Sábado, 11 de junho de 2011 - 09h41
Mauricio Dias, em CartaCapital
Em atividades comerciais, há leis rígidas que protegem direitos dos sócios minoritários diante do poder dos majoritários, como acontece, por exemplo, nas sociedades anônimas. Nas associações políticas, no entanto, não chega a ser assim. Mas é que o PMDB quer ter mais poderes do que já tem.
A demissão do ministro Palocci voltou a estimular o partido a cobrar o suposto direito de “sócio” que não existe em alianças políticas. Assim ocorre com a coalizão eleitoral entre PT/PMDB e outros partidos menores, em torno da candidatura vitoriosa que levou Dilma Rousseff à Presidência da República.
“É hora de fazer um redesenho da articulação política do governo. E o PMDB quer e vai participar”, afirmou categoricamente o senador alagoano Renan Calheiros, um dos mais influentes quadros do partido.
“Agora, ela (Dilma) vai estabelecer um novo desenho de governo”, concordou, em outro momento, o senador José Sarney sem o ímpeto de Calheiros. Mas as palavras “redesenho” e “desenho”, no discurso dos dois peemedebistas, denunciam o objetivo comum.
Esse discurso tem uma tradução: o PMDB quer tornar Dilma sua refém.
É um vício instintivo desse velho e incômodo aliado. Sem condições de construir uma candidatura majoritária própria para chegar ao poder alia-se com quem pode. Fez isso também no governo tucano de FHC. Sem a voracidade de agora. Isso se traduz em um combate com o PT pelas posições mais importantes na máquina administrativa do governo.
O que deveria ser normal numa aliança política bem-sucedida na eleição de 2010 vira, para o PMDB, um combate decisivo.
Assim ele irriga a horta da qual se nutre: tem a maior bancada no Senado e a segunda maior na Câmara, onde, pela primeira vez, o PT fez maioria. Sem o PMDB, Dilma teria enorme dificuldade de governar.
Esta situação tornou de dupla utilidade, ou seja, “dois em um”, o gabinete do vice-presidente peemedebista, Michel Temer: ora é “gabinete de conciliação”, quando o interlocutor é o peemedebista Romero Jucá, líder do governo no Senado, ora é “gabinete de conspiração”, quando o diálogo é com o Henrique Alves, líder do PMDB na Câmara.
Dilma tem enfrentado com dificuldade a fúria desse dragão. Foi assim na votação do Código Florestal. Foi assim na luta da oposição pela convocação de Palocci. E é assim na despedida de Palocci.
Há uma rebelião, mais uma no PMDB. A reação, ainda verbal, surgiu com a escolha da senadora Gleisi Hoffmann pelo fato de Dilma não ter se consultado com Temer. Ele soube meia hora antes, reclamam. Um privilégio, na verdade, diante da decisão praticamente solitária da presidenta.
A cúpula peemedebista fez uma reunião de emergência na noite de quarta-feira 8, no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente Temer. Estavam lá, entre outros, os já citados Sarney e Renan, além de Romero Jucá, Henrique Alves e o reaparecido Eduardo Cunha. O nome do deputado Eduardo Cunha na lista da reunião com Temer remete aos primeiros dias do governo. Naquele momento, Dilma, em nome da probidade, desafiou os peemedebistas e acabou com a influência política de Cunha em Furnas, um dos pomares onde o PMDB comia a fruta do pecado.
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