Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026 - 13h51

Quando observo uma pessoa profundamente religiosa vivendo
na miséria
— ou atravessando uma situação difícil,
muitas vezes originada de problemas que poderiam ter sido prevenidos ou
resolvidos por meios concretos — e, ainda assim, insistindo em pedir a Deus uma solução,
sou levado a um exercício
elementar de lógica. Um exercício que, apesar de simples, costuma ser evitado
justamente porque ameaça o conforto
emocional de certas crenças.
Que tal começar pelo óbvio? Se
Deus é onisciente, por que insistir em suplicar, como se Ele não
soubesse? A repetição da prece não revela
necessariamente fé;
muitas vezes, revela desconfiança na própria
ideia de onisciência
— ou a necessidade psicológica de
manter um ritual de dependência.
1) Se Deus existe e é justo e
bom, como se explica a permanência do sofrimento? Ou esse sofrimento é “merecido”
— o que torna a justiça divina moralmente questionável —
ou as súplicas são inúteis, pois não alteram absolutamente nada.
2) Se Deus é onisciente e onipresente — se tudo vê, tudo sabe e está em todo lugar —, então não há necessidade de pedidos, nem de repetição, nem de insistência. A dor humana já estaria plenamente exposta a essa consciência absoluta. Se, mesmo assim, nada muda, restam duas
hipóteses: ou esse Deus não quer intervir, ou simplesmente
não pode.
3) Se nada acontece sem a vontade e o consentimento divino,
e se “tudo tem um propósito”, então até
a miséria teria propósito
e estaria devidamente autorizada pelo plano superior. Nesse caso, a lógica do
próprio crente exigiria resignação total: aceitar, suportar
e dizer “amém” — sem pedidos, sem lamento, sem revolta, nem desespero.
4) A conclusão mais racional é que esse
ser descrito como perfeitamente justo, infinitamente bom e moralmente superior,
do modo como costuma ser imaginado, não existe. E, se existisse, permitindo sistematicamente a dor
injusta, a fome, o abandono e o desespero, não poderia ser chamado de bom:
seria indiferente, injusto, cruel e desumano — exatamente
o oposto daquilo que se proclama nos púlpitos.
A consequência
prática dessa reflexão é direta: o
ser humano deveria investir em lucidez, responsabilidade e ação, e não
depositar a própria vida nas mãos de personagens divinos cuja
intervenção nunca se manifesta de forma verificável. Muitos
acabam sofrendo duas vezes: sofrem pela realidade dura e, em seguida, sofrem
pela expectativa frustrada de que o céu responderá.
Esse apego à fé automática raramente nasce de reflexão. Ele nasce de condicionamento precoce — de
uma catequização internalizada na infância e raramente revisada na maturidade. A pessoa cresce,
mas preserva o mecanismo mental: pede, espera, se resigna, repete. E quase
nunca busca libertação psicológica
desse padrão. Não por acaso, muitos jamais procuram auxílio real, inclusive com profissionais da psicanálise — que, em certos casos, também podem estar entre
as vítimas desse mesmo
condicionamento religioso sutil, persistente e socialmente normalizado.
Além disso, é preciso
reconhecer um fator histórico e cultural quase sempre ignorado: grande parte dessa
mentalidade não brotou espontaneamente da razão humana, mas foi herdada e transmitida
como tradição. Trata-se, em grande medida, do legado de uma cultura
colonizadora atrasada, que implantou suas fórmulas de obediência e culpa — e que,
por sua vez, já havia
copiado e adaptado elementos de tradições ainda mais antigas e rígidas, vindas do Oriente, reproduzindo mitos, hierarquias
e promessas sobrenaturais como instrumentos de controle social.
O preço
dessa estrutura é alto: tempo perdido, energia drenada, esperança consumida e uma existência inteira amarrada a promessas que não se cumprem, na
expectativa pela ação de um ser inexistente — ou, no mínimo, cego, surdo, mudo, imóvel e
indiferente ao sofrimento humano, como se a realidade punisse, com rigor, a
credulidade levada ao extremo.
Tristemente, constata-se que a cultura da reza — a oração como muleta emocional e mental — transformou-se
em um hábito social repetido
por tradição e medo: uma forma de terceirizar a própria
responsabilidade, de suspender a razão, e de trocar a ação concreta pela
esperança vazia de uma
intervenção sobrenatural que nunca chega.
A mente instruída que se ajoelha: inteligência sem liberdade
Por que pessoas com formação privilegiada em diferentes áreas do conhecimento relutam em se guiar pela lógica
e pela razão e, em vez disso, preferem curvar os joelhos diante da tradição e
dos dogmas, formando coro com a ignorância imposta pela fé — essa
comunicação mental com o NADA? Porque, na maioria das vezes, a fé não funciona apenas
como crença intelectual: ela
opera como estrutura emocional, social e identitária. Questionar dogmas tem custo: pode significar perder
aceitação, família, status e paz
superficial. Além
disso, o condicionamento da infância
permanece enraizado mesmo em mentes brilhantes, sustentado por medos básicos — da morte, do vazio, do julgamento e da própria
liberdade. A razão exige responsabilidade e ação; o dogma oferece conforto
imediato e explicações prontas. E, quando a fé ainda
rende prestígio moral, muitos
preferem parecer virtuosos a ser lúcidos. No fim, a tragédia é simples: há quem estude o mundo inteiro, mas nunca aprenda a libertar
a própria mente — e assim,
mesmo com diploma, acaba ajudando a manter viva a velha liturgia: a oração como
muleta e a submissão como virtude.
Razão: causa, efeito e responsabilidade
O cérebro humano não funciona por “percentuais mágicos” — ele está em atividade constante; o que varia é o modo como cada um usa a própria
mente. Uma mente desenvolvida observa,
relaciona causa e efeito, aprende, corrige e age; já uma mente acomodada prefere o atalho emocional da fé automática, repetindo fórmulas e
terceirizando a responsabilidade para o “invisível”.
O realista ora como poesia — não como súplica por intervenção.
___________
Comentários:
Tem lógica. Talvez o valor da prece seja para fins de
determinação individual. Também, a ciência
vem comprovando que o pensamento é carregado de energia verificável. E nossa mente é um HD com espaço ilimitado. – José Guedes,
Advogado
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