Porto Velho (RO) sábado, 28 de maio de 2022
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Léo Ladeia

Política & Murupi - Quando tentei entender como funciona o “face”


Política & Murupi - Quando tentei entender como funciona o “face”  - Gente de Opinião

Começo com a frase muito difundida no mundo cibernético: se você acha que é um cliente que recebe um produto de graça via internet, acredite: você é o produto.  Frances Haugen ex-funcionária do Facebook num depoimento demolidor ao Senado dos Estados Unidos trouxe um clarão de luz sobre as trevas das empresas que compõem um conglomerado tecnológico, cuja função pelo menos em tese, seria “tornar o mundo mais aberto e conectado” segundo a filosofia comercial do criador Mark Zuckerberg, o que presume a valorização de relações pessoais e laços sociais e óbvio deixando um troco para o grupo. Ninguém trabalha de graça.

Quando tentei entender como funciona o “face” deparei-me com o algoritmo, uma coisa antiga e conhecida e que nada mais é que a montagem de uma sequência de raciocínios, instruções, operações ou passos que levam a um objetivo. É tão simples como receita de bolo ou o manual de operação de um eletrodoméstico. Segundo a Frances, porém, a receita de bolo do “face” é criminosa. É como se você adicionasse um produto cancerígeno à receita e não avisasse sobre o risco a quem você passou. Documentos da empresa mostrados pela Frances revelam que há conteúdos muitas vezes nocivos à saúde e à democracia dentro da armadilha do “face” e isso é tratado tão somente como um modelo de negócios. Mas não fica só nisso, há muitos outros gatilhos para impulsionar a interação entre pessoas e que fazem mal às crianças, alimentam a divisão e ódio e enfraquecem a democracia. As suspeitas são antigas e Frances apenas as tornou públicas no Senado. O problema maior é que o “face” e seus puxadinhos agregados como o Instagram e o Whatsapp sabiam disso e nada fizeram para reduzir os riscos ou corrigir as distorções.

O Facebook alega que remove conteúdos danosos, mas os documentos mostraram que a empresa tomou medidas contra apenas uma pequena fração – e não se sabe o quanto – das publicações contendo discursos de ódio e de incitação à violência.

Em 2018, o Facebook disse que para mitigar a radicalização, priorizaria publicações de amigos e família, mas isto não é verdade nem sequer em parte. Nunca foi verdade. A desinformação, a toxicidade e o conteúdo violento prevalecem nos compartilhamentos entre pessoas e como sabemos nós todos no Brasil, o ódio e divisionismo campeiam na sociedade. No Instagram, no Facebook e no Whatsapp os pesquisadores sugerem que há um agravamento de ideações suicidas, de ansiedade, de depressão e até desordens alimentares. Nos EUA, há estudos sobre expandir a lei de privacidade infantil online, tornando ilegal computar informações pessoais de crianças. Outra possibilidade interessante é limitar a prerrogativa das redes sociais de não serem responsabilizadas por conteúdos publicados por seus usuários, mesmo quando ou se moderados por elas.

Sejam quais forem as soluções encontradas e as possibilidades são muitas, é certo que alguma forma de regulação é necessária. Não se pode, a pretexto de preservar a livre-iniciativa, deixar que uma empresa monte um gigantesco monopólio, estimule a disseminação de mentiras para ampliar o seu lucro e concentre um poder quase infinito e assustador sem que seja submetida aos limites democraticamente estabelecidos e não apenas nos EUA. O problema é mundial e apocalíptico.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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