Terça-feira, 14 de abril de 2026 - 12h18

Capitalismo
digital é a fase atual do desenvolvimento do modo de produção capitalista. No
sentido brasileiro, a fim de que o modelo faça mais sentido, a fase atual tem
uma combinação entre os modos de produção antigos e o mais lancinante
neoliberalismo.
Na
esteira da formação social brasileira, as condições da contradição e da
resistência nos levam diretamente para a luta de classes racista – por onde se
reproduz a lógica do Pensamento Escravista, e que é, sumariamente, a combinação
entre racismo (social, institucional) e exploração análoga ao trabalho escravo.
No
miolo do processo de dominação (dominus: domínio de pessoas, com status
de coisas) temos um passado que se obriga a ser presente. Nesse miolo,
digamos assim, estão as mazelas do coronelismo, patrimonialismo,
patriarcalismo, cartorialismo, no sentido propriamente político e institucional,
mas de forma antirrepublicana – com os vieses óbvios da privatização ou da corrupção
do patrimônio público. Como figura de linguagem, inclusive orbitando o senso comum,
encontramos o Centrão.
Lá
pelos idos da Constituinte de 1985, foi apelidado de Centrão. Sabemos, por
outro lado, que são vários “centrões”, resumidos no famoso BBB: bancadas da
bala, do boi e da bíblia. Estão atuantes, detém parcelas significativas do PIB
(Produto Interno Bruto) e muito poder político, especialmente quando se alinham
– como frações de classe – ao espectro mais retrógrado e neofascista,
popularmente conhecido como “extrema direita”: e que, por sua vez, é racista,
capacitista, misógina, excludente.
Na
extrema direita, avançada como ponta de lança do processo de produção
atualizado e hegemonizado, temos as representações que correspondem aos meios
técnicos (igualmente institucionalizados) provindos da digitalização
globalizada. Historicamente, a globalização acompanhou o desenvolvimento da
Internet pelo mundo todo.
Sob
esse fluxo marcante entre globalização/digitalização, o capitalismo em sua fase
financeira, especulativa, improdutiva, não é novidade; no entanto, com aportes
que justapõem bancos e fintechs (essas sem sequer receber normatização
precisa), o centro de poder mudou.
Aliás,
essa financeirização tem uma outra ponta de lança; em revezamento no ataque é apelidada
de rentismo: nessa incisão, a colocação institucional é relevadora – do passado
e do presente – e o Banco do Brasil nos serve hoje como exemplo não isolado:
temos que é o banco mais antigo do país (fundado por Dom João VI, em 1808) e,
atualmente, tem a União como sua controladora. Portugal tem a mesma linha de
Estado rentista.
Listado
na Bolsa de Valores, os rendimentos, dividendos, proventos do Banco do Brasil –
além de BB seguridade e Caixa Seguridade – salvam o fechamento das contas
públicas: a União é a maior rentista e beneficiária. O Estado brasileiro,
portanto, é um extrator ávido da especulação financeira. Como dissemos, este é
o miolo.
Frisemos,
entretanto, que a cereja do bolo do capitalismo especulativo, do Estado
rentista brasileiro, atende pelo acrônimo de BNDESPar (BNDES
Participações S.A.), e que é uma empresa de sociedade por ações,
subsidiária do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). É
o braço financeiro do BNDS no mercado de capitais, rentabilizando-se com ações
e debêntures do capital privado. É um braço do Estado que, por definição
estatutária, destina-se à trading. É o rentismo público, por essência.
E
ainda temos os atacantes do processo de exploração neoliberal, como fatores de
hegemonização do “capital fluído” nesta nossa era. Chamaremos de BBB também,
entretanto, trata-se de um BBB modernizado, monetizado, totalmente
digitalizado. Esse centro atacante do capital, talvez se possa dizer, oscila ou
combina tanto a financeirização quanto a espoliação (quase escravista).
Não
é uma fase aguda, pós-moderna do escravismo, porque se trata de servilismo e
que, igualmente, é típico e crítico: é o assim chamado “servilismo voluntário”.
Estamos tratando de todos os usuários de redes sociais – mesmo quem não as
tenha, mas as acesse eventualmente (ou regularmente).
A
monetização é dirigida pelos algoritmos que direcionam ao usuário das redes
sociais uma percentagem específica de novos links e, junto com eles, muita
publicidade. Na prática, acessar qualquer link lastreado em redes sociais
implica em mover a lógica das Big Techs – também sem regulamentação.
Big
Datas e Data Centers ocupam a outra escala, na verdade, uma escala ajustada e
complementar, ativa, bem no centro da questão. Data Centers aninham toda série
de impacto social e ambiental nocivo que consigamos lembrar.
Big
Datas e Data Centers têm como sobressalente os altos níveis de poluição e
degradação ambiental, mas também são muito perceptíveis na deterioração da
qualidade de vida de centenas, milhares de pessoas e de famílias pelo país
afora. A geração de renda local, emprego, taxação, contribuição pública, ou
praticamente inexiste ou é pífia demais.
As
Bets, casas de aposta digitais, são responsáveis pela dependência e
endividamento de inúmeras famílias e indivíduos (com ruínas e até suicídios já
registrados). Todos esses também se encontram sem normatização mínima.
Esse
é, sumariando-se, o “novo BBB”: Big Techs, Big Datas/Data Centers, Bets. E que
se soma obrigatoriamente ao BBB das tradições: bancadas da bala, boi e bíblia.
Além dos bancos e das fintechs distribuindo as jogadas, para o mercado e para o
Estado.
Neste
nosso eterno passado-presente, é sempre urgente retomar o Pensamento
Escravista, em que o agrarismo também surge informatizado, com alto impacto de
automação para que o sistema de plantation receba o codinome de comodities,
com emprego massivo de IA (Inteligência Artificial) e drones. Ainda como
defensora-atacante, a ideia da robotização e automação social – sedimentadas no
senso comum – encontra as faces claras e nítidas do Uber popular.
É
preciso frisar que a IA não é um benefício tecnológico imediato à “humanização
do processo produtivo” – evitando-se a repetição de tarefas, o retrabalho –,
porque seu impacto maior está na substituição da condição humana.
Neste
momento, chegamos ao que chamaremos de “uberização social” porque ninguém, no
espaço público urbano, está isento disso: quer seja o/a motorista de
aplicativo, na corrida que substitui o antigo táxi regularizado, quer seja na
entrega residencial de pizza no final de semana.
Com
esse tipo de informalidade, a uberização só não é mais grave – enquanto perda
de qualquer segurança no Mundo da vida e no trabalho – porque, sua irmã gêmea
não descola; hoje, a “pejotização” (Pessoa Jurídica, sobretudo MEI) ameaça
severamente o sistema previdenciário. Não somos todos e todas uberizados, mas,
sem exceção, estamos em completo contato com a “uberização social”.
A
reforma trabalhista de 2017 trouxe-nos a primazia da uberização, como também a
“terceirização” em definitivo, e mesmo que a terceirização tenha se iniciado
nos governos de FHC. De modo cirúrgico, a CLT (Consolidação das Leis
Trabalhistas) de Getúlio Vargas – de quando o Brasil pronunciou sua Revolução
Burguesa e iniciou a industrialização, soltando-se do agrarismo prevalecente
até 1930 – foi desfigurada, desfraldada em garantias e direitos trabalhistas.
Some-se, a esse conjunto processual, a crescente informalidade do setor de
prestação de serviços – com forte impacto na referida “pejotização”.
E
isso nos traz de volta à digitalização do sistema financeiro: com o moto-contínuo
da IA (Inteligência Artificial), a previdência privada, que se estoca em fundos
de aplicação privados (nem todos lícitos), completa o círculo repetitivo do
capital financeiro e especulativo.
O
resultado é um processo contínuo e crescente de desindustrialização. Esse é o
time que compõe, basicamente, o Capitalismo digital, em poucas linhas, na forma
como se apresenta e se desenrola no Brasil atual – é a forma hegemonizada desse
quartel de século XXI.
Do
outro lado, no gol vasado, está o povo pobre, negro e oprimido pagando todas as
contas das novidades e dos atrasos. Vemos, ainda, que no Brasil o Capitalismo
digital é um problema de governança – porque não é enfrentado (nunca foi) – e
de governabilidade, visto que se aglutinam as principais forças produtivas com
forte impacto nos três poderes legitimados.
Efetivamente,
o Brasil parece condenado a inscrever seu passado no futuro – ao menos a curto
prazo – e, assim, inserir de modo permanente na Educação Pública as leituras de
Capitães de Areia, de Jorge Amado, de um Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e
Quarto de despejo, de Maria de Jesus. Além de uma Educação digital que nos
Esclareça acerca dos problemas gerados pelos algoritmos, em todas as gerações,
da criança que inicia a escola pública, à educação de adultos, e da Educação
ambiental que reponha na conta das empresas todo o custo do lixo eletrônico.
Num resumo bem simples, por muito
esquecida na interface com o século XXI, por Ética podemos entender as regras
mínimas de convivialidade, popularmente chamada de empatia, Interação Social:
sendo esta última, vista como “ajuda mútua” – e do que derivou, historicamente
para solidariedade, comunidade, uma condição essencial da condição sociológica.
Nesse ponto nevrálgico, o já
diagnosticado “olhar da geração Z” – distante, parado, fixo, sem expressão – é
revelador das muitas interfaces com telas, aliada ao medo do cancelamento
digital, e do pouco ou baixo estímulo à Interação Social: o espaço público cada
vez mais é roubado de sua essência, pela privatização do tempo no espaço
privado. Não é à toa que os crimes cada vez mais se dirigem contra a
privacidade da pessoa e dos seus dados.
Neste ponto podemos indagar qual seria
a ciência devotada à condição sociológica. Será que tudo que chamam de ciência
(aplicada ou não) e seus derivados, como tecnologia e inovação, são
propriamente sociológicos ou se apresentam resumidos ao utilitarismo, meros
instrumentais da mercancia?
A
reflexão embasada, com elementos sólidos, e o conhecimento ancorado no Pensamento
científico, sobre esse conjunto todo, somado e multiplicado, nos indicariam
caminhos da Educação para a emancipação e para além da exceção: a monetização
com a compra e venda de dados (Capitalismo de dados), a uberização, o
servilismo voluntário, não ocupam o banco de reservas, como meros suplentes ou
exceções no atual estágio do processo produtivo capitalista – são a base, o
miolo, fazem o meio de campo com o passado, sim, porém, correspondem à
hegemonia produtiva do capitalismo espoliador e também conhecido como
“capitalismo de barbárie”.
Como
última questão podemos refletir sobre um aspecto sensível dessa imbricação do
passado com o presente, do público com o privado, ao nos questionarmos acerca
de uma professora (num exemplo real) que também faz corridas de Uber. Neste
caso, o trabalho uberizado da professora se encaixa na linha de produção da
extração de mais-valia (como se tinha no chão de fábrica) ou é explorada sob
uma forma derivada de servilismo voluntário?
A
rigor, ou à primeira vista, parece surgir como um outro fenômeno híbrido (mais
um), pois, essa professora, ao mesmo tempo em que voluntaria para o trabalho
uberizado – sem nenhum vínculo trabalhista –, na linha de montagem do
servilismo voluntário, também é agente ativa (é a principal, aliás, pois sem o/a
Uber não há o passageiro) de todo o processo de exploração que a atinge em
primeiro lugar.
A
diferença para com o passado próximo está na desregulamentação, na total
informalidade das e dos trabalhadores/as uberizados, com a ressalva de que
participam com uma forma de trabalho predominantemente intelectualizado (como
trabalho vivo).
Algo
semelhante ocorre com a crescente terceirização do Poder Público, com o
ingresso massivo de estagiários e de temporários (esses quase se eternizam
nessa condição). Frisemos, enfim, que as empresas exploradoras do trabalho
uberizado se apropriam de mais de 50% (cinquenta por cento) dos valores
recebidos em cada serviço. E, finalizamos com a certeza de que não é fácil o curso
de uma Educação antirracista, anticapitalista.
Em
alguns tópicos, é possível visualizarmos como é lastimosa a tarefa de se
“educar o educador”, afinal, como executar todo esse planejamento se o capital
volátil aprisiona seguramente toda a subjetividade da era pós-moderna?
Basta-nos
listar uns poucos afazeres:
· Educação
Anticapitalista:
Educação para além das divisões sociais e da exceção (sendo que é regra
hegemonizada, inclusive na identificação popular com golpismos e Estado de
Exceção).
· Educação liberal: liberdade nos
costumes, sem censura prévia.
· Educação antineoliberal: contra a uberização
social, o reprodutivismo técnico e científico que sirva apenas ao mercado.
· Educação
anticapacitismo:
garantidora da acessibilidade, inclusão e permanência, e que combata a
desigualdade, a discriminação, o preconceito.
· Educação
antinegacionismo:
Educação para a ciência e dirigida à expansão do conhecimento social.
· Educação antirracista, antimachista,
antifascista.
· Educação democrática: regras do jogo.
· Educação republicana: "honeste
vivere".
· Educação emancipadora: com sobrevalor da práxis das classes subalternas, consubstanciada de qualidade, inclusão, permanência, consciência e responsabilidade, com o "máximo respeito ao indivíduo", afirmação da individualidade (diversidade, pluralidade), e superação do individualismo. Superando-se a identificação (limitação, restrição) do ser social com a mercadoria. Portanto, uma consciência acerca das consequências sociais.
Se
é óbvio que as opiniões do senso comum sobre a técnica presente no “fazer
ciência” são nocivas, ainda mais agora com a hegemonia das redes antissociais,
com subprodutos de analistas sociais e políticos que nunca leram um livro sério
sobre o assunto, somados ao subproduto de pseudocientistas (travestidos de
influenciadores), se toda a crítica dirigida a isso é correta, por outro lado,
o senso comum tem todo o direito de indagar, questionar com firmeza, acerca de
“qual ciência se faz no país”, com qual finalidade, portanto, onde, com quem,
para quem, quando, com quais recursos se faz ciência no Brasil.
Nesse
escopo, a par de uma formulação direta e sintética, nosso conceito teria sua
base de sustentação na Educação pública, gratuita, de qualidade, integral e
laica – com todos os predicados e indicativos da técnica, da política (ética) e
da arte. Uma educação destinada ao processo de hominização, mas como educação
omnilateral – em que não se enquadram a educação financeira, o ensino
religioso, a escola cívico-militar.
Depois
de olharmos o monstro diretamente, seria fácil superar a divisão social,
racial, cultural que há em todos/as nós?
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