Quarta-feira, 29 de janeiro de 2025 - 07h55

Bagé, 29.01.2025
Continuando
engarupado na memória:
Tribuna
da Imprensa n° 4.281, Rio, RJ
Quinta-feira,
21.02.1964
Em
Primeira Mão
(Hélio
Fernandes)
Estarrecedor,
mas rigorosamente verdadeiro: foi o próprio senhor João Goulart, presidente da
República dos Estados Unidos do Brasil, País que, ao menos do ponto de vista
constitucional, é democrático, quem pediu ao senhor Luís Carlos Prestes,
secretário-geral do Partido Comunista do Brasil, que levasse ao premier Nikita
Khrushchev o plano de frente ampla, elaborado pelo sr. San Tiago Dantas para
fortalecer politicamente o governo e preparar o terreno para o golpe
político-militar.
Prestes
trouxe a ordem de Khrushchev aos comunistas e esquerdistas brasileiros: todo
apoio a Goulart. Todo apoio ao plano San Tiago, minuciosamente explicado por
Prestes ao seu chefe soviético. E mais: Khrushchev concorda com o golpe de
Jango Goulart, mas resiste à ideia de comunização imediata do Brasil, por
questões puramente do interesse soviético, pois à Rússia não interessa no
momento um choque aberto com os Estados Unidos, o que fatalmente aconteceria.
A
posição de Khrushchev contra a comunização imediata do Brasil já fora
transmitida ao senhor João Goulart e, em conversa reservada, a líderes políticos
pelo embaixador da Rússia no Brasil, sr. Andrei Fomin. Dois são os motivos que
levaram os dirigentes russos a tomar posição contraria à revolução comunista no
Brasil. Primeiro: o Brasil é área de influência norte-americana, rigorosamente
de acordo com a estratégia mundial da guerra fria e por acordo tático celebrado
entre as duas maiores potências mundiais, URSS e EUA, quando da crise de Cuba.
Segundo: a Rússia não tem dinheiro para sustentar um regime comunista no
Brasil. A experiência de Cuba, que política e ideologicamente foi um sucesso
para a Rússia, do ponto de vista financeiro é um fracasso total. A Rússia não
sabe mais o que fazer ou onde empilhar açúcar cubano. E teme que aconteça o mesmo
com o café do Brasil.
O
embaixador Andrei Fomin revelou o segredo a altas autoridades brasileiras e a
eminentes figuras das classes conservadoras, e agora o premier Khrushchev
confirma a posição russa em relação à política brasileira. Disse Fomin que a
Rússia está gastando mais de um milhão de dólares por dia para sustentar o
regime comunista em Cuba. “Quanto
teríamos de gastar num País das proporções do Brasil?”. Perguntou o
embaixador Fomin. E ele mesmo respondeu que a cifra seria astronômica, inacreditável,
muito longe dos recursos financeiros da Rússia.
E
mais a Rússia atravessa uma séria crise econômico-financeira, às voltas com o
fracasso do sistema coletivista da Agricultura, escassez de alimentos etc. Teve
até mesmo de desfazer-se de parte de suas reservas de ouro a fim de adquirir
gêneros alimentícios no exterior, sujeitando-se ao desgaste de comprar trigo
nos Estados Unidos. O próprio projeto de construção da usina de Sete Quedas,
que os comunistas e os meninos da UNE instalados na Eletrobrás gostariam que
fosse financiado pela Rússia, já foi abandonado. Os técnicos soviéticos vieram
ao Brasil, a convite do Governo, visitaram Sete Quedas, e comunicaram que seu
País poderá dar assistência técnica na construção da usina, mas dinheiro nunca.
E o próprio Fomin evita cuidadosamente tocar no assunto.
O
sr. Luís Carlos Prestes voltou, assim, da Rússia, com a nova palavra de ordem
de Khrushchev que desfaz os sonhos de muitos esquerdistas brasileiros: a Rússia
não tem condições de financiar o Brasil, nem a revolução brasileira, e muito
menos poderá ajudar economicamente o Brasil. Não apoia, portanto, a revolução
que o sr. Brizola vive pregando com a assistência dos pelegos sindicais, da UNE
e de meia dúzia de deputados da Frente Parlamentar Nacionalista.
Khrushchev
não quis tomar posição nas eleições presidenciais brasileiras. Durante a longa
conversa em Moscou, Prestes tentou encaminhar a solução Kubitschek, pois
assumira compromisso com o candidato pessedista para apoiá-lo nas eleições de
1965 em troca de duzentos mil dólares de ajuda ao PCB [50 mil já recebidos na
casa de Letelba Rodrigues].
E,
porém, vetou o negócio celebrado por Prestes e JK, afirmando que os comunistas
brasileiros devem prestigiar os planos políticos de Goulart, e até mesmo a solução
golpista, desde que ela se faça sem tese ideológica ostensiva. Pediu moderação
na ação política dos comunistas, a fim de que o País não se encaminhe para uma
faixa revolucionária, quando então os Estados Unidos teriam que intervir para
evitar a comunização do Brasil.
E
disse mais: evitem a revolução agora, pois a Rússia não está em condições de
sustentá-la, nem política nem economicamente. Acrescentou ainda: se os Estados
Unidos intervierem no processo político brasileiro, para conter uma revolta
popular de esquerda, a Rússia nada poderá fazer para ajudar os comunistas
brasileiros, pois uma intervenção soviética provocaria inevitavelmente a Guerra
Mundial que as duas potências evitam. Acrescentou:
Não
estamos preparados nem interessados, no momento, numa guerra que só
interessaria a Mao-Tse-Tung e aos comunistas chineses.
Saldo
positivo da visita de Prestes a Moscou, rigorosamente de acordo com informações
colhidas junto às fontes prestistas: Khrushchev confirmou a liderança do sr.
Luís Carlos Prestes no movimento comunista brasileiro e o apoio ao plano San
Tiago. Khrushchev considera útil para o PCB o apoio aos planos táticos de Jango
e determinou a Prestes que tire todo o proveito possível do atual governo e de
suas manobras políticas. Ao chegar ao Brasil, Prestes comunicou-se
telefonicamente com Jango, dando conta do recado, e marcaram um encontro para o
próximo fim de semana, no Rio ou em Brasília, quando o líder comunista
transmitirá pessoalmente ao presidente da República a linha de comportamento que
o chefe russo traçou para as esquerdas brasileiras até às eleições
presidenciais. A declaração de Prestes, “Khrushchev
apoia a volta do PC à legalidade”, foi apoiada previamente pelo sr. João
Goulart.
Segundo
notícias publicadas até em órgãos da imprensa que rezam pela cartilha do
governo, dirigentes do CGT estiveram longamente com o sr. João Goulart
debatendo o problema militar no que se refere ao comando da Paraíba. Alegam os
“nacionalistas” e dirigentes do CGT
que naquele Estado o comando militar deve ser exercido por um oficial “compreensivo”, já que ali se reúne o
grosso das Ligas Camponesas e onde as agitações se tornaram rotina.
Aproveitando
a boa vontade do sr. João Goulart, os dirigentes do CGT propuseram o nome do
general Alfredo Pinheiro [o tristemente famoso autor do atentado ao governador
Carlos Lacerda] para aquele comando, recusando intransigentemente um outro nome
apresentado pelo próprio Jango.
Antes,
o CGT se especializava em greves, confusões, ameaças etc., somente no âmbito
civil. Agora, estimulado pelas vitórias e, naturalmente, contando com o “apoio de cima” tenta incursionar na área
militar. Vejamos o que dirá de tudo isto o general Jair Dantas Ribeiro, pois
que a maioria democrática das Forças Armadas infelizmente já chegou a uma
conclusão: Estamos mesmo em plena vigência da República Sindicalista, aliás,
preconizada e desejada, há muitos anos, pelo atual ocupante do Palácio do
Planalto.
O
que se comenta: depois da violenta e documentada acusação feita pelo senhor
Leonel Brizola, numa reportagem muito bem escrita por Paulo Shilling, os srs.
Jango Goulart e Francisco Clementino San Tiago Dantas perderam o restinho de
conceito e de dignidade. A negociata do trigo é escandalosa demais para que
possa passar despercebida. Com uma agravante: a acusação não foi feita por
nenhum adversário ou inimigo, nem por ninguém da oposição. Foi o próprio
cunhado do presidente que veio a público denunciar o que já se sabia. Mas que
descreveu com assombroso luxo de detalhes.
Na
questão das demissões dos policiais da Invernada de Olaria, o secretário de
Segurança Gustavo Borges ficou em posição excepcional, e a salvo da menor
censura. Por várias razões:
1ª Porque
na época dos espancamentos que provocaram as demissões ele não era secretário
de Segurança;
2ª Condenou e continua condenando
espancamentos de qualquer espécie. Mas teve coragem de defender junto ao
governador uma medida punitiva que não fosse a demissão dos policiais. Achava a
demissão violenta demais;
3ª Só concordou quando o sr. Carlos Lacerda alegou “que o seu problema de consciência se sobrepunha a qualquer outro”. Aí não pôde mais resistir, principalmente porque, sendo amigo do governador de longa data, conhece os horrores que ele presenciou na polícia, durante a ditadura.
(*) Hiram Reis e
Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor,
Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;
Link: https://youtu.be/9JgW6ADHjis?feature=shared
Campeão do II
Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989);
Ex-Vice-Presidente
da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
Ex-Professor do
Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Ex-Pesquisador do
Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
Ex-Presidente do
Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
Ex-Membro do 4°
Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS);
Ex-Presidente da
Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da
Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do
Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
Membro da
Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO);
Membro da
Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
Comendador da
Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS);
Colaborador
Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG);
Colaborador
Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN);
Membro do
Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP)
E-mail: [email protected]
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