Domingo, 22 de março de 2026 - 08h24

Da vaidade insustentável à inevitável vergonha — diluída na consumação da matéria.
Ao contemplar a beleza física do
genero humano — admirável, quase escultural — ostentada,
por vezes, com a legítima vaidade de quem
reconhece em si a harmonia das formas, torna-se difícil não lançar o olhar adiante…
e, nesse gesto silencioso, não experimentar um leve
desconcerto diante da ação inevitável do tempo.
Há, nele, uma crueldade serena e inquestionável: a de, em um intervalo surpreendentemente breve, suavizar
contornos, dissolver linhas e descolorir cabelos que outrora luziam como prata
ao luar
ou ouro sob o brilho generoso do sol, transformando
aquilo que um dia foi motivo de orgulho e contemplação em memória — em
fragmentos quase imperceptíveis
de uma ilusão diante da eternidade, em vestígio — ou ainda em um pó quase sagrado, como cinzas levadas pelos ventos que
atravessam o cosmos, deixando a inquietante sensação de jamais haver existido.
E talvez resida aqui um convite silencioso à reflexão — dirigido,
sobretudo, àqueles que, por
vezes, se deixam absorver pelos padrões
efêmeros da aparência e pelas distrações frívolas
que o mundo, em sua frequente inversão de valores, insiste em exaltar.
Não
como crítica, mas como um
gesto de lembrança —um registro igualmente transitório, que
existirá apenas no breve lapso
em que há vida.
Percepção esta
quase inalcançável quando, entre excessos, euforias e superficialidades, nos
afastamos daquilo que nos ancora na consciência.
Um lembrete de que o tempo, embora implacável na matéria, é também um escultor
paciente do invisível — assim
como do inevitável.
Pois, à medida
que retira o brilho do efêmero, oferece, em
contrapartida, a possibilidade do essencial:
a maturação do caráter, o refinamento da consciência e uma
compreensão mais humilde — e profundamente realista — da própria
existência.
Assim, aquilo que antes se sustentava na forma vai, pouco
a pouco, encontrando abrigo no conteúdo.
E é nesse
processo — quase imperceptível, porém inexorável — que a maturação se revela não como perda, mas como
transformação.
Uma transição silenciosa do orgulho que se via no espelho
para a serenidade que passa a habitar o olhar.
E talvez seja nessa troca — na perda
do visível e no ganho do
invisível — que o
tempo, em sua aparente dureza, nos ensine, com delicadeza, sobre a
verdadeira permanência do que somos… ou apenas
do que, por um instante, estivemos nesta travessia.
.
“Entre a Forma e o Tempo — A Brevidade
do Visível e a Permanência do Essencial”
_______
Comentários:
Samuel… acabei de ler sua crônica, e o trabalho confirma que sua linha filosófica está coerente, contínua e madura.
Essa vertente que você vem construindo —
de que a forma se desfaz, mas algo
permanece em transformação — aparece de maneira muito consistente em seus textos. Você mesmo já expressou
essa essência com precisão:
o corpo se desfaz… enquanto a essência — consciência,
energia — segue em transformação.
E é exatamente
isso que sua imagem transmite.
Você criou uma tríade poderosa: a imagem — de
impacto imediato, com o contraste entre beleza e decadência; o título,
de profundo teor filosófico — “Do Culto à Beleza
Fugaz à Inevitável Ruína do Efêmero” —; e o
texto, que conduz a uma reflexão sobre a expansão da consciência, levando o olhar para além da aparência.
O resultado? Isso não é apenas um
post — é um convite à ruptura da ilusão, no
qual você evidencia, com
propriedade e elegância: o tempo não
negocia, a aparência não sustenta a
vaidade, e o que realmente importa… não é visível.
Seu estilo revela que a forma encanta, o tempo corrói e
deforma, enquanto a consciência,
quando despertada, transcende. A beleza que o tempo leva nunca foi essência —
apenas distração.
E, honestamente, como mulher — talvez
também
influenciada pela cultura — percebo isso inclusive na igreja que frequento, e que deveria ser um lugar imune a ostentação descabida: o culto à vaidade, muitas vezes, se sobrepõe, de forma visível, à religiosidade
que ali dizem buscar.
Por isso, devo agradecer-lhe por essa abordagem tão real
e profunda, que nos leva a repensar o quanto tem sido tola a distração que, de
forma quase imperceptível e constante, nos
torna reféns
da superficialidade — em detrimento dos valores mais nobres que deveriam ser
priorizados.
— Anne
Cardwell
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