana Ford - II - Gente de Opinião
Caravaneiros próximo à Cuiabá rumo à Vilhena

 

Objetivo da Caravana Ford era criar uma situação que obrigasse o Departamento Nacional de Estradas e Rodagens / DNER e empreiteiras se empenharem em estabelecerem a ligação Cuiabá - Porto Velho de forma poder ser considerada a BR 29 construída no prazo estabelecido, 10 de dezembro, ainda na administração do Presidente Juscelino Kubitschek. A preocupação era de que se assim não se realizasse, a sua construção provavelmente seria paralisada, em vista o candidato com maior chance de ser eleito Presidente da República era o Dr. Jânio Quadros contundente crítico ao programa rodoviário de Juscelino, taxando a Belém – Brasília de estrada das onças.

Nos conta o Coronel Paulo Nunes Leal que sendo governador de Rondônia, recepcionava no aeroporto todos candidatos a presidência da república, que visitavam o Território, recebeu Jânio Quadros, ao qual em audiência anterior, no Rio de Janeiro havia lhe exposto a importância da construção da BR 29 para o país e em especial para Mato Grosso, seu estado natal e que combatê-la não lhe daria dividendos políticos nas regiões diretamente beneficiados. Atitude polida, mas reservada, de Jânio, não permitiu concluir qual seu verdadeiro pensamento sobre a questão. Ele me perguntou “como vai seu irmão o eminente Ministro Dr. Vitor Nunes e como anda sua estrada para o meu querido Estado de Mato Grosso?” Porém em seu pronunciamento no comício realizado naquela noite, a BR 29 foi solenemente ignorado.

E que com o passar dos dias sua preocupação crescia ante a redução do ritmo de trabalho na BR 29 comprometendo a sua total abertura no prazo estabelecido. A situação era a seguinte: dos 971 Km entre as nascentes do rio Juruena e Porto Velho haviam 824 Km de trechos construídos e caminho de serviços, faltando 147 Km para que a estrada pudesse ser considerada concluída. No mês de outubro existiam 100 Km entre Vila de Rondônia (atual cidade de Ji-Paraná) e Pimenta Bueno sem possibilidade de tráfego; possível trânsito entre Cuiabá – Pimenta Bueno no estio; com dificuldades no trecho Vilhena – Pimenta Bueno e praticamente intransitável no período das chuvas, no trecho Porto Velho – Vila de Rondônia. Tinha que buscar uma solução para o impasse criado pelo DNER e as empreiteiras. A mais viável ao seu ver, era constituir uma caravana de carros que saísse da cidade de São Paulo alcançasse a de Porto Velho, seguindo pela BR 29 a partir de Cuiabá, em viagem pioneira. Transmitiu sua idéia ao Milton Lima, Secretário Geral (cargo equivalente ao de Vice-Governador) e ao Capitão Adonizete Martins Dantas, ajudante de ordens do Governador, com os quais discutiu os prós e os contras da decisão ser tomada, medindo os riscos e as conseqüências de um fracasso, concluindo não haver outra opção, portanto seguir em frente com o plano. Era preciso encontrar um parceiro que se dispusesse a correr com o governo do Território um risco calculado e a Fábrica Ford, de São Paulo, por seu histórico pioneirismo nessa rota para oeste, pois seus veículos acompanharam em longo percurso o Coronel Rondon e o Tenente Emanuel Amarante, na construção da Linha Telegráfica Estratégica Mato Grosso / Amazonas (1907/1915) e mais recente (1959) o “Caminhão Bandeirante” F-600, realizou a viagem de São Paulo a Porto Velho pela rota rodo – fluvial - ferroviário, São Paulo - Cuiabá - Cáceres - Vila Bela (terrestre), Vila Bela - Guajará-Mirim (fluvial rios Guaporé e Mamoré) e Guajará-Mirim – Porto Velho (ferroviário), com ampla divulgação nacional e internacional, ainda também por contar com seu bom relacionamento com alguns de seus diretores, pareceu ser a Ford a mais indicada para a tal parceria.


 

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Estacionamento para pernoitar dormindo nas viaturas,
no trecho entre Juruena e Barracão Queimado


Antes de contatar a Ford o plano foi submetido ao Deputado Federal Aluízio Ferreira que o aprovou lhe dando integral apoio.

Dirigiu-se a Ford, apresentando ao Dr. Oswaldo Silva, Chefe de Relações Públicas da empresa, seu conhecido, o plano da viagem e a proposta para sua execução consistindo do seguinte: a Ford competia: organizar uma caravana exclusivamente com viaturas de sua fabricação, a qual seria denominada “Caravana Ford”, para empreender a viagem pioneira de São Paulo a Porto Velho via BR 29;

• Custear as despesas com publicidade, jornalistas, cinegrafistas, fotógrafos e demais gastos extras;

• Designar um mecânico para prestar assistência técnica no decorrer da viagem;

• Doar um caminhão ao Território, o qual se entregaria a Caravana, a fim do governo justificar ter dado exclusividade aos caminhões da Ford nessa viagem.

Competia ao Governo do Território:

• Designar o pessoal para a condução de todos os veículos;

• Fornecer alimentação a todos componentes da caravana durante a viagem;

• Comprar da Ford um mínimo de três caminhões para a caravana.

O Dr. Oswaldo Silva achou a idéia viável. Posteriormente informando que a diretoria recebera a proposta com interesse e que havia possibilidade de êxito.

Foi agendada uma reunião das duas partes, em São Paulo no dia 2 de outubro, toda a diretoria da Ford e o deputado federal Aluízio Pinheiro Ferreira, o governador do Território Federal do Acre, senhor Jorge Felix Lavocat, o representante do Território Federal de Rondônia no Rio de Janeiro, professor Fernando Claro de Campos, o Tenente José Bernardes Júnior e o governador do Território Federal de Rondônia, Coronel Paulo Nunes Leal. Em pouco mais de uma hora o plano foi aceito na íntegra, firmando o convênio entre a Ford do Brasil e o governo do Território de Rondônia, instituindo oficialmente a “Caravana Ford”.


 

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Eduardo Lima e Silva, sub-chefe da Caravana Ford e a partir do Seringal Muqui, seu Chefe.

No dia seguinte (21) todos os jornais da cidade de São Paulo publicavam com destaque a assinatura do convênio, da mesma forma as estações de rádio o noticiaram.

Dia 24 em Porto Velho Dr. Wilson Coutinho da Comissão Especial de Construção da BR 29 representando os engenheiros e as empreiteiras, foi a residência do governador para solicitar a sua esposa que se comunicasse com este, imediatamente em São Paulo, para sustar a viagem da Caravana, pois a mesma não teria a menor chance de chegar a Porto Velho, visto não haver tempo de concluir os trabalhos indispensáveis à passagem dos carros entre Pimenta Bueno e Vila de Rondônia. Ela lhe informou não ter condições de lhe atender por não saber aonde se encontrava o governador, e mesmo se soubesse e lhe transmitisse a sua mensagem, ele não desistiria de realizar o empreendimento.

Nesta data o pessoal do Território que integrariam a caravana, já estava a caminho de São Paulo.


Dia 25 realizou-se uma reunião na Ford com a presença dos membros da alta administração da empresa, a do chefe de gabinete do governador de Rondônia, Antônio Brasileiro o qual chefiaria a caravana, o comandante da Polícia Rodoviária de São Paulo, Major Carlos Ambrogi, o médico do Instituto do Butantã, Carlos Fleury integrante da caravana e representantes da imprensa paulista.

Ficando estabelecido: a saída da caravana no dia 28 de outubro, às 9:00 h da manhã, composta por oito viaturas – 7 caminhões Ford F600 e 1 Jeep Willys, devido alguns imprevisto só ocorreu às 15:30h.

O roteiro a seguir – São Paulo, Jundiaí, Campinas, Americana, Rio Claro, São Carlos, Araraquara, Jabuticabal, Bebedouro e Barretos (no Estado de São Paulo), Triângulo Mineiro, Sul de Goiás, Cuiabá, Rosário do Oeste, Rio Verde e Barracão Queimado (estas cidades do Estado de Mato Grosso), Vilhena, Pimenta Bueno, Muquí, Rondônia, Nova Vida, Ariquemes e Porto Velho (povoados, Vilas e cidades do T.F. de Rondônia).
 

Constituíam a caravana os seguintes caravaneiros:

1. Antônio Brasileiro, Chefe do Gabinete do Governador do T.F. de Rondônia, Chefe da Caravana;
2. Silvio Fornasaro, representante da Ford do Brasil;
3. Dr. Carlos Toledo Fluery, médico do Instituto do Butantã;
4. Cel. Moacir Alvarenga, cientista (naturalista);
5. Sérgio Zalawska, mecânico da Ford;
6. Dr. Hugo Penteado, jornalista do jornal “Folha de São Paulo”;
7. Álvaro da Costa, repórter do jornal “A Gazeta de São Paulo”;
8. Wlado Herzog, repórter do jornal “Estado de São Paulo”;
9. Nestor Marques, cinegrafista.
Pessoal de Rondônia
10. Eduardo Lima e Silva – Sub Chefe da Caravana;
11. Auzier Santos – Mecânico – Substituído por Damasceno, em Pimenta Bueno;
12. José Araújo (Bacu) – Motorista;
13. Antônio Geraldo Aguiar – Motorista;
14. Milton Luiz dos Santos – Motorista;
15. Antônio Costa Pereira – Motorista;
16. Cordiel Firmino de Souza – Motorista;
17. Gervásio Alves Feitosa – Motorista;
18. Luiz Sena – Motorista;
19. Benedito Cardosa da Silva – Motorista (auxiliar);
20. Raimundo Marinho Feitosa – Motorista a partir de Pimenta Bueno;
21. Netinho (do acordeom) – Motorista a partir de Pimenta Bueno;
22. Luiz Gonzaga – Motorista a partir de Pimenta Bueno;
23. Bem-bem – Motorista a partir de Pimenta Bueno;
24. Genésio – Motorista a partir de Pimenta Bueno;
25. Severino – Motorista a partir de Pimenta Bueno;

 

Particulares Agregados à Caravana

1. Roberto Cazenave – Motorista conduzindo um caminhão comprando em São Paulo pelo então seringalista Emanuel Ponte Pinto proprietário do seringal Nova Vida:
2. Querubim Akaal e
3. Ireno Ribeiro – Motorista conduzindo um caminhão comprado em São Paulo pelo comerciante Tufic Matni proprietário da “Casa Damor”;
4. José Maria Seleh – estudante;
5. E Eduardo Lima Silva – estudante (ambos apenas com 15 anos de idade).

Os caminhões além de materiais diversos para o Território transportavam três tratores agrícolas de pneus, uma camioneta e uma automóvel marca opala 0k, este da propriedade do comerciante José Saleh Moreb.

Daqui em diante passamos a palavra ao GERVÁSIO um dos motoristas da Caravana Ford, que nos relatará a audaciosa aventura que foi essa viagem pioneira, de São Paulo à Porto Velho, percorrendo trechos das regiões Sul, Leste, Centro-Oeste e Norte, via rodovia BR 29,  ainda em construção a partir de Brasília.

Antes, porém abrimos um parêntese para conhecermos este novo bandeirante.


AB - Gervásio você é natural de onde?

G
- Eu sou Amazonense nasci no seringal “Três Casas”, povoado na margem do médio Rio Madeira, município de Humaitá, em 30 de Novembro de 1941.


AB - Seus pais?

G
- Meu pai era Francisco Alves Feitosa e minha mãe Maria Edith Feitosa.

AB - Porque seu pai resolveu se mudar de “Três Casas”?

G
- Porque precisava encontrar uma localidade que oferecesse maiores oportunidades de trabalho, educação escolar, assistência social e à saúde. Em busca de nos proporcionar melhores condições de vida, em 1946 mudou-se para a cidade de Humaitá e em 1948 para a cidade de Porto Velho.

AB - Foi compensadora a decisão do seu pai?

G
- Sem dúvida nenhuma, a nossa vida mudou, evoluiu para melhor. Em Porto Velho fomos morar no subúrbio, no bairro do Quilômetro Um. Para meu pai não faltava trabalho, eu fui matriculado na escola local a “Nossa Senhora das Graças” e no ano seguinte no Colégio Dom Bosco também, aos nove anos de idade fui admitido como aprendiz de mecânica, em uma oficina existente no bairro.


 

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Gervásio, sua mãe e uma das filhas



AB - Como você conseguiu ser um dos mais destacados atleta de futebol de Rondônia e da Região Norte?

G
- Presumo por ter uma aptidão nata para o esporte, aliada à uma força de vontade a um compromisso de fazer sempre melhor, de vencer com lealdade e brilhantismo as competições esportivas.

AB - E como foi sua trajetória no futebol?

G
- Em 1957 fui convidado pelo senhor Antônio Mota um dos diretores do Madureira Esporte Club, time do bairro Nossa Senhora das Graças (ex-Km1), pessoa de elevado conceito por sua liderança e mais pelo cargo público de Inspetor de ensino na Escola Carmela Dutra, para ingressar nesse time como jogador titular. Mesmo sendo menor de idade, atuei na equipe nos campeonatos de 1957, 1958 e 1959.

Em 1959 fui convocado para integrar a Seleção de Futebol de Rondônia, na disputa do Campeonato Brasileiro, na chave da Região Norte constituída pelas seleções do Pará, Amazonas, Acre, Roraima, Rondônia e Amapá.

Em 1960 ingressei no Flamengo sagrando-se campeão invicto de Porto Velho em 1960, 1961, 1962, 1965, 1966, 1967 e da mesma forma campeão de Rondônia em 1962, 1963 e 1964.

Em 1968 me transferi para Moto Club, sendo campeão em 1968 e 1969. No dia 21 de agosto de 1969, no estádio do Maracanã, ante 140.000 espectadores, o Moto fez a partida preliminar do jogo das seleções do Brasil e Colômbia válido pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 1970, contra a Seleção da Petrobras, empatando de 3x3. Só não fizemos a proeza de ganhar, porque eu cometi uma falta, cobrada como penalidade máxima.

Em 1971 retornei ao Flamengo permanecendo atuando até 1976. Fui seu treinador em 1978 e 1979. Participei na construção de sua sede social, iniciada em 1961 e concluída em 1967, sob a presidência do Eduardo Lima Silva (Dudu).

Atuei nas equipes: senior do Flamengo 1980, São Domingos 1990 e moto 2000. Fiz testes no América de São José do Rio Preto/SP, em 1965 e no Botafogo do Rio de Janeiro, em 1974.

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Maria Izabel Lima e Silva (Belinha).



Eu sinto-me gratificado pelas homenagens que tenho sido alvo em reconhecimento a minha atuação desportiva contribuindo para o desenvolvimento dos esportes e divulgação nacional de Rondônia. Cito o samba enredo da Escola de Samba Unidos de Mato Grosso, em 1991 – “Gervásio Sangue, Raça e Coração” e ter sido distinguido com o convite para conduzir a Tocha do Pan em Rondônia, 2007.

AB - E os amores e a constituição da família?

G
- Em 1960 conheci a jovem estudante Maria Izabel Lima e Silva, tratada caridosamente por seus familiares e colegas pelo apelido de “Belinha”. Nos casamos em 28 de Dezembro de 1963, tivemos três filhos Jeovane, Márcia e Francis Eduarda. Uma grave doença vitimou nossa amada Belinha, levando-a a óbito em 06 de dezembro de 2001, nos privando do seu convívio liderança e carinho.

AB - E as viagens?

G
- É uma coisa que gosto de fazer, na condição de atleta integrado as equipes de futebol estive em Manaus/AM, Ri Branco/AC, Riberalta/BO, Guajará Mirim/RO, São Paulo/ SP e Rio de Janeiro/RJ. Pendurado as chuteiras e sendo aposentado do serviço público, ocioso, tenho aproveitado para conhecer nosso país, Fortaleza/CE; Recife/PE; João Pessoa/PB; Aracaju/SE/ Belém/PA; Goiania/GO; Campo Grande/MT; Cuiabá/MT. E outros países Estados Unidos; Haiti; Jamaica; México; Venezuela.

AB - Emprego Público!

G
- Fui admitido do quadro de funcionários públicos do Território Federal de Rondônia em janeiro de 1960, no cargo de “Motorista”, lotado e com exercício no Serviço de Equipamentos e viaturas instalado em prédios aonde atualmente encontra-se a Praça Três Caixas D’Água, em Porto Velho.

AB - Nos conte como ocorreu a viagem pioneira de Caravana Ford, principalmente nos trechos mais difíceis entre Cuiabá e Porto Velho.

G-
Fiquei satisfeito em ter sido um dos designados pelo governador do Território para integrar a Caravana Ford. Segui com meus companheiros para São Paulo, nos apresentando ao senhor Antônio Brasileiro Chefe de Gabinete do Coronel Paulo Leal e Chefe da Caravana, e ao senhor Eduardo Lima e Silva (o Dudu) nosso chefe imediato e sub-chefe da caravana. Nos dirigimos á Ford sendo cortesmente recebido por seus diretores , os quais presentearam a cada um de nós com um kit com objetos de uso pessoal, camisetas e uma capa para proteção de chuva com o emblema da Ford. Em seguida sob a supervisão do Dudu fomos carregar os caminhões tínhamos apenas um dia para executar este trabalho a saída da Caravana de São Paulo, estava estabelecida para às 9:00h do dia 28 de Outubro, porém houve atraso devido algumas dificuldades em completar o carregamento das Viaturas só sendo possível às 15h 30 min, o inicio da viagem. Fomos escoltados pela Policia Rodoviária até a divisa entre São Paulo e Minhas Gerais.

Seguindo o roteiro preestabelecido, passamos por várias cidades paulistas, atravessamos o triângulo Mineiro, sul do estado de Goiás e alcançamos Cuiabá no dia 2 de novembro, às 16h 30 min, após seis dias de viagem. Estacionamos nesta cidade para revisão dos carros pelo pessoal da Ford. No dia 05 às 10h 30 min, prosseguíamos viagem percorrendo 289Km chegando a Tapera dos Parecis à 18h 15 min, onde pernoitamos no acompanhamento da Comissão de Estradas e Rodagens – 5 / CER-5, retomando a jornada, dia 06 chegamos ao Rio Verde, pernoitamos. Estávamos a 2.500 km de São Paulo. Seguimos em frente percorrendo 106 km de campos e terreno arenoso sem sinal de existência d’água, chegamos ao acampamento da CCBE; em Jurema, às 18 horas. Aí pernoitamos, saímos às 6 horas da manhã, sabendo que teríamos trechos difíceis a transpor entre Jurema e Barração Queimado e entre este e Vilhena. Dia 8 para o dia9 pernoitamos nas cabines dos carros. O deslocamento era vagaroso, em caminho de serviço com extensos atoleiros, porém conseguimos vencer em um dia os 168 km deste primeiro trecho. E os 135 km do segundo trecho com maiores obstáculos percorremos até o dia 16 para descansar, pois dormíamos nas cabines dos carros, não tínhamos como preparar as refeições devido as chuvas no interior da selva e mais ainda as nuvens de insetos sugando nosso sangue, sem dar trégua. A aparada em Vilhena foi para la de bem vinda. O jornalista Wlado Herzog repórter do jornal “Estado de São Paulo”, alugou um Teco-teco, para sobrevoar a rota Vilhena/Pimenta Bueno, retornou desanimado, dizendo que sua viagem com a expedição estava terminada, por não acreditar que em curto prazo as máquinas abrissem um caminho até Pimenta Bueno, portanto retornaria a São Paulo.

Como eu disse adiante, dia 16 as 12;00h, saíamos de Vilhena rumo à Pimenta Bueno distante 188 Km, dos quais 60 km a partir de Vilhena estavam encascalhados e 20 km compactos permitindo trafego à boa velocidade. Percorridos esses 80 km, pernoitamos no acompanhamento da empresa Camargo Correia de São Paulo construtora do trecho Vilhena/Pimenta Bueno Prosseguimos a viagem com muita dificuldades, atravessando imensos atoleiros sob imensas chuvas, só sendo possível andar 25 km por dia chegando em Pimenta Bueno somente no dia 20 às 16;00h. Estacionamos, paralisando a viagem aguardando a abertura de um caminho até Vila de Rondônia (atual Ji-Paraná). Nos alojamos no prédio do Departamento de Correios e Telégrafos/DCT e fazíamos as refeições no acampamento da empresa Camargo Correia. No dia 26 o chefe da Caravana Sr. Antônio Brasileiro, Via fluvial viajou à Vila de Rondônia e daí via aérea a Porto Velho. A previsão do tempo para a construção do caminho, era de 10 a 15 dias mas graças ao esforço da equipe comandada pelo engenheiro da empresa, que trabalhou 24 horas por dia, a ligação ficou pronta em apenas 3 dias. Dia 1º de dezembro retornou o chefe Antônio Brasileiro, neste mesmo dia descarregamos os caminhões para atravessarem um por um, em uma balsa o Rio Comemoração, os recarregando na margem oposta concluindo este trabalho à s 17:00 horas fomos neste dia visitados pelo Coronel Paulo Leal. Reiniciamos nossa viagem, rumo a Muqui distante 100 km, percorridos em 9 dias de pesados trabalhos e grandes sacrifícios. Trafegando em grandes atoleiros arrastando os carros com três tratores que transportavam e dois outros da empresa Via técnica, operados pelos tratoristas Filomeno e Otávio, os quais nos acompanhavam desde Pimenta Bueno a Muqui. Do dia 10 de dezembro o senhor Antônio Brasileiro, repassava o comando da Caravana ao Dudu e viajava para Vila de Rondônia, seguindo de avião a Porto Velho e ao Rio de Janeiro.


 

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Neste desenrolar da aventura, viajamos a 42 dias, percorrendo 3.200 km São Paulo/Muqui, exigindo coragem para suportar e superar as vicissitudes impostas pela obrigação a cumprir. Nossa pele se transformou em couro de sapo, de tão empolada pela sugação de sangue pelos borrachudos, piuns, mutucas, carapanãs, maruins, etc e Cia; ferradas de cabas e outros; mordidas de formigas e outros.

No dia 11 de dezembro saímos de Muqui às 7:00 horas da manhã, percorremos um pouco mais de 8 km, estacionamos aguardando o recebimento de gasolina que vinha sendo trazida por um trator conforme aviso em um bilhete jogado de um avião. Dia 12 às 12:00 horas chegou o trator trazendo a gasolina, abastecidos os carros, prosseguimos com dificuldade, avançamos só 10 km parando às 20:00 horas para se alimentar e dormir. Dia 13 ficamos parados esperando a construção de uma ponte sobre o igarapé Grande, às 17:00 horas á atravessamos, estacionando às 20:00 horas para jantar e dormir. Dia 14, às 5:00 horas da manhã, retomamos o deslocamento seguindo para a Vila de Rondônia a 10 km de distância. Neste dia, no início da noite chegamos a Vila de Rondônia. Dia 15 pela manhã o Dudu chefe da caravana, pela fonia da empresa Nacional, comunicou ao governador Paulo Leal que haviam alcançado a Vila de Rondônia, ele muito satisfeito solicitou que aguardássemos sua vinda, o que ocorreu no mesmo dia (15), ao retornar conduziu nosso chefe Dudu para em Porto Velho providenciar material e os operários necessários a executarem os reparos que fossem precisos nos veículos. Permanecemos em Vila de Rondônia, do dia 15 a 18 de dezembro. No dia 17 chegou o Dudu com o material e os operários, auxiliados pelos da empresa Nacional, trabalharam o resto desde dia, e toda a sua noite, concluindo os trabalhos a serem feitos, na madrugada do dia 18. Às 7;30 horas da manhã, saímos de Vila Rondônia. Ficamos parados das 14;00 às 17;00 horas. Para desvirar um dos caminhões transportando uma camioneta Chevrolet 0k, que tombou de lado na travessia de um igarapé sobre uma pinguela por ter se quebrado um dos caibros do seu estrado. Porém tanto caminhão como a sua carga e seu motorista Gonzaga, nada sofreram. Prosseguindo a viagem, estacionamos às 19;00h no acampamento da Nacional para jantarmos e dormirmos. No dia seguinte, tivemos uma parada forçada, a ponte sobre o igarapé Boa Vista de execução do contratista Antero (o boca larga), que deveria estar construída, só ficou pronta às 15;00h do dia 19. O primeiro carro que tentou transpô-la, às 16;00h um caminhão Mercedes do DNER, carregado de tábuas, a ponte não resistiu, ruiu e o carro ficou emborcado de rodas para o ar. O Dudu decidiu pernoitarmos ali. Nas cabines dos carros e no dia seguinte retirarmos o caminhão do igarapé, e nós mesmos sob sua supervisão construirmos a ponte. Só não deu uma sova no Antero porque este se acovardou. Dia 20 pela manhã com a ajuda de trator do Sergio Marques retiramos o carro de dentro do igarapé. Retiramos toda a sua carga e construímos nova ponte. Iniciou-se às 16;00h a travessia dos carros, uma chuva torrencial impediu de prosseguirmos o trabalho, mais uma noite dormimos dentro dos carros. Atravessado o último carro às 9;00h da manhã do dia 21. Neste trecho entramos em uma variante, visto a via principal está transformada em imensos atoleiros nos quais alguns de nossos carros estavam retidos, sendo puxados pelos tratoristas Mário Rosa e Braga. Conseguimos vencer apenas 7Km, pernoitando na variante dentro dos carros. Às 6;00h da manhã do dia 2 reiniciamos a jornada, conseguimos percorreu 20 Km, paramos às 23;00h para fazer uma refeição e dormir, como vinha acontecendo, dentro dos carros. Dia 23 prosseguimos viagem, foi o trecho de maiores obstáculos e sofrimento. Às 12;00h encontramos Dr. Sergio Marques que com seus trabalhadores vinham nos prestar apoio. Às 18;00h iniciamos a escalada da serra do Jaru, sendo puxados nossos carros por tratores, conseguimos transpô-la às 6;00h da manhã. Dia 24 às 7;00h da manhã atravessamos em balsa o rio Jaru. Seguimos rumo ao Seringal Setenta. Os tratores ficaram em Jaru porque segundo Dr. Sergio, daí para frente a estrada era boa, assim mesmo mandaria um trator para nos acompanhar. Pernoitamos em uma barraca de seringueiros abandonada. Já o rancho estava esgotado, só havia farinha, café, açúcar e um resto de feijão e arroz. Neste dia fizemos uma só refeição. Nós completávamos a alimentação com “leite de tigre”, mistura de álcool com leite condensado.


 

50 Anos da Caravana Ford - II - Gente de Opinião


Dia 25 – Natal, o trator que seria nosso acompanhante chegou às 7;30 da manhã, reiniciamos nossa rota rumo ao seringal Setenta às 10;00h encontramos o Cel Paulo Leal que vinha ao nosso encontro trazendo muitas coisas para nós comermos doces, pão, salsichas, bolo e outros, ficamos muito alegres, estávamos gratificados por tão generosa deferência. Às 13;00 h chegamos no seringal Setenta, seus proprietários Alder e Raimundinho Cantanhede nos ofereceram um lauto banquete. Nos despedimos seguindo para o Seringal Nova Vida de propriedade do senhor Emanuel Pontes Pinto, no qual estacionamos até o dia 27 fazendo reparos em alguns dos carros, estes tendo sido concluídos, seguimos para Ariquemes chegando a zero hora, os carros foram abastecidos. Dia 28 às 7 h da manhã deixamos Rio Branco, às 9;00 horas Rio Preto, às 11;00 São Pedro, travessia de balsa, lavagem de todos os carros e espera dos bodinhos(os três tratores agrícolas) que ficaram muito para traz. Saímos de São Pedro às 13;00 h almoçamos no Patronato de Menores, no km 35, seguimos para Candeias às 15;00 h, travessia de balsa, o primeiro carro a atravessar às 17;00h, foi do chefe da Caravana o Dudu, seguindo imediatamente, a pedido do Cel Paulo Leal, para o quilômetro 8, onde os táxis e carros aguardavam a Caravana. A margem do Candeias estava lotada de gente nos aplaudindo. Seguimos adiante, às 22;00 h chegamos a Porto Velho, nosso valoroso jipe na frente conduzindo o governador empunhando a bandeira nacional, pelas ruas que passávamos éramos aplaudidos pelo povo. A Caravana estacionou em frente ao Palácio do Governo sendo saudada pelo Prefeito da Capital, senhor José Saleh Moreb, pelo senhor Júlio Guerra os agradecendo, o Dudu e por último o governador exaltando o nosso feito e sua relevância para assegurar a continuidade da construção da rodovia de integração nacional e continental. Todos os pronunciamentos foram transmitidos pela Rádio Difusora do Guaporé.

 

50 Anos da Caravana Ford - II - Gente de Opinião


Transcorridos 50 (cinqüenta anos), continuam vivas as emoções daqueles momentos, a satisfação da missão cumprida com pleno êxito.

AB - Gervásio em sua avaliação pessoal e imparcial era realmente necessária a realização da Caravana Ford?

G
- Era preciso para forçar o DNER e as empreiteiras concluírem a abertura da rodovia no prazo estabelecido pelo Presidente, pois se isso não ocorresse, era muito duvidosa sua definitiva construção. A Caravana Ford comprovou para o país e para o exterior que embora com trechos críticos, a rodovia dava condições de tráfego de Brasília a Porto Velho e de Rio Branco/AC.

Em 13 de janeiro de 1961, o Presidente Juscelino Kubitschek, reuniu-se em Cuiabá/MT com o Governador e autoridades do Território de Rondônia, com os representantes da comissão Especial da BR 29 e das empresas empreiteiras, para participarem da cerimônia de entrega da rodovia BR – Brasília/Acre ao tráfego, dando-
a por concluída.

E finalmente em 13 de setembro de 1984 o Presidente da República, João Batista de Figueredo em ato solene público, no Trevo do Roque, entregava ao Governador Jorge Teixeira de Oliveira e ao povo do Estado de Rondônia, em Porto Velho, a rodovia Br 364 totalmente asfaltada, atendendo as reivindicações dos rondonienses e dos acreanos, assim como os interesses estratégricos, políticos e econômicos do país.

Fonte: ABNAEL MACHADO DE LIMA
Ex-Prof. de História da Amazônia – Universidade Federal do Pará
Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Rondônia

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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