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Política

Artigo: Marina Silva e a relação ‘fé e política’


 
Jung Mo Sung *


Adital
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A saída da senadora Marina Silva do PT e sua provável candidatura à presidência do país pelo PV terá algum efeito na relação entre "fé e política" nas comunidades de base e no cristianismo de libertação no Brasil?

Essa pergunta pode parecer estranha, mas eu penso que é bastante pertinente. Uma das grandes novidades do cristianismo de libertação foi a introdução do tema "fé e política" na vida e prática das comunidades cristãs. Na década de 80, era quase impensável alguém ser das comunidades de base e não participar de alguma discussão sobre " fé e política". Uma "fé viva" deveria ser expressa através da participação na política. Naquela época, e ainda hoje em muitos lugares, a "política" da "fé e política" era tudo o que se referia ao bem comum na sociedade. Assim, incluía desde ações sociais na área de saúde até candidaturas de líderes comunitários nas eleições legislativas e executivas em nome da fé cristã. Não havia uma diferenciação entre a ação social, movimento populares, movimentos sociais, ação política e participação nos partidos políticos. Tudo era visto como "Política" (com "P" maiúscula).

Na relação entre fé e política, não havia (e em muitos grupos ainda não há) uma clareza sobre o tipo dessa relação. Assim, com freqüência se ia do campo da fé para o da política de modo direto, sem mediações. Traduzindo isso em um exemplo bem simplificado, podemos dizer que ter uma fé viva significava fazer opção pelos pobres e essa opção pelos pobres, a partir da fé, deveria ser expressa em participação política assumida pela comunidade ou pelas Cebs. Em muitos casos, isso a identificar a participação na comunidade de base com a militância ou adesão a candidatos de um partido assumido pelas lideranças da comunidade. Por isso, em muitas partes do Brasil, ser das Cebs significa ser do PT. É claro que isso não foi em todos os lugares, mas era muito difícil encontrar comunidades de base ou movimentos e grupos de fé e política que tivessem nas suas lideranças pessoas de partidos diferentes. Especialmente de partidos que eram tachados de representantes da burguesia ou do reformismo.

Essa quase identificação natural entre as Cebs e o PT (com algumas exceções, por ex., em algumas regiões do Rio Grande do Sul, o brizolismo dividiu com o PT essa identificação) entrou em uma pequena crise quando surgiu PSOL, que teve entre seus fundadores algumas figuras identificadas com as Cebs e o cristianismo de libertação. Mas, nessa época o tema e o movimento de "fé e política" já estava em crise. Além disso, de um lado, PSOL não teve um grande impacto na vida eclesial e social do país; de outro, diversos setores do cristianismo de libertação viram o PSOL como uma radicalização da opção pelos pobres, da linha mais radical da "fé e política", que seria uma alternativa ao reformismo ou "traição" do governo Lula.

Mas, eu penso que agora, com a candidatura da Marina Silva, as coisas serão diferentes. Não podemos esquecer aqui que o PV, diferentemente do PSOL, não é uma radicalização da postura marxista. A introdução do tema do desenvolvimento sustentável (tratado no artigo anterior) não é um simples adendo ao pensamento marxista tradicional, mas uma ruptura, sem perder de vista as grandes contribuições de Marx. A candidatura dela já nasce forte, com apoio de setores importantes da sociedade e também de figuras destacadas do cristianismo de libertação. Com isso, provavelmente teremos dentro de uma mesma comunidade, grupos ou movimentos cristãos identificados com o cristianismo de libertação uma divisão significativa entre aqueles que apoiarão o PT e o PV na próxima eleição presidencial. Isto é, não haverá mais uma identificação ou uma relação direta entre assumir a fé cristã, na perspectiva da libertação, com uma postura política ou opção partidária.

O pior que poderia acontecer para as comunidades cristãs seria a demonização do PT ou do PV e da candidatura da Marina Silva, na tentativa de manter a visão de que a fé só pode ser expressa socialmente através de um único caminho político-técnico. Eu espero que a divisão política no interior das comunidades de base e do cristianismo de libertação seja visto como um momento de aprendizagem sempre necessária de que comunidade cristã deve ser lugar onde as pessoas celebram e fortalecem a fé cristã libertadora, respeitando pessoas que têm diferentes visões e propostas técnicas ou políticas. Em outras palavras, aprender que entre Fé e Política deve haver uma mediação e que a fé e opções teológico-religiosas não devem ditar as escolhas de caminhos políticos e técnicos na solução dos graves problemas que aflige o povo e o planeta.

[Autor de "Cristianismo de libertação: espiritualidade e luta social"]


* Professor de pós-graduação em Ciências da Religião

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