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Vinício Carrilho

O papel do intelectual (orgânico) no século XXI - nossa missão é denunciar e agir


O papel do intelectual (orgânico) no século XXI - nossa missão é denunciar e agir - Gente de Opinião

Estamos aturdidos, alguns literalmente mortificados com os atuais bombardeios, as gravíssimas violações da ordem internacional e das soberanias, tanto quanto estamos chocados pelas mortes de centenas de meninas em uma escola. Como se diz, o Império não contra ataca; o Império apenas ataca ferozmente. Ninguém pode prever a escalada da guerra contra o Irã, muito menos assegurar quem não será o próximo alvo. A obscuridade reina, o apelo à morte está a espreita nas sombras de uma consciência que nunca existiu, porque o poder e a cobiça do capital jamais permitiram. Parece caos, um pesadelo desorganizado, mas não é. É um concerto dos piores, dos mais maléficos seguidores do dinheiro monetizado, pulverizado em ódio e dor. Enfim, para ajudar um pouco nessa compreensão, trago a citação mais célebre de um pensador do século passado, Walter Benjamin (ele próprio uma vítima do Nazismo), e sua proposição de método (contrapelo) e de ação política (verdadeiro estado de exceção):

 

Esse método é o da empatia. Sua origem é a inércia do coração, a acedia, que desespera de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em seu relampejar fugaz. Para os teóricos medievais, a acedia era o primeiro fundamento da tristeza [...] Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais. O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê tem têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror [...] Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo [...] A tradição dos oprimidos nos ensina que o “estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Neste momento, perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo. Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, considerado como uma norma histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX “ainda” sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável (Benjamin, 1987, p. 225-6 – grifo nosso).

 

O que Benjamin não diria do breve século XXI? Não diria que temos ares puros, consciências limpas, mãos sem sangue. E nós, o que dizemos desse assombrado período da História moderna? Alguém, inclusive, pode ter vontade de jogar uma bomba atômica. De qualquer modo, conseguimos visualizar que a Guerra-Fria sempre esteve quente, apenas foi e continua sendo lateralizada, expandida em revoluções coloridas, guerras sujas ou irregulares. O fato é que guerra nunca faltou – e talvez esta seja a última, pelo descalabro nuclear que poderia provocar.

...

BENJAMIN, W. Obras escolhidas - Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. (3ª ed.). São Paulo: Editora Brasiliense, 1987.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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