Segunda-feira, 12 de janeiro de 2026 - 13h47

A recente exaltação de operações repressivas contra o
garimpo ilegal no Amazonas, celebradas como grandes vitórias
ambientais, revela mais sobre a fragilidade do Estado brasileiro do que sobre
sua real capacidade de proteger a Amazônia. Ao transformar a destruição de
máquinas, balsas e estruturas em espetáculo midiático, o
poder público oferece à sociedade números vistosos e manchetes convenientes,
mas evita o debate essencial: por que o problema persiste e quem falhou em
preveni-lo.
A repressão, quando isolada, pode gerar impacto visual e aplausos momentâneos,
mas não produz justiça ambiental, estabilidade social nem preservação
duradoura. Quando apresentada como política ambiental bem-sucedida, converte-se
numa perigosa inversão de valores.
Repressão não é política pública: quando o Estado celebra a destruição e ignora a própria
responsabilidade
Governar não é destruir.
Governar é planejar,
oferecer alternativas e construir soluções sustentáveis. Um Estado que chega às
regiões mais remotas da Amazônia apenas com força, fogo e coerção — mas não
chega com escolas, assistência
médica,
crédito
produtivo, políticas de inclusão e
presença institucional permanente — não está
protegendo o meio ambiente. Está apenas administrando o próprio
fracasso.
Garimpo ilegal, repressão espetacular e a ausência de inteligência de Estado na
Amazônia
O garimpo ilegal não é apenas um crime ambiental. É um fenômeno social e
econômico profundamente ligado à pobreza estrutural, à falta de oportunidades e
à inexistência de alternativas viáveis de sobrevivência. Reduzir
essa realidade complexa a uma simples questão policial é sinal de pobreza intelectual e de irresponsabilidade
administrativa.
Operações contra o garimpo ilegal exibem números, mas ocultam
a falência do Estado na Amazônia
Manchetes que alardeiam bilhões em “prejuízos” ao garimpo ilegal ocultam uma pergunta
incômoda: quantos bilhões o Estado deixou de investir em soluções estruturais,
sustentáveis e humanas? Quantas oportunidades foram perdidas pela ausência de
políticas públicas sérias?
Mais do que denunciar a ineficácia da repressão isolada, este texto aponta
caminhos possíveis. O Brasil poderia investir de forma estratégica no
desenvolvimento agroflorestal, na recuperação da cadeia produtiva do látex, na
instalação de indústrias locais de processamento de borracha e na fabricação
regional de pneus para o mercado mundial, gerando emprego e renda na própria Amazônia.
Da mesma forma, a produção de açaí em larga escala poderia ser fortalecida com
critérios
transparentes e inclusivos, assegurando uma distribuição justa de valor entre
pequenos produtores, cooperativas e cadeias industriais, reduzindo a
dependência de atividades ilegais.
Conclusão
Queimar máquinas não salva a Amazônia. O que poderia salvá-la é a coragem
política de abandonar narrativas convenientes e enfrentar responsabilidades
reais. Enquanto a violência for tratada como virtude, a inteligência como
detalhe e o espetáculo como política pública, o país continuará preso a soluções
aparentes e fracassos concretos.
________________
Nota do autor:
Esta publicação em espaço independente não
representa afastamento do debate público, mas uma escolha deliberada de
antecipação. Quando narrativas oficiais evitam examinar responsabilidades
estruturais, torna-se necessário assumir o controle da reflexão crítica.
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