Porto Velho (RO) sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021
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Viviane Paes

O passado que não temos - Por Viviane Paes


O passado que não temos - Por Viviane Paes - Gente de Opinião

O Ministério de Antiguidades do Egito, isso mesmo eles tem um, anunciou a abertura de mais um misterioso sarcófago de mais de 2.000 anos encontrado em um bairro de Alexandria. Por lá o passado é valorizado, afinal são considerados o berço da civilização...

Uma amiga nesse final de semana repassou toda feliz, uma matéria do final da Copa mostrando a torcida de descendentes de croatas, no Sul do País, onde viu a foto de uma menina que era sua bisavó, mãe de seu avô materno. Até então, pra ela, sua ascendência era apenas italiana e alemã!

Como é bom ter essas referências familiares. Adoro. Sou muito curiosa das minhas origens: goiana com parentes mineiros. Sangue de negros, índios, portugueses e holandeses por parte materna e paterna respectivamente. Meus sobrenomes não negam que sou brasileira mestiça, apesar de ter na minha certidão de nascimento a cor branca, sou negra, sem sombra de dúvidas, apesar do cabelo dito “bom”, da boca pequena...
Desse assunto já falei diversas vezes, mas nunca das origens de sobrenome que remetem a ascendência. Essa tal origem de cada um que os egípcios ainda mantém quando descobrem tumbas e buscam incansavelmente todos os antepassados na múmia!

Com raras exceções, das famílias “quatrocentonas” de São Paulo, Rio de Janeiro, onde nomes como Ruy Barbosa e Châteaubriant têm suas origens conhecidas, alguns sobrenomes em Minas Gerais e em Goiás, como o caso dos Fleurys, Caiado, Ludovico e outros no Nordeste de políticos, a maioria da população desconhece sua origem. No máximo temos referência até nossas bisavós.

Uma pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisa Aplicada) realizada em setembro de 2016 analisou 46 milhões de nomes de trabalhadores do cadastro da Rais (Relação Anual de Informações Sociais) e descobriu que 87,5% dos cadastrados tinham nomes de origem ibérica, Espanha e Portugal.

Como se sabe, na população brasileira não existe apenas descendente de europeus, mas também de ameríndios, os brasileiros que moravam aqui antes da chegada dos portugueses, e de africanos, ao longo de 300 anos como escravos. Essa pesquisa apontou o sobrenome Silva como o mais comum.

Porque o sobrenome "Silva", além de ser muito usado em Portugal, também foi dado a milhares de escravos trazidos para o Brasil durante o período colonial. Essa é a explicação mais provável, segundo o genealogista Carlos Eduardo Barata, autor do Dicionário das Famílias Brasileiras. Além disso, muitos portugueses que vinham para o Brasil em busca de vida nova adotavam o "Silva" para se beneficiar do anonimato que o sobrenome comum oferecia.

A origem dos "Silvas" é controversa, mas tudo indica que o sobrenome surgiu no Império Romano para denominar os habitantes de regiões de matas ou florestas - silva, em latim, é "selva". O primeiro "Silva" a fixar raízes no Brasil foi o alfaiate Pedro da Silva, em 1612. Daí em diante, o sobrenome começou a se espalhar pelo país e não parou mais.

O episódio feliz da minha amiga relembrou o quão pouco sei da estória da minha família paterna e principalmente materna. Apenas o básico, minha avó tinha o sobrenome Vieira da Silva – olha aí, e meu avô Dias. Com o casamento minha mãe deixou de usar o Dias e agregou o Assis de meu pai.

Sempre brinquei que Vieira era de Padre Vieira e Assis de Machado de Assis, seria maravilhoso se fosse verdadeiro, mas nem precisa ser estudioso da genealogia pra saber que não seria possível esse parentesco.

Sei também que um dos sobrenomes da minha bisavó materna era Terra e seus antepassados eram do Sul. Isso porque desde pequena sou muito curiosa e bisbilhoteira da conversa dos adultos! Agora daí chegar ao Sul e procurar as pessoas de sobrenome Terra e achar que somos parentes é bem complicado.

É triste confirmar que a pouca valorização que damos a nossa estória, a preservação de patrimônios se estende a árvore genealógica. Isso falando não de um grupo de ricos que possui recursos para contratar empresas para examinar o DNA e chegar com precisão científica aos ancestrais.

Gostaria demais de saber de qual tribo africana foi sequestrado ou vendido o ser humano que iniciou sua longa jornada até o Brasil, com que ele se relacionou até chegar a essa pessoa que sou mãe de um ser humano “mulata” e de um ser humano cuja brancura da pele chega a doer nos olhos...

Fico contente em ter conhecido tios e tias que por sua personalidade me permitem imaginar como foram meus avôs, avós, bisavós e tataravôs...

Por exemplo. Uma amiga de longa data que chamou de fada-madrinha, a filantropa, empresária e psicóloga Júlia Arcanjo me aconselhou uma vez a sorrir mais abertamente, sem temor em mostrar os dentes encavalados, pois isso iria afastar a primeira impressão que as pessoas poderiam ter do meu rosto naturalmente “carrancudo”.

Um conselho certíssimo! Mas a minha fisionomia “fechada” foi herdada da minha mãe, que herdou da mãe dela. Tenho aquelas fotos tradicionais da família reunida e lá está dona Maria das Dores com o rosto fechado. Do lado dela minha mãe sorridente e uma tia que parecia ter sido colocada na cadeira para foto familiar amarrada... Essa era tia Santa, não me perguntem seu nome, porque não sei. Conheci como Santa e ela morreu assim.

Tia Santa inspirava medo. Assim mesmo, aquela pessoa com o rosto sério que nunca sorria, fala baixa sem abrir muito a boca e um olhar aterrorizante! Vamos dizer: ir passar as férias em Minas Gerais, aos seis anos, era lembrar primeiramente que teria que pedir benção a ela, mais velha dos meus tios, uma tia-avó nada amistosa.

Na minha adolescência, tia Santa já havia falecido e entendi que sob seus ombros pesara a responsabilidade de criar quatro irmãos, dois homens e duas mulheres, quando minha avó Maria morreu. Minha mãe era a mais nova e sempre recordava: “Santa assumiu a casa toda e era mão de ferro, determinava quem fazia cada atividade e controlava os demais, no entanto tinha que prestar contas do mau comportamento dos irmãos para meu pai. E naquela época os costumes eram rígidos”. Muita coisa para uma jovem de 16 anos. Agora entendo!

Esse passado que poucos têm o privilégio de conhecer me fascina e ainda estou devendo uma boa estória para meus filhos para que eles possam contar suas estórias sobre nossas histórias!

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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