Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 - 11h10

Pensar
é uma das principais condições humanas, é o que nos faz distintos de outros
animais e ainda que muitos deles tenham senciência, um tipo de consciência
acerca do entorno, do território e da sua situação diante da realidade que lhe
é apresentada.
O
que é muito curioso, porque muitos de nós – por muitas razões, como a presença
atuante da ideologia negacionista – não conseguem divisar o próprio entorno,
vale dizer, a realidade que nos cerca. Chamam isso de alienação, que, num
sentido original implica em “tirar de si” e, neste caso, “tira-se de si” a
capacidade de pensar a si mesmo e ao seu entorno.
Esse
fato também tem muitas possibilidades ou fatores de incidência, como a vontade
de escapar do peso da realidade, das circunstâncias e das próprias limitações –
ou porque exatamente o peso dessas circunstâncias é tamanho que não se consegue
olhar ao redor.
É
como se a ação pela sobrevivência fosse implacável e não restasse energia física
e mental para investigar a fonte das condições mais negativas da própria
existência ou sobrevivência, e da sociabilidade. Seria uma condição
acachapante, implacável, das condições materiais da existência agindo para
provocar o maior esgotamento físico e mental possível.
Neste
sentido, as jornadas de 10, 12 horas de trabalho diário, via de regra um
trabalho repetitivo, embrutecedor, imporiam uma força esmagadora sobre qualquer
possibilidade de iniciativa ou de resistência. Efeitos semelhantes seriam causados
pela imersão em religiões, seitas, nas redes antissociais, na crescente apatia
política.
Há
ainda quem ganhe com algum tipo de alienação, ao se fazer agente do sistema que
esgota outras pessoas. Há quem ganhe muito apenas repetindo ações, comandos,
mecanismos de mera “programação repetitiva” – repetindo-se o ciclo de
exploração e expropriação dos demais.
Também
podemos pensar em quem escreve duas linhas de um código informático e lucre
empresarialmente como se fosse “inovação”. Isso não é inovação, é somente um
tijolo na via de acesso aos meios que alienam e exploram. E ainda há uma
tipologia que, digamos assim, não consta como categoria sociológica e que
denominamos de Abdução Social.
Frisando-se
que não é um conceito sociológico, mas uma “invenção”, uma criativa figura de
linguagem que auxilia na explicação e atua como forma de comunicação, essa Abdução
Social corresponderia a um desligamento total, absoluto, do indivíduo frente à
moralidade, desligando-se dos sentidos, valores e significados que o fizeram,
outrora, um ser social: um exemplo chocante vem do pai que matou a filha para
defender o presidente Trump, nos EUA.
Em
confluência a isso, como exemplos brasileiros de identificação com a falta de
sobriedade, lucidez, sendo obrigatórias para a sociabilidade – posto que, sem a
racionalidade que serve à vida social, só há desvario –, aqui também se encaixa
claramente o indivíduo que reza para pneus ou o pedinte de uma intervenção
militar sideral.
É
bem possível que encontremos quem refute tudo isso, alegando-se que só há
pensamento com lógica, lucidez, Bom Senso. Não é difícil de concordar com isso,
no entanto, numa escala de violência contra o “pensamento”, como estamos
dizendo, podemos pensar que sob a Abdução Social provocou-se dolosamente,
premeditadamente, um “deslocamento para fora de si”, um “desligamento de si” –
não apenas um afastamento, mas sim a “retirada total de si”.
A
Abdução Social é diferente da crise ontológica clássica na medida em que esse
pai sabia perfeitamente o que fazia. Não é mais Identificação, quando a pessoa
se identifica com a “raiz ou natureza dos seus males”, ou com o seu algoz – e
que pode ser a extensão de sua alienação, como visto entre oprimidos que querem
o lugar do opressor ou sob a Síndrome de Estocolmo –, posto que na Abdução
Social o indivíduo se identifica prontamente com o Mal Maior, se vê como parte
ativa de tudo o que lhe retira as mínimas condições de sociabilidade, de
convivência social minimamente apaziguada. Isso quer dizer que é intencional,
que o Mal Maior lhe é referência e destino.
Se
na alienação podemos pensar que as condições de desumanização são externas
(ainda que extremas), nisto que chamamos de Abdução Social o indivíduo é a
principal causa, ação, de sua desumanização: ele sabe o que faz, com intensão e
dolo se coloca fora de todos os parâmetros de sociabilidade. Se na alienação o
indivíduo é capaz de pensar a paz social que lhe foi prometida e negada, na Abdução
Social todas as apostas ocorrem em proveito dos piores males sociais.
Esse
indivíduo – agente da sua Abdução Social – é avesso à moralidade essencial que
recebemos na socialização primária e que, normalmente, na infância, corresponde
a distinções e classificações, como “certo e errado”, “dentro e fora”, “acima e
abaixo”. Não são apenas seres antissociais, porque muitos de nós podem ser
refratários a muitos envolvimentos sociais; os indivíduos da Abdução Social são
sim absolutamente antissociais e atuam contra a sociabilidade. Ainda é
importante frisar que esse indivíduo pensa – pode até pensar sua Abdução Social
–, no entanto, é diferente da crise ontológica porque, aí, a crise pode ser tão
aguda que a pessoa chega a duvidar da sua existência.
Então,
na Abdução Social o pensamento está presente, mas, enquanto dolo, quando se age
premeditadamente contra a sociabilidade; ao contrário da crise ontológica, pois,
na maioria massacrante dos casos, a existência da pessoa, ou o que sobrou dela,
é mantida sob as mais desconexas, negativas e brutais condições materiais de
sobrevivência.
O
problema, neste caso, não é pensar, mas “o que” e “como” pensar, se assim o fazemos
em virtude de novas e mais humanizadas formas de sociabilidade ou, ao avesso
disso, alinhando-se docilmente, sempre obediente às condições materiais que
tornam as pessoas “alienadas” e desconexas da realidade que as nega em termos
de sociabilidade.
Na
hipótese da negação da sociabilidade atua um “cinismo” (Abdução Social), ao
passo que na hipótese de quem pensa a radical transformação das condições
abertamente negativas da sociabilidade (mudanças radicais), os polos se
invertem, e podemos pensar que nessas condições atuaria uma crítica social
pautada na humanização – a forma de se fazer isso cresce com a “ironia social”.
No
sentido da transformação social radical, o pensamento crítico é humanizador (é
o pressuposto da ironia); no sentido antagônico prevalece o cinismo, a exemplo
da prevalência do famoso ditado popular: “vamos deixar como está, para vermos
como é que fica”.
No
pensamento crítico, o ser social luta por mais e melhores condições materiais e
existenciais, ao mesmo tempo em que aprofundem a sociabilidade; no pensamento
cínico se manifesta o oposto da sociabilidade, interpretando-se o caos, a
distopia, a entropia sem controle como formas de se adquirir mais vantagens
pessoais.
O
pensamento cínico critica a ordem social e as institucionalidades que não lhe
trazem ganhos imediatos; no pensamento crítico a avaliação requer que as
condições materiais e existências da Abdução Social, do embrutecimento, da alienação
– causadoras da crise ontológica –, não sejam mais as prevalecentes,
praticamente hegemônicas.
Portanto,
podemos pensar que o pensamento crítico é capaz de partir da ordem e das
institucionalidades presentes e nem sempre humanizadoras, “atuando por dentro
delas”, como luta política que ocorre como luta institucional, para, ao
contrário do cinismo, ensejar ações eficazes e garantidoras de certos níveis de
sociabilidade, e, assim, em seguida, requerer e atuar em prol de mudanças
significativas e organizadas em função daquela mínima sociabilidade assegurada
ou restaurada.
No
pensamento crítico, trata-se de “mudar para melhor” (a sociabilidade), enquanto
no cinismo tem-se a marca da Abdução Social – retirando-se qualquer
possibilidade de mudança que não seja para pior. Para o pensamento cínico, vale
a regra do “quanto pior, melhor”, pois, é no reino do caos absoluto que o
cínico encomenda as suas vantagens.
Assim,
uma das principais funções da Educação é a atuação para que se forme, ganhando
volume, o pensamento crítico (estendendo-se como pensamento social), ao mesmo
tempo em que afronta e combate o pensamento cínico. O que nos indica, por si,
que a Educação é um campo de luta – não se trata de luta por egos, dessa ou
daquela escola, dessa ou daquela matriz pedagógica, mas sim da luta política
pela verdade, construindo-se reflexão e ação que nos interessam e que poderiam
ser resumidas assim: na Educação lutamos pela sociabilidade advinda do
pensamento crítico. Fora disso é Abdução Social programada, projetada.
A
essa altura, o pensamento crítico não pode ter outra grandeza que não seja social,
uma vez que pensamos formas avançadas de sociabilidade e que tenham
ultrapassado as condições materiais negacionistas, negadoras da sociabilidade,
da Humanidade.
Ou,
se somos complacentes, quando nos prostramos ajoelhados à frente da Abdução Social,
nos solidarizamos com o pior dos cinismos – aquele que simplesmente despreza a
vida humana. É fácil perceber que o pensamento crítico se incomoda com o
cinismo, ao passo que o pensamento cínico se incomoda com a crítica (ao
cinismo).
Fora
desse quadro da luta política pela sociabilidade, vale dizer, fora do alcance
desse real Processo Civilizatório, não há Educação, mas sim a sobeja Abdução
Social.
Por
fim, pensemos que, se o pensamento cínico se pauta pela negação, em oposição,
contradição (negação), o pensamento crítico impõe-se por meio da negação da
negação. O cínico arvora-se da autocracia, do egoísmo, do personalismo
exacerbado, e, em campo oposto da luta política, o pensamento crítico se
fundamenta com a lógica de que “autonomia sem auditoria é autocracia”.
Vemos,
então, que não se trata de apatia social, como está presente na tradicional
condição da alienação (“quando se é retirado do campo da crítica necessária”),
mas, sim, de antipatia com a sociabilidade e, portanto, de simpatia com as
negações dessa mesma sociabilidade.
O
epicentro da Abdução Social, como já explicitado, não se baliza pela oposição
entre apatia (alienação) e simpatia, pois, o centro da análise está na
premeditação de quem age para negar a sociabilidade
Se
por um lado o pensamento cínico nega tudo que se assemelha à mínima
sociabilidade apaziguada, por outro, em seu antagonismo, o pensamento crítico
impõe-lhe a maior força opositora possível, ensejando-se uma luta propositiva
em prol da mesma sociabilidade negada.
O
que nos leva a concluir, por fim, que, sim, há uma forma certa de pensar e
outra errada. O erro aqui, já evidenciado, se apresenta como pensar e agir
contra a sociabilidade.
· A leitura atenta
revelou o emprego repetido do verbo “Pensar” e isso foi proposital, uma vez que
não há Educação sem pensamento crítico, criativo, propositivo.
Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)
Superando-se a fase basilar de que apenas com condições materiais de trabalho minimamente presentes, com jornadas que não excedam 20 horas, co

Onde foi que erramos, tanto? - Análise fundamentalista
Quem curte Habermas (não é o meu caso), teria no Master um caso clínico (e cínico) para a perfeita demonstração dos "efeitos da imoralidade absoluta

Quando a exceção deixa de ser ruptura, o extraordinário se disfarça de regra. Revisitando o golpe de Dilma Rousseff, a tentativa de golpe de 08 de j

Auto entrevista - em poucas perguntas e palavras:
1. Qual é a minha formação: Ciências Sociais e Direito. 2. Atua nas duas? Somente no magistério. 3. Há quantos anos? 36 anos. 4. Está aposentado? Daqu
Quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)