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Samuel Saraiva

Pedir ajuda a Deus com rezas e orações é subestimar sua onisciência

Quase sempre, a minoria que pensa e trabalha com lucidez puxa a reboque uma maioria embrutecida, que opta pela oração como muleta em vez de enfrentar a realidade com lógica, disciplina e ação prática.


Clamar por intervenção divina, ato ingênuo sem eficácia prática - Gente de Opinião
Clamar por intervenção divina, ato ingênuo sem eficácia prática

Quando observo uma pessoa profundamente religiosa vivendo na miséria ou atravessando uma situação difícil, muitas vezes originada de problemas que poderiam ter sido prevenidos ou resolvidos por meios concretos e, ainda assim, insistindo em pedir a Deus uma solução, sou levado a um exercício elementar de lógica. Um exercício que, apesar de simples, costuma ser evitado justamente porque ameaça o conforto emocional de certas crenças.

Que tal começar pelo óbvio? Se Deus é onisciente, por que insistir em suplicar, como se Ele não soubesse? A repetição da prece não revela necessariamente fé; muitas vezes, revela desconfiança na própria ideia de onisciência ou a necessidade psicológica de manter um ritual de dependência.

1) Se Deus existe e é justo e bom, como se explica a permanência do sofrimento? Ou esse sofrimento é “merecido” — o que torna a justiça divina moralmente questionável ou as súplicas são inúteis, pois não alteram absolutamente nada.

2)  Se Deus é onisciente e onipresente se tudo vê, tudo sabe e está em todo lugar , então não há necessidade de pedidos, nem de repetição, nem de insistência. A dor humana já estaria plenamente exposta a essa consciência absoluta. Se, mesmo assim, nada muda, restam duas hipóteses: ou esse Deus não quer intervir, ou simplesmente não pode.

3) Se nada acontece sem a vontade e o consentimento divino, e se tudo tem um propósito”, então até a miséria teria propósito e estaria devidamente autorizada pelo plano superior.  Nesse caso, a lógica do próprio crente exigiria resignação total: aceitar, suportar e dizer amém” — sem pedidos, sem lamento, sem revolta, nem desespero.

4) A conclusão mais racional é que esse ser descrito como perfeitamente justo, infinitamente bom e moralmente superior, do modo como costuma ser imaginado, não existe.  E, se existisse, permitindo sistematicamente a dor injusta, a fome, o abandono e o desespero, não poderia ser chamado de bom: seria indiferente, injusto, cruel e desumano exatamente o oposto daquilo que se proclama nos púlpitos.

A consequência prática dessa reflexão é direta: o ser humano deveria investir em lucidez, responsabilidade e ação, e não depositar a própria vida nas mãos de personagens divinos cuja intervenção nunca se manifesta de forma verificável. Muitos acabam sofrendo duas vezes: sofrem pela realidade dura e, em seguida, sofrem pela expectativa frustrada de que o céu responderá.

Esse apego à fé automática raramente nasce de reflexão. Ele nasce de condicionamento precoce de uma catequização internalizada na infância e raramente revisada na maturidade. A pessoa cresce, mas preserva o mecanismo mental: pede, espera, se resigna, repete. E quase nunca busca libertação psicológica desse padrão. Não por acaso, muitos jamais procuram auxílio real, inclusive com profissionais da psicanálise que, em certos casos, também podem estar entre as vítimas desse mesmo condicionamento religioso sutil, persistente e socialmente normalizado.

Além disso, é preciso reconhecer um fator histórico e cultural quase sempre ignorado: grande parte dessa mentalidade não brotou espontaneamente da razão humana, mas foi herdada e transmitida como tradição. Trata-se, em grande medida, do legado de uma cultura colonizadora atrasada, que implantou suas fórmulas de obediência e culpa e que, por sua vez, já havia copiado e adaptado elementos de tradições ainda mais antigas e rígidas, vindas do Oriente, reproduzindo mitos, hierarquias e promessas sobrenaturais como instrumentos de controle social.

O preço dessa estrutura é alto: tempo perdido, energia drenada, esperança consumida e uma existência inteira amarrada a promessas que não se cumprem, na expectativa pela ação de um ser inexistente ou, no mínimo, cego, surdo, mudo, imóvel e indiferente ao sofrimento humano, como se a realidade punisse, com rigor, a credulidade levada ao extremo.

Tristemente, constata-se que a cultura da reza a oração como muleta emocional e mental transformou-se em um hábito social repetido por tradição e medo: uma forma de terceirizar a própria responsabilidade, de suspender a razão, e de trocar a ação concreta pela esperança vazia de uma intervenção sobrenatural que nunca chega.

A mente instruída que se ajoelha: inteligência sem liberdade

Por que pessoas com formação privilegiada em diferentes áreas do conhecimento relutam em se guiar pela lógica e pela razão e, em vez disso, preferem curvar os joelhos diante da tradição e dos dogmas, formando coro com a ignorância imposta pela fé — essa comunicação mental com o NADA? Porque, na maioria das vezes, a fé não funciona apenas como crença intelectual: ela opera como estrutura emocional, social e identitária. Questionar dogmas tem custo: pode significar perder aceitação, família, status e paz superficial. Além disso, o condicionamento da infância permanece enraizado mesmo em mentes brilhantes, sustentado por medos básicos da morte, do vazio, do julgamento e da própria liberdade. A razão exige responsabilidade e ação; o dogma oferece conforto imediato e explicações prontas. E, quando a fé ainda rende prestígio moral, muitos preferem parecer virtuosos a ser lúcidos. No fim, a tragédia é simples: quem estude o mundo inteiro, mas nunca aprenda a libertar a própria mente e assim, mesmo com diploma, acaba ajudando a manter viva a velha liturgia: a oração como muleta e a submissão como virtude.

Razão: causa, efeito e responsabilidade

O cérebro humano não funciona por percentuais mágicos” — ele está em atividade constante; o que varia é o modo como cada um usa a própria mente. Uma mente desenvolvida observa, relaciona causa e efeito, aprende, corrige e age; já uma mente acomodada prefere o atalho emocional da fé automática, repetindo fórmulas e terceirizando a responsabilidade para o invisível”.

O realista ora como poesia não como súplica por intervenção.

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Comentários:

Tem lógica. Talvez o valor da prece seja para fins de determinação individual. Também, a ciência vem comprovando que o pensamento é carregado de energia verificável. E nossa mente é um HD com espaço ilimitado. – José Guedes, Advogado

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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