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Vinício Carrilho

Abdução Social - Educar pelo pensamento


Abdução Social - Educar pelo pensamento - Gente de Opinião

Pensar é uma das principais condições humanas, é o que nos faz distintos de outros animais e ainda que muitos deles tenham senciência, um tipo de consciência acerca do entorno, do território e da sua situação diante da realidade que lhe é apresentada.

O que é muito curioso, porque muitos de nós – por muitas razões, como a presença atuante da ideologia negacionista – não conseguem divisar o próprio entorno, vale dizer, a realidade que nos cerca. Chamam isso de alienação, que, num sentido original implica em “tirar de si” e, neste caso, “tira-se de si” a capacidade de pensar a si mesmo e ao seu entorno.

Esse fato também tem muitas possibilidades ou fatores de incidência, como a vontade de escapar do peso da realidade, das circunstâncias e das próprias limitações – ou porque exatamente o peso dessas circunstâncias é tamanho que não se consegue olhar ao redor.

É como se a ação pela sobrevivência fosse implacável e não restasse energia física e mental para investigar a fonte das condições mais negativas da própria existência ou sobrevivência, e da sociabilidade. Seria uma condição acachapante, implacável, das condições materiais da existência agindo para provocar o maior esgotamento físico e mental possível.

Neste sentido, as jornadas de 10, 12 horas de trabalho diário, via de regra um trabalho repetitivo, embrutecedor, imporiam uma força esmagadora sobre qualquer possibilidade de iniciativa ou de resistência. Efeitos semelhantes seriam causados pela imersão em religiões, seitas, nas redes antissociais, na crescente apatia política.

Há ainda quem ganhe com algum tipo de alienação, ao se fazer agente do sistema que esgota outras pessoas. Há quem ganhe muito apenas repetindo ações, comandos, mecanismos de mera “programação repetitiva” – repetindo-se o ciclo de exploração e expropriação dos demais.

Também podemos pensar em quem escreve duas linhas de um código informático e lucre empresarialmente como se fosse “inovação”. Isso não é inovação, é somente um tijolo na via de acesso aos meios que alienam e exploram. E ainda há uma tipologia que, digamos assim, não consta como categoria sociológica e que denominamos de Abdução Social.

Frisando-se que não é um conceito sociológico, mas uma “invenção”, uma criativa figura de linguagem que auxilia na explicação e atua como forma de comunicação, essa Abdução Social corresponderia a um desligamento total, absoluto, do indivíduo frente à moralidade, desligando-se dos sentidos, valores e significados que o fizeram, outrora, um ser social: um exemplo chocante vem do pai que matou a filha para defender o presidente Trump, nos EUA.

Em confluência a isso, como exemplos brasileiros de identificação com a falta de sobriedade, lucidez, sendo obrigatórias para a sociabilidade – posto que, sem a racionalidade que serve à vida social, só há desvario –, aqui também se encaixa claramente o indivíduo que reza para pneus ou o pedinte de uma intervenção militar sideral.

É bem possível que encontremos quem refute tudo isso, alegando-se que só há pensamento com lógica, lucidez, Bom Senso. Não é difícil de concordar com isso, no entanto, numa escala de violência contra o “pensamento”, como estamos dizendo, podemos pensar que sob a Abdução Social provocou-se dolosamente, premeditadamente, um “deslocamento para fora de si”, um “desligamento de si” – não apenas um afastamento, mas sim a “retirada total de si”.

A Abdução Social é diferente da crise ontológica clássica na medida em que esse pai sabia perfeitamente o que fazia. Não é mais Identificação, quando a pessoa se identifica com a “raiz ou natureza dos seus males”, ou com o seu algoz – e que pode ser a extensão de sua alienação, como visto entre oprimidos que querem o lugar do opressor ou sob a Síndrome de Estocolmo –, posto que na Abdução Social o indivíduo se identifica prontamente com o Mal Maior, se vê como parte ativa de tudo o que lhe retira as mínimas condições de sociabilidade, de convivência social minimamente apaziguada. Isso quer dizer que é intencional, que o Mal Maior lhe é referência e destino.

Se na alienação podemos pensar que as condições de desumanização são externas (ainda que extremas), nisto que chamamos de Abdução Social o indivíduo é a principal causa, ação, de sua desumanização: ele sabe o que faz, com intensão e dolo se coloca fora de todos os parâmetros de sociabilidade. Se na alienação o indivíduo é capaz de pensar a paz social que lhe foi prometida e negada, na Abdução Social todas as apostas ocorrem em proveito dos piores males sociais.

Esse indivíduo – agente da sua Abdução Social – é avesso à moralidade essencial que recebemos na socialização primária e que, normalmente, na infância, corresponde a distinções e classificações, como “certo e errado”, “dentro e fora”, “acima e abaixo”. Não são apenas seres antissociais, porque muitos de nós podem ser refratários a muitos envolvimentos sociais; os indivíduos da Abdução Social são sim absolutamente antissociais e atuam contra a sociabilidade. Ainda é importante frisar que esse indivíduo pensa – pode até pensar sua Abdução Social –, no entanto, é diferente da crise ontológica porque, aí, a crise pode ser tão aguda que a pessoa chega a duvidar da sua existência.

Então, na Abdução Social o pensamento está presente, mas, enquanto dolo, quando se age premeditadamente contra a sociabilidade; ao contrário da crise ontológica, pois, na maioria massacrante dos casos, a existência da pessoa, ou o que sobrou dela, é mantida sob as mais desconexas, negativas e brutais condições materiais de sobrevivência.

O problema, neste caso, não é pensar, mas “o que” e “como” pensar, se assim o fazemos em virtude de novas e mais humanizadas formas de sociabilidade ou, ao avesso disso, alinhando-se docilmente, sempre obediente às condições materiais que tornam as pessoas “alienadas” e desconexas da realidade que as nega em termos de sociabilidade.

Na hipótese da negação da sociabilidade atua um “cinismo” (Abdução Social), ao passo que na hipótese de quem pensa a radical transformação das condições abertamente negativas da sociabilidade (mudanças radicais), os polos se invertem, e podemos pensar que nessas condições atuaria uma crítica social pautada na humanização – a forma de se fazer isso cresce com a “ironia social”.

No sentido da transformação social radical, o pensamento crítico é humanizador (é o pressuposto da ironia); no sentido antagônico prevalece o cinismo, a exemplo da prevalência do famoso ditado popular: “vamos deixar como está, para vermos como é que fica”.

No pensamento crítico, o ser social luta por mais e melhores condições materiais e existenciais, ao mesmo tempo em que aprofundem a sociabilidade; no pensamento cínico se manifesta o oposto da sociabilidade, interpretando-se o caos, a distopia, a entropia sem controle como formas de se adquirir mais vantagens pessoais.

O pensamento cínico critica a ordem social e as institucionalidades que não lhe trazem ganhos imediatos; no pensamento crítico a avaliação requer que as condições materiais e existências da Abdução Social, do embrutecimento, da alienação – causadoras da crise ontológica –, não sejam mais as prevalecentes, praticamente hegemônicas.

Portanto, podemos pensar que o pensamento crítico é capaz de partir da ordem e das institucionalidades presentes e nem sempre humanizadoras, “atuando por dentro delas”, como luta política que ocorre como luta institucional, para, ao contrário do cinismo, ensejar ações eficazes e garantidoras de certos níveis de sociabilidade, e, assim, em seguida, requerer e atuar em prol de mudanças significativas e organizadas em função daquela mínima sociabilidade assegurada ou restaurada.

No pensamento crítico, trata-se de “mudar para melhor” (a sociabilidade), enquanto no cinismo tem-se a marca da Abdução Social – retirando-se qualquer possibilidade de mudança que não seja para pior. Para o pensamento cínico, vale a regra do “quanto pior, melhor”, pois, é no reino do caos absoluto que o cínico encomenda as suas vantagens.

Assim, uma das principais funções da Educação é a atuação para que se forme, ganhando volume, o pensamento crítico (estendendo-se como pensamento social), ao mesmo tempo em que afronta e combate o pensamento cínico. O que nos indica, por si, que a Educação é um campo de luta – não se trata de luta por egos, dessa ou daquela escola, dessa ou daquela matriz pedagógica, mas sim da luta política pela verdade, construindo-se reflexão e ação que nos interessam e que poderiam ser resumidas assim: na Educação lutamos pela sociabilidade advinda do pensamento crítico. Fora disso é Abdução Social programada, projetada.

A essa altura, o pensamento crítico não pode ter outra grandeza que não seja social, uma vez que pensamos formas avançadas de sociabilidade e que tenham ultrapassado as condições materiais negacionistas, negadoras da sociabilidade, da Humanidade.

Ou, se somos complacentes, quando nos prostramos ajoelhados à frente da Abdução Social, nos solidarizamos com o pior dos cinismos – aquele que simplesmente despreza a vida humana. É fácil perceber que o pensamento crítico se incomoda com o cinismo, ao passo que o pensamento cínico se incomoda com a crítica (ao cinismo).

Fora desse quadro da luta política pela sociabilidade, vale dizer, fora do alcance desse real Processo Civilizatório, não há Educação, mas sim a sobeja Abdução Social.

Por fim, pensemos que, se o pensamento cínico se pauta pela negação, em oposição, contradição (negação), o pensamento crítico impõe-se por meio da negação da negação. O cínico arvora-se da autocracia, do egoísmo, do personalismo exacerbado, e, em campo oposto da luta política, o pensamento crítico se fundamenta com a lógica de que “autonomia sem auditoria é autocracia”.

Vemos, então, que não se trata de apatia social, como está presente na tradicional condição da alienação (“quando se é retirado do campo da crítica necessária”), mas, sim, de antipatia com a sociabilidade e, portanto, de simpatia com as negações dessa mesma sociabilidade.

O epicentro da Abdução Social, como já explicitado, não se baliza pela oposição entre apatia (alienação) e simpatia, pois, o centro da análise está na premeditação de quem age para negar a sociabilidade

Se por um lado o pensamento cínico nega tudo que se assemelha à mínima sociabilidade apaziguada, por outro, em seu antagonismo, o pensamento crítico impõe-lhe a maior força opositora possível, ensejando-se uma luta propositiva em prol da mesma sociabilidade negada.

O que nos leva a concluir, por fim, que, sim, há uma forma certa de pensar e outra errada. O erro aqui, já evidenciado, se apresenta como pensar e agir contra a sociabilidade.

 

·       A leitura atenta revelou o emprego repetido do verbo “Pensar” e isso foi proposital, uma vez que não há Educação sem pensamento crítico, criativo, propositivo. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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