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Gente de Opinião

Matias Mendes

NORDESTE: A Omissão de Socorro


 

Por MATIAS MENDES

 O noticiário nacional tem informado com regularidade que as regiões Norte e Nordeste do Brasil têm sido duramente atingidas pelas enchentes deste ano. No caso específico da região Norte, conquanto as enchentes causem danos de relativa monta, o flagelo das águas sazonais constitui apenas um desconforto temporário e endêmico com o qual os ribeirinhos estão habituados a lidar. No entanto, quando se trata da região Nordeste, aí o fenômeno das enchentes ganha dimensões dramáticas de megatragédia, posto que o nordestino está habituado a lidar com o flagelo das secas e não com o problema das grandes cheias. Assim sendo as enchentes que flagelam o Nordeste desde a Bahia até o Maranhão constituem de fato uma calamidade pública infinitamente maior que o desastre ocorrido no Estado de Santa Catarina, em novembro do ano passado.

 Deixando de lado os Estados da região Norte, onde as enchentes estão castigando duramente os vizinhos acreanos, amazonenses e paraenses (Rondônia constituiu uma feliz exceção), para que os monoglotas ressentidos não digam que estou sendo tendencioso do ponto de vista regionalista, vem ao caso observar que não se nota no Brasil a mesma mobilização que houve para socorrer os catarinenses no sentido de socorrer agora os nordestinos.

Quando da tragédia na região Sul, o País inteiro mobilizou-se para arrecadar toda sorte de donativos para aliviar o sofrimento do povo catarinense, e tal atitude foi de todo louvável, motivo mesmo de orgulho para qualquer brasileiro em razão da solidariedade do nosso povo. No momento daquela tragédia, ninguém ousou sequer imaginar que haveria alguma forma de preconceito no gesto coletivo do povo brasileiro. Os donativos endereçados ao Estado da região Sul apareceram de todas as partes e com desusada prodigalidade. Foram tantos os donativos que faltou competência aos governantes dos municípios atingidos para aproveitar toda a ajuda recebida, chegando ao cúmulo de muitos donativos irem parar nos lixões catarinenses por falta de distribuição conveniente. Muita coisa foi simplesmente desviada, furtada e sabe-se lá  de que outras formas a generosidade coletiva teria sido malbaratada Imagine-se o que não teria acontecido com os milhões de reais arrecadados em espécie....  E note-se que o número dos atingidos pelo flagelo das chuvas em Santa Catarina nem de longe pode ser comparado ao número dos nordestinos que estão sendo varridos de suas casas pelas enchentes, principalmente no Maranhão e no Piauí, valendo salientar que o Piauí já é ordinariamente e sem qualquer flagelo extra o Estado mais pobre do Brasil. Mas, até o momento, apenas o sempre bravo e solidário Exército Brasileiro compareceu à região flagelada para oferecer alguma forma de socorro aos nossos irmãos nordestinos. É verdade que o Presidente Lula apresentou-se na região dos flagelos e emprestou a sua solidariedade pessoal aos flagelados, isto em forma de apoio moral, mas nada ainda de concreto em termos de atendimento como aconteceu no desastre da região Sul.

A constatação de que o povo do Nordeste (isto, como foi dito, sem falar do Norte) não  recebe a mesma solidariedade que foi dispensada aos flagelados sulistas indica exatamente que o povo brasileiro é profundamente preconceituoso até mesmo no momento de praticar alguma forma de caridade. As crianças brancas do Sul despertaram em brasileiros de todos os recantos do País muito mais piedade do que os pobres mestiços do Nordeste e do Norte. Não se viu ainda aqui em Rondônia nenhuma mobilização dos meios de comunicação para socorrer os nordestinos flagelados pelas enchentes como aconteceu no caso do Estado de Santa Catarina, conquanto a tragédia nordestina que atinge da Bahia ao Piauí seja indiscutivelmente mais grave e mais pungente.  A única ilação que se pode fazer da desigualdade de comportamento é que nem mesmo na desgraça os povos do Norte e do Nordeste são olhados como cidadãos iguais aos sulistas. Esta é uma realidade da qual o Brasil não pode fugir, embora a histórica hipocrisia da nossa gente procure disfarçar com toda sorte de argumentos falaciosos.

Fonte: Matias Mendes

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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