Sábado, 28 de janeiro de 2012 - 16h01
É impressionante a capacidade do Brasil de levar a fantasia para a vida pública, para o universo político. Brasília, às vezes, parece um eterno conto de fadas. Ou melhor, um conto de bruxas! Ainda durante a campanha de Dilma Rousseff rumo à Presidência da República, ficou famosa a expressão “Os Três Porquinhos” para classificar seus fiéis escudeiros Antônio Palocci, José Eduardo Cardozo e José Eduardo Dutra. Tão logo eleita, a própria Dilma assumiu a galhardia dos cognomes, durante um discurso de agradecimento ao Diretório Nacional do PT, em 19 de novembro de 2010. Até eu dediquei um capítulo inteiro do livro “A 1ª Presidenta” (Editora Faces, 2011, 240 páginas) para falar sobre a participação dos “três” na jornada dilmista: “Cícero, Heitor e Prático – Sobre Porquinhos e Casas Frouxas” (págs. 195-200).
Com os dois primeiros nós sabemos o que aconteceu. José Eduardo Cardozo, o melhor sucedido, firmou-se como titular do Ministério da Justiça e vem realizando um excelente trabalho, diga-se de passagem. Já Antônio Palocci, após protagonizar um retorno triunfante ao Palácio do Planalto, de onde fora defenestrado durante o governo Lula por suspeitas lupanares e por violar o sigilo bancário de um humilde caseiro “dedo-duro” que seria chantageado, ganhou de Dilma Rousseff o título de ministro-chefe da Casa Civil e, antes de completar 200 dias de novo governo, já estava atolado em escândalos, após a denúncia do jornal Folha de S. Paulo de que seu patrimônio aumentou 25 vezes em apenas 4 anos com a prestação de milionárias e misteriosas consultorias. Palocci foi novamente defenestrado do governo petista.
Com o terceiro porquinho a coisa foi mais difícil. José Eduardo Dutra era presidente nacional do PT, cargo que deixou nas mãos do deputado paulista Rui Falcão. Na formação do tétrico corpo ministerial de Dilma, antes da posse oficial, toda cúpula do Partido dos Trabalhadores articulou maciçamente para que Dutra ganhasse ou o Ministério do Turismo, ou o Ministério da Previdência Social, pastas consideradas fundamentais para os partidos políticos por serem vertedouros quase ilimitados de recursos públicos para o famoso “Caixa 2”, que teve a existência atestada e chancelada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 17 de julho de 2005, em sua famigerada declaração ao programa Fantástico, da Rede Globo, nos jardins de um palácio francês durante o escândalo do Mensalão: “Ué, o ‘caixa 2’ que o PT fez, do ponto de vista eleitoral, é o que é feito no Brasil sistematicamente.” Ou seja, roubamos sim, e daí?! Todo mundo rouba mesmo!
Mas o Turismo e a Previdência Social, pelos motivos acima expostos, já faziam parte da cobiça feroz do partidão PMDB, cotista prioritário por ter o vice-presidente da República e as maiores bancadas na Câmara e no Senado. Ainda assim, o PT fez pressão para encontrar uma saída honrosa para o terceiro “porquinho” de Dilma: como José Eduardo Dutra é o primeiro-suplente do senador socialista sergipano Antônio Carlos Valadares (PSB/SE), a nomeação deste a algum Ministério abriria espaço para que Dutra assumisse o mandato no Senado Federal. Não deu certo. O nome de Valadares não emplacou em lugar nenhum e o ex-presidente do PT ficou sem um cargo no primeiro escalão da República. Como pra essa “gente grande” não servem outras funções que não as de mandatários, o homem ficou “desempregado”.
Eis que, um ano depois de assumir a Presidência da República, Dilma Rousseff conseguiu, finalmente, arrumar um lugarzinho para acomodar seu último “porquinho”. Por um desses caprichos do destino e contrariando qualquer sanidade das histórias infantis, José Eduardo Dutra foi parar no Ministério (peemedebista) das Minas e Energia, cujo titular é o maranhense Edson Lobão. Um “porquinho” na casa do Lobão! Essa foi a primeira decisão da “coleguinha da presidenta” Maria da Graça Foster, nova presidente da Petrobras, técnica dita competentíssima segundo relatos dos “entendedores” do assunto: criar a Diretoria Corporativa que irá administrar a mega estatal brasileira e que será assumida pelo então esquecido apaniguado petista José Eduardo Dutra. A decisão será referendada no início de fevereiro, conforme anunciou o ministro Lobão. “Mal vai a história”, diria minha saudosa vovozinha.
Num governo onde corrupção e bandidagem são chamadas de meros “malfeitos” infantilóides, não é de espantar que a presidente Dilma Rousseff tenha conseguido colocar sob um mesmo teto e com os mesmos “objetivos” um lobão e um porquinho. Na mesma toada, Dilma amarelou e acabou rendida pelas ameaças públicas do líder do PMDB na Câmara, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN). Depois de uma “avaliação pragmática”, a presidente decidiu voltar atrás e manter os peemedebistas no comando da Transpetro. Ainda mais agora, que seu último “porquinho” já está confortavelmente acomodado no primeiro escalão de seu governo e com a faca, o queijo e as chaves do cofre nas mãos. E todos foram felizes para sempre, no reino encantado dos larápios, na “Brasília” da fantasia!
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