Domingo, 8 de fevereiro de 2026 - 08h25

O
carnaval que se aproxima carrega uma longa história, da qual muitos já conhecem
ao menos alguns elementos. No Brasil, essa festividade chega a partir de Portugal
com o chamado Entrudo,
uma brincadeira popular marcada por certa desordem: pessoas arremessavam água,
laranjas e outros objetos umas nas outras nas ruas. Ao longo do período
colonial e imperial, essa prática foi se transformando, misturando-se às influências
africanas e dando origem aos ritmos brasileiros, ao hábito de tocar
instrumentos nas ruas — como o Zé Pereira —, às marchinhas de carnaval com
Chiquinha Gonzaga, ao samba e, mais tarde, às escolas de samba.
Do
ponto de vista etimológico, costuma-se associar a palavra carnaval ao latim carnivale, interpretado como
“adeus à carne”, em referência ao período da Quaresma, que se inicia logo
depois e impõe restrições, inclusive alimentares. Ainda que essa etimologia
seja discutida, ela abre espaço para uma reflexão mais profunda: a “carne” não
diz respeito apenas ao alimento, mas aos prazeres carnais em geral, que
encontram nesse período um tempo de liberação e catarse antes da contenção
quaresmal.
Entretanto,
as origens simbólicas do carnaval parecem ser mais antigas. Em diversas
civilizações, sempre houve festividades ligadas ao encerramento de um ciclo e
ao início de outro, especialmente associadas à fertilidade da natureza e à
chegada da primavera. Após o inverno — tempo de sombras, recolhimento e
proximidade simbólica com a morte — celebrava-se a vida que retornava.
No
Egito Antigo, por exemplo, havia cortejos sagrados ligados à natureza e ao
renascimento. No templo de Hórus, realizava-se o chamado casamento sagrado com
Hathor, a Grande Mãe, simbolizando a harmonia entre o homem digno e a natureza
viva. Não havia ali desordem ou grotesco, mas consagração e reverência à vida.
Já
na tradição greco-romana surgem elementos mais próximos do carnaval atual. As
festas dionisíacas, celebradas na Grécia e depois em Roma como bacanais e
saturnálias, envolviam embriaguez, inversão da ordem social, máscaras e ruptura
das normas. O objetivo simbólico era permitir que o homem fosse “possuído pelo
deus”, trazendo à tona algo que transcendesse a vida comum. Contudo, quando não
há caminhos para que o elemento espiritual se manifeste, essa ruptura tende a
liberar apenas a animalidade reprimida.
É
nesse contexto que surge a ideia de catarse: uma liberação controlada das
tensões psíquicas e instintivas, para evitar que elas transbordem de forma
destrutiva ao longo do ciclo social. Na medicina, o termo “catártico” refere-se
à purificação do corpo; no carnaval, essa purificação seria simbólica, ligada à
psique humana.
Mas
surge uma pergunta fundamental: é realmente necessário gerar impurezas para
depois purificá-las? Ou seria possível uma moral que não apenas reprima, mas transmute
os instintos? Essa reflexão aparece com força nos festivais medievais, nos
quais a máscara grotesca ridicularizava o cotidiano “normal”, denunciando sua
hipocrisia. O carnaval, nesse sentido, expunha que a moral comum muitas vezes
apenas esconde a bestialidade, sem transformá-la.
Como
numa videira bem cuidada, a poda dos ramos inferiores permite que a seiva produza
frutos melhores. A moral verdadeira não reprime por medo, mas orienta a energia
vital para algo mais elevado. Quando isso não acontece, cria-se apenas uma
aparência de virtude — uma máscara — que o carnaval faz questão de satirizar.
Celebrar o carnaval não é, portanto, um problema em si. A alegria, a festa e a celebração da vida são profundamente humanas. O convite que essa tradição nos faz é mais sutil: refletir se nossas regras nos tornam realmente mais humanos ou apenas mais domesticados; se usamos máscaras por consciência ou por hipocrisia. Talvez o verdadeiro sentido do carnaval esteja em nos ajudar a retirar essas máscaras — não só por alguns dias, mas também no tempo comum da vida.
*Lúcia
Helena Galvão é professora voluntária da Nova Acrópole há 38 anos.
Domingo, 8 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)
Obras públicas no século XXI não podem ser construídas com métodos do século passado
O Brasil vive uma das maiores contradições do seu tempo: enquanto há urgência por infraestrutura e equipamentos públicos de qualidade, milhares de o

Como Empreender na Educação: Desafios e Oportunidades
O mundo vive um momento de grandes transformações. Com o setor educacional não está sendo diferente. Empreender na educação nunca foi tão necessário n

Em 2026, o planejamento vai vencer o otimismo
Durante muito tempo, o calendário foi visto apenas como uma ferramenta de rotina. Em 2026, ignorá-lo será um erro estratégico. Com a Copa do Mundo,

Vale-transporte ou auxílio combustível: como entender as diferenças e escolher o benefício ideal?
A mobilidade dos colaboradores voltou a ganhar peso nas decisões das empresas. A expansão do trabalho híbrido, as alterações na frequência dos deslo
Domingo, 8 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)