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Samuel Saraiva

O que criminosos e simpatizantes chamam de “dedurismo”, o sistema legal entende como cooperação para que a justiça seja feita


O que criminosos e simpatizantes chamam de “dedurismo”, o sistema legal entende como cooperação para que a justiça seja feita - Gente de Opinião

O artigo  entitulado Delação premiada ou dedurismo? tenta revestir de crítica moral aquilo que, na prática, soa como uma defesa indireta do silêncio criminoso. Ao confundir delação premiadaum instrumento legal reconhecido e essencial no combate ao crime organizado com o pejorativo dedurismo”, o autor revela mais do que uma opinião: expõe uma visão condescendente com a lógica do submundo, onde a lealdade entre criminosos vale mais do que a justiça.

A argumentação se apoia em uma inversão perigosa: transforma quem colabora com a Justiça em figura moralmente inferior, enquanto, de forma implícita, preserva o código de honra” entre corruptos. Esse raciocínio não apenas ignora a realidade dos sistemas jurídicos modernos, como também flerta com a cultura da impunidade, onde crimes só prosperam porque há silêncio, proteção mútua e medo de exposição.

Ao recorrer a exemplos históricos e analogias religiosas, o autor tenta dar peso emocional à sua tese, mas acaba reforçando uma narrativa ultrapassada típica de ambientes onde denunciar crimes é visto como traição, e não como um ato de responsabilidade social.

Mas é preciso ir além: o crime não prospera apenas no silêncio entre comparsas, tendo como torcida aqueles que os simpatizam.  Ele também se fortalece no corporativismo que blinda a hipocrisia de certos homens togados, que, ao mesmo tempo em que condenam criminosos comuns, podem em alguns casos participar, tolerar ou encobrir desvios de proporções muito maiores. Trata-se de uma contradição grave, uma aberração que afronta o próprio império da lei.

o há justiça possível quando aqueles incumbidos de aplicá-la se colocam acima dela. Quando isso ocorre, o sistema deixa de ser instrumento de equilíbrio e passa a operar como mecanismo seletivo de punição, protegendo uns e sacrificando outros.

Esses desvios não podem ser tratados como exceção tolerável. São falhas estruturais graves, verdadeiras laranjas podres” dentro do sistema legal, que comprometem a credibilidade de toda a instituição.

Se não houver responsabilização penal, que ao menos haja consequência institucional: afastamento definitivo, perda de prerrogativas e fim de aposentadorias privilegiadas. Porque justiça que não alcança a todos especialmente os que deveriam garanti-la deixa de ser justiça e passa a ser apenas aparência.

No fundo, o texto criticado não enfrenta o problema da corrupção com profundidade critica o mecanismo que permite desvendá-la. E isso diz muito. Porque quando se desqualifica a cooperação com a Justiça, o que se está fazendo, ainda que indiretamente, é proteger o ambiente onde o crime se organiza, se fortalece e permanece oculto.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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