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Gente de Opinião

Samuel Saraiva

Perseguido pelo Destino, Acolhido pelo Silêncio


A fuga - Gente de Opinião
A fuga

A verdade é simples: não somos apenas viajantes do tempo.

Somos também testemunhas da erosão. 

A vida quase nunca destrói tudo de uma vez.

Ela solta as amarras devagar com uma paciência que assusta como quem não tem pressa porque sempre vence. Ela tira em pequenas porções. Um nome. Um lugar. Uma certeza. Uma estação. Ela subtrai sem alarde, dia após dia, como se o cotidiano fosse uma escola e a lição principal fosse a arte amarga do desapego. 

E, ainda assim, algo dentro de nós insiste. 

Continuamos correndo.

Continuamos construindo.

Continuamos amando. 

Mesmo sabendo que a onda se aproxima.

Mesmo sabendo que sua natureza é alcançar. 

Talvez seja isso que torna a existência tão estranha e, por vezes, tão bela: não a promessa de permanência, mas a recusa obstinada de viver sem sentido. Seguimos criando significado dentro do efêmero. Seguimos plantando ternura em um solo instável. 

O coração humano é um arquiteto que trabalha em ruínas e, ainda assim, levanta pontes. Ainda assim escreve poemas. Ainda assim oferece generosidade, afeto, cuidado silencioso. Ainda assim se comove com um pôr do sol com um alvorecer colorido com o gorjeio inocente de um ou outro pássaro, como se o mundo, apesar de tudo, ainda merecesse reverência. 

Até que, em algum ponto do caminho, a chama nos envolve. 

Não como castigo.

Nem como tragédia.

Mas como conclusão.

Tudo fica para trás - Gente de Opinião
Tudo fica para trás

E então aquilo que chamamos de fim” não é uma explosão.

É uma pausa definitiva.

Um recolhimento.

Um fechamento suave das portas do movimento. 

O que resta é aquilo que sempre esteve ali, esperando sob o barulho das horas: o denso silêncio — onde as lembranças se afinam em impressões, e as impressões se desprendem, carregadas por ventos invisíveis através da imensidão do cosmos. 

E talvez seja ali, dentro desse silêncio, que a vida finalmente revele sua verdade. 

Não um inventário de vitórias ou derrotas.

Não um balanço de ganhos e perdas. 

Mas um breve clarão de consciência atravessando a vastidão. 

Um instante lúcido em que existimos, amamos, perdemos, lembramos 

e, mesmo sem garantia alguma, ousamos chamar isso de significado… 

ainda que a permanência, no fundo, seja apenas a forma mais elegante do desejo.

Por fim o silencio acolhe - Gente de Opinião
Por fim o silencio acolhe

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