Porto Velho (RO) domingo, 7 de março de 2021
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Viviane Paes

Heróis e anjos contra Covid-19 - O enfermeiro reikiano

Dupla jornada. Risco duplo


Heróis e anjos contra Covid-19 - O enfermeiro reikiano - Gente de Opinião

Em cinco dias, (15 a 19/02), 158 vidas rondonienses foram interrompidas pela Covid-19. No mesmo período foram confirmados 141.212 casos enquanto que 120.509 pessoas conseguiram vencê-la. Os dados do 336 boletim do governo do estado, acessível à consulta no site institucional - causam dor aos que perderam parentes e amigos. Entretanto, não são suficientes para inibir os festejos clandestinos do carnaval no Estado...

Enquanto alguns ainda encontram motivos para comemorar, nos últimos meses atípicos de pandemia, os profissionais de saúde seguem em suas rotinas estressantes que limitam suas forças físicas e mentais. Quando contaminados são afastados para tratamento e os que sobrevivem são obrigados a retornar para atender outros doentes. Essa força de trabalho não é suficiente em nenhum lugar do mundo para combater a pandemia.

Até agosto do ano passado, cerca de três milhões de profissionais da saúde tiveram o coronavírus. Isso representava 10% dos quase 30 milhões de casos registrados no mundo. Um total de 2.200 profissionais morreu. As informações do Conselho Internacional de Enfermagem (ICN) apontaram ainda que o Brasil era um dos países com maiores números de infectados pelo novo coronavírus.

Nas últimas semanas conversei com alguns profissionais da saúde daqui de Rondônia, de Santa Catarina e de Pernambuco. Além do ofício compartilham a naturalidade rondoniense e o amor à profissão. Á eles, nosso respeito extensivo aos demais trabalhadores da linha de frente no enfrentamento da Covid-19.  Alguns deles preferem não ser identificados por temer algum tipo de represália. Nem todo herói pede reconhecimento, mas todos os anjos precisam de orações!

O enfermeiro reikiano

O mantra sha seken sahu ecoa no despertador do celular. O chamado egípcio com vozes suaves, às 5 horas da manhã, é a maneira que o enfermeiro L.M, (nome em sigilo a pedido), 38 anos, encontrou para iniciar o dia.  Levanta fazendo um alongamento e está preparado para o percurso de 1h30 minutos de transporte público, da residência localizada na zona sul até um posto de saúde, na região central de Caruaru - município localizado a oeste da capital de Pernambuco, Recife.

A cidade é a terceira mais populosa do interior nordestino, segundo estimativa do IBGE de 2020, 363.278 habitantes, atrás apenas de Feira de Santana (BA) e Campina Grande (PB). Mesmo saindo cedo de casa fará quase todo trajeto em pé, durante duas trocas de ônibus e uma espera rápida em um terminal. Já está acostumado, infelizmente, em ver apenas os olhos dos outros usuários por cima das máscaras coloridas de tecido, ou brancas descartáveis.

No início da pandemia, o profissional de saúde se sentia um alienígena por utilizar a máscara de proteção facial. Ele andava pelo bairro e sentia os olhares irônicos. Entrava no coletivo e ouvia os sorrisos abafados. Sabia bem sobreviver a isso, como homossexual assumido no nordeste sofria preconceito sempre, mas isso era diferente. Era uma ignorância tão palpável à tragédia real em outros países, que o praticante de Reiki – terapia integrativa, só acalmava com uma meditação rápida.

Em nove de fevereiro de 2021, dez meses depois do primeiro óbito pela Covid-19 na cidade, um homem de 85 anos portador de doença respiratória pregressa, o boletim diário do governo estadual pernambucano registrava 273.278 casos confirmados; 10.546 vidas perdidas nos 184 municípios e também no arquipélago de Fernando de Noronha.

No mesmo período, mais de 233 mil pessoas estavam recuperadas dos efeitos do coronavírus, ainda assim a pandemia requer muitos cuidados e o isolamento social. https://www.pecontracoronavirus.pe.gov.br/boletim-secretaria-de-saude-do-estado-n-de-casos-127).

Dupla jornada. Risco duplo

L.M nasceu em Porto Velho, onde residiu até os 18 anos. Aprovado no curso superior de enfermagem em Recife retornou à cidade natal materna para realizar o sonho de criança de cuidar de pessoas. Já formado foi para sala de aula, lecionando em cursos técnicos de enfermagem e depois de um tempo saiu da capital para o agreste nordestino e assumiu um cargo público. Anos depois iria enfrentar um dos maiores desafios de sua vida profissional, o enfrentamento do coronavírus.

“Ainda tenho muita dificuldade em falar sobre essa pandemia, por ser algo que me marcou profundamente. Você presencia pessoas morrendo dentro de um hospital, saí na rua e encontra outros que não obedecem ao uso da máscara, do álcool em gel realizando festas no período de isolamento e luta para não se contaminar e transmitir o vírus para parentes” desabafa. L.M vive com a mãe, uma idosa de 63 anos sem comorbidades.

Não lhe faltam motivos para temer. Em junho do ano passado, um levantamento do Conselho Federal de Enfermagem  (CRF) denunciava que o Brasil era o país onde mais estava morriam trabalhadores da enfermagem (auxiliares, técnicos e enfermeiros) em todo o mundo, por conta da pandemia. Haviam 16.064 casos confirmados e 143 mortes, no período.

Ele viu a rotina já cansativa de trabalho durante todo o dia, de segunda a sexta-feira, com trabalhos eventuais em campanhas nacionais de vacinação aos finais de semana alterada quando a prefeitura de Caruaru redistribuiu os trabalhadores nos hospitais de campanha de enfrentamento da Covid-19. Era o expediente diurno no posto e revezamento noturno a cada 28 horas, no hospital. No primeiro plantão recebeu a missão de acompanhar a transferência de um paciente em estado grave para a capital. Foram 130 quilômetros percorridos com muita apreensão em mantê-lo estável para internação imediata. Esse não seria o primeiro.

Eu vacino e sou vacinado!

O governo estadual de Pernambuco foi o primeiro do país a criar um protocolo para testar e afastar os profissionais da área da saúde com sintomas gripais. Até o início de fevereiro, 25.840 casos foram confirmados e 45.549 descartados. As testagens entre os trabalhadores do setor abrangem os profissionais de todas as unidades de saúde, sejam da rede pública (estadual e municipal) ou privada.  

No final do ano, dispensado dos plantões nos hospitais de atendimento da Covid-19, mas ainda sem direito a desfrutar das férias vencidas, o enfermeiro foi convocado a integrar a equipe de vacinação dos trabalhadores da saúde. Em 10 de fevereiro 110.010 profissionais atuantes na rede municipal, estadual e privada de saúde receberam a primeira dose da imunização. https://caruaru.pe.gov.br/prefeitura-de-caruaru-amplia-vacinacao-para-profissionais-da-saude-que-trabalham-no-municipio/

L.M foi vacinado por uma colega, já imunizada, antes de iniciar os serviços na última semana de janeiro. “Estou mais tranquilo pela primeira etapa da imunização, no entanto isso não é tudo. Temos que continuar nos prevenindo para podermos cuidar dos pacientes com segurança e tranquilidade”, afirma o enfermeiro.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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