Quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026 - 14h46

A adolescência é um período de intensas transformações físicas, emocionais e sociais, marcado pela construção de sonhos, planos e projetos de vida. No entanto, desafios como a gravidez não planejada ainda impactam de forma significativa a trajetória de muitos jovens no Brasil. Apesar das campanhas de prevenção à gravidez precoce e do incentivo ao uso de preservativos — medida essencial também para a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) —, o país segue enfrentando números expressivos. Entre janeiro e agosto de 2025, o Brasil registrou 168.713 nascimentos de bebês, filhos de mães com idades entre 15 e 19 anos, segundo dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) do Ministério da Saúde, compilados em 27 de janeiro de 2026 pela Organização Nacional de Acreditação (ONA). Já em 2024, entre janeiro e agosto, foram 179.428 nascimentos, totalizando 261.206 ao final do ano. Com o objetivo de ampliar a conscientização e promover a educação em saúde entre adolescentes e jovens, o governo instituiu a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, realizada anualmente na primeira semana de fevereiro, entre os dias 1º e 8. No estado de Rondônia, entre janeiro e agosto de 2025, foram 1.813 nascidos vivos filhos de mães da faixa etária. Já em 2024, 1.956 no mesmo período do ano. | |
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Desafios da gravidez precoce - De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a gestação na adolescência está associada a um maior risco de complicações para a mãe, o feto e o recém-nascido, além de poder agravar vulnerabilidades sociais e econômicas já existentes. A pediatra e membro da Organização Nacional de Acreditação (ONA), dra. Mariana Grigoletto, explica que, entre adolescentes, há maior risco de mortalidade materna. Para o bebê, aumentam as chances de anomalias congênitas, complicações no parto, asfixia e paralisia cerebral. Segundo a especialista, a gravidez nessa fase da vida também está relacionada a uma maior incidência de intercorrências clínicas, como aborto, diabetes gestacional, parto prematuro e depressão pós-parto. “Além dos impactos à saúde, a gravidez na adolescência pode comprometer a trajetória educacional das jovens, favorecendo a interrupção dos estudos e dificultando a inserção no mercado de trabalho, com reflexos diretos nas condições sociais e econômicas dessas famílias”, destaca a médica. Outros fatores frequentemente associados à gravidez precoce incluem a ausência ou interrupção da amamentação, a falta de corresponsabilização do pai biológico ou parceiro, a escassez de rede de apoio, o uso de álcool e outras drogas, situações de violência intrafamiliar e, em alguns casos, a rejeição por parte da própria família. Saúde mental – A maternidade na adolescência pode impactar diretamente a autoestima e o bem-estar emocional das jovens mães, trazendo desafios tanto para elas quanto para os recém-nascidos. Sentimentos como insegurança, medo e ansiedade são comuns nesse período e reforçam a importância de uma escuta ativa e qualificada, do cuidado contínuo e do apoio emocional nesse momento sensível. A pediatra destaca que o Sistema Único de Saúde (SUS) assegura o direito à assistência psicológica às mulheres antes, durante e após o parto, conforme previsto na legislação vigente. “Durante a gestação e após o nascimento do bebê, é natural que surjam emoções como ansiedade ou tristeza. Por isso, o cuidado com a saúde mental é fundamental. A legislação garante que gestantes, parturientes e puérperas tenham acesso à assistência psicológica no SUS, sempre mediante avaliação do profissional de saúde, já no pré-natal, para que esse acompanhamento ocorra de forma acolhedora e adequada às necessidades de cada mulher”, explica. Direitos do adolescente – Falar sobre saúde sexual na adolescência envolve informação, acolhimento e respeito aos direitos dos jovens. O adolescente possui direitos e deveres em todas as dimensões da sua vida — inclusive na sexual — e isso inclui a possibilidade de esclarecer dúvidas e conversar de forma reservada com o médico. De acordo com a pediatra dra. Mariana, é comum que pais desejem acompanhar integralmente as consultas, mas o atendimento individual ao adolescente é permitido e recomendado, desde que não represente riscos à sua vida. “O respeito ao sigilo profissional é fundamental para que o jovem se sinta seguro para falar sobre suas dúvidas, medos e curiosidades”, destaca. Métodos preventivos – Outro ponto essencial é a responsabilidade compartilhada na prevenção da gravidez e das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Segundo a especialista, esse cuidado ainda recai majoritariamente sobre as meninas, o que precisa ser revisto. “A gravidez acontece dentro de uma relação. Embora as adolescentes enfrentem grande parte das consequências, é indispensável envolver também os meninos nessa conversa, discutindo seu papel e responsabilidade”, explica a médica. Muitos jovens acreditam que o uso isolado da pílula anticoncepcional ou do preservativo é suficiente para evitar uma gravidez, mas a orientação médica vai além. A chamada prevenção dupla — ou dupla proteção — consiste no uso simultâneo do preservativo (masculino ou feminino) e de um método contraceptivo reversível de longa duração, os LARCs, como o DIU (hormonal ou de cobre) e os implantes subdérmicos. Esses métodos se destacam pela alta eficácia e praticidade, já que não exigem uso diário e podem durar de três a dez anos, com retorno da fertilidade após a remoção. “Toda segurança é importante nessa fase da vida, tanto para evitar uma gravidez não planejada quanto para prevenir infecções sexualmente transmissíveis”, finaliza a dra. Mariana. |
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