Porto Velho (RO) sexta-feira, 30 de julho de 2021
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Gente de Opinião

Viviane Paes

Vamos agradecer: 215.732 rondonienses sobreviveram à Covid-19


Desde março do ano passado quando faleceu a primeira vítima da Covid-19, em Rondônia, eu tenho escrito algo sobre os que partiram as famílias órfãs; destacamos os profissionais que fez muito mais do que estava previsto: amaram e acolheram os doentes em seus últimos momentos (porque até isso essa pandemia retirou de nós, o direito a acompanhar o último suspiro dos que amamos); nomeei as vítimas no caso dos policiais civis e militares que atuavam na linha de frente do enfrentamento junto com enfermeiros, auxiliares, fonoaudiólogos e também o pessoal dos serviços gerais que garantem a limpeza e os trabalhadores da cozinha dos restaurantes de campanha que servem muito mais que alimento para os que podem comer: servem positividade, pois se tornou impossível viver sem empatia ao próximo...

Então, dia 20 desse mês recebi o áudio surpreendente de um policial civil que me auxiliou na construção do artigo “Anjos e Heróis contra a Covid-19 Policiais civis” que um mês depois também seria vítima da doença avisando: “você têm homenageados os mortos da Covid, e de mim amiga você não vai escrever não! Eu estava com 99% do pulmão comprometido e hoje, 40 dias depois de UTI, estou com 100% de vida!”.

Você está certíssimo, APC Nilton: vamos falar dos que sobreviveram, isso não é desrespeitoso aos que partiram, nem aos que estão sofrendo nesse segundo pela perda de um querido!

Vida e sobrevida

Nos últimos 14 meses de pandemia, 227 mil 663 rondonienses foram contaminados pelo coronavírus. Destes 215 mil e 732 são sobreviventes! Nesse total estão pacientes que foram contaminados e realizaram o tratamento em casa, os que passaram por Upas; os que foram internados nas enfermarias dos hospitais de campanha; nos hospitais particulares e nos privados dos 52 municípios rondonienses, e os internados em UTIs, também em outros estados.

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O condutor de transporte escolar, Édio Gomes, o Dió, como é conhecido, é um desses sobreviventes que jamais terá uma vida normal pós-pandemia. Ele é uma pessoa que acredita que nada acontece sem que Deus permita, por isso ao vê-lo por aí sempre brincando numa conversa você esquece que nos últimos dois meses ele perdeu sua amada “mamãe, a dona Hilda”, como não tinha vergonha de dizer mesmo sendo um homem de quase 50 anos.

Dió teve duas, das cinco irmãs internadas ao mesmo tempo em que sua mãe estava entubada na UTI. Quando já sofria o luto da perda da genitora e ajudava nos cuidados com as irmãs também foi contaminado.

Dió ficou mais 20 dias em enfermarias de dois hospitais de campanha, de Porto Velho. Foi desses casos ditos como intermediário de gravidade, que não precisa de oxigênio durante o tratamento, no entanto até hoje faz tratamento em sua residência. Ficou com 50% do pulmão comprometido e toma medicamentos para controlar uma infecção.

“Não posso falar muito e nem fazer nenhum esforço como lavar o carro que fico cansado, com falta de ar e o pulmão fica como se fosse estourar”, explica Dió. Apesar de tudo o que ocorreu ele só tem gratidão pela vida, pela família: esposa, filhos, irmãos, pai e principalmente aos muitos amigos que realizaram orações e os que contribuíram para que o processo de internação. O condutor de transporte escolar ficou dois dias na UPA da zona sul aguardando uma vaga para internação. Nessa época, a fila de espera por um leito nos hospitais de campanha e outros de enfrentamento da Covid-19, era de 60 pessoas.

No momento, ele tem sobrevivido como todos os trabalhadores do transporte escolar do Brasil, que não foram beneficiados com o auxílio emergencial do governo federal e não tiveram apoio alguns dos governos estaduais e municipais. Toda uma categoria, o que significa centenas de famílias sofrendo as dificuldades impostas pela falta de salário e a dignidade em conseguir se manter sem o apoio de amigos ou familiares.

Recuperando para voltar para casa

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O agente da polícia civil, Nilton Cavalcante é uma das poucas pessoas que sabe exatamente quando foi infectado pelo coronavírus. “Eu fui fazer um serviço externo de busca de suspeitos e entramos numa casa que tinha três rapazes muito parecidos. Pegamos um e quando entramos na viatura percebemos que não era o que procurávamos. Antes de sair ele espirou em cima de mim. Quando perguntei o que ele tinha a resposta me preocupou. Ele falou que estava cuidando de uma tia que tinha contraído a Covid. Três dias depois em casa comecei a ter calafrios e disse para a minha esposa Sylvia que estava com Covid. Fiz o exame e já iniciei o tratamento. Uns dias depois com a oxigenação do sangue muito baixa fui para um hospital e lá devido à gravidade da situação, minha esposa já organizou transferência para um hospital em outro estado. Foi uma corrida contra o tempo. A UTI móvel levou nove horas daqui para São Paulo e tivemos que parar em Goiânia para reabastecer porque, oxigênio que tinha acabado. Eu estava muito ruim, mas consciente ainda”.

Nilton ficaria intubado durante 40 dias. Foi extubado três vezes e passou 10 vezes pela manobra PRONA – aquela em que o paciente fica de barriga pra baixo para ajudar a melhorar a função dos pulmões dos doentes com insuficiência respiratória da unidade de terapia intensiva. Esse feito o tornou uma referência no hospital Albert Einstein. Nunca até então, um paciente passou por esse tratamento tantas vezes e sobreviveu.

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Dia 6 de junho, Nilton irá desembarcar em solo rondoniense. Está fazendo fisioterapia duas vezes ao dia para restabelecer as funções normais do seu corpo, reaprendendo a andar e até respirar! Esse já era um dia muito especial na sua vida familiar. Foi quando conheceu a esposa Sylvia Helena Almeida de Barros, na promotoria da infância. Os dois trabalhando. Amor à primeira vista que os uniria para sempre em momentos de alegria, conquistas, tristeza e provações como foi o da pandemia.

“Vou completar 13 anos de um casamento que é benção em minha vida desde o início. Temos um relacionamento que os amigos dizem que não somos marido e mulher, somos cumplices! E, nesse período todo que estive em coma, tive momentos em que delirei e esqueci até o nome da minha companheira. Ela esteve internada comigo também nesses 40 dias. Sylvia emagreceu mais de 15 quilos, porque não tinha como sair de perto de mim nem para comer. Só tenho gratidão por ela e por todos os parentes, os amigos, os conhecidos que se mobilizaram para ajudar a custear as despesas de minha internação aqui”, agradeceu emocionado em um áudio, Nilton.

Só posso dizer: Sejam bem vindos à vida, Dió e Nilton!

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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