Segunda-feira, 16 de março de 2026 - 07h52

Às vezes, uma simples
fotografia revela mais sobre a história humana do que muitos tratados de economia ou política.
Em uma viagem a Santarém, cidade situada no
oeste do Pará, fotografei alguns
barcos ancorados às margens do rio
Tapajós, nas proximidades da Taberna, restaurante simples e
tradicional de propriedade da Sra. Andria Martins, conhecido entre moradores e
viajantes pelo tempero inigualável
de sua comida popular.
Naquele momento, a cena parecia apenas mais um retrato
cotidiano da vida ribeirinha amazônica.
Tempos depois, ao rever essas imagens, encontrei também uma fotografia que
havia tirado no verão passado em um píer de Washington, DC, às margens do rio Potomac.
A comparação surgiu quase de forma inevitável.
À primeira
vista, eram apenas barcos ancorados em dois rios distantes.
Mas, observadas com atenção, aquelas
imagens revelavam algo muito maior: dois mundos ancorados em margens diferentes
da mesma civilização.
Às margens do Tapajós
Na vastidão amazônica, os barcos não representam lazer.
Representam necessidade.
Ali, o rio substitui a estrada que nunca foi construída; o barco substitui o ônibus que nunca chegou; e o motor simples que ecoa sobre
a água cumpre a função
de conectar comunidades inteiras ao mundo exterior.
Há nisso algo profundamente humano e admirável. Atraídos
pela força cultural e pela
presença vital das águas, muitos jovens se lançam desde cedo a desbravá-las, assumindo riscos que a própria
sobrevivência exige e
antecipando, com coragem silenciosa, uma valiosa contribuição ao seu povo.
Entre eles recordo Artur, um jovem a quem conheci naquela ocasião, exemplo vivo desse desprendimento
e dessa vocação quase instintiva que nasce nas margens dos rios. Em sua atitude
simples revelava-se algo maior do que o próprio
gesto de navegar: o sentido precoce de responsabilidade de quem aprende, ainda
muito cedo, que o rio não é apenas paisagem — é caminho, sustento e destino
compartilhado de toda uma comunidade.
Essas embarcações transportam muito mais que pessoas.
Transportam crianças em busca de escolas distantes, animais em épocas de enchente,
produtos alimentícios, doentes que
precisam alcançar atendimento médico que muitas vezes
se encontra a horas — ou dias — de viagem, além de mercadorias e histórias de
vida que atravessam gerações.
Cada casco gasto, cada pintura refeita à mão, cada adaptação improvisada revela algo profundamente humano:
a capacidade de resistir quando a infraestrutura, a educação e a tecnologia
chegam tarde — ou simplesmente não chegam.
Ali, o barco não é escolha.
É sobrevivência.
O rio não é paisagem.
É caminho.
Às margens do Potomac
Em Washington, DC, o barco possui outro significado.
Ali, ele não carrega a urgência da sobrevivência, mas o privilégio do tempo livre.
Equipado com tecnologia sofisticada, conforto e design
refinado, o barco torna-se extensão do lazer, do descanso e da liberdade
individual de navegar simplesmente por prazer.
A marina organizada, a infraestrutura urbana ao redor e a
tranquilidade das águas revelam uma
realidade em que educação, tecnologia e prosperidade acumuladas ao longo de séculos transformaram o
rio em cenário de contemplação.
Ali, o barco não representa necessidade.
Representa escolha.
O antagonismo silencioso
À primeira
vista, são apenas embarcações.
Mas, na verdade, são símbolos de dois momentos distintos da experiência humana.
Em um lugar, o barco compensa aquilo que o desenvolvimento
ainda não entregou: estradas, hospitais, escolas e infraestrutura básica.
No outro, celebra aquilo que o desenvolvimento já permitiu conquistar: estabilidade, tecnologia, conforto e
tempo disponível.
Ambos flutuam sobre a mesma água.
Mas entre eles existe uma distância maior que qualquer oceano: a distância entre necessidade e privilégio, entre sobrevivência e lazer, entre improviso e abundância.
Centro e periferia do poder
O Tapajós corre
no coração da Amazônia — uma das regiões naturais mais ricas do planeta,
paradoxalmente também violada, poluída e descuidada, seja por ignorância cidadã, seja pela negligência do Estado brasileiro.
Ali, a abundância de água
que integra a maior bacia hidrográfica do planeta convive com a falta de água potável
em períodos de cheia extrema
ou de seca severa. A biodiversidade extraordinária e os imensos recursos naturais coexistem com
infraestrutura precária, acesso limitado à educação, serviços
públicos insuficientes
e um crônico descaso com os
cidadãos.
Esse paradoxo não nasce da natureza.
Nasce da história.
Regiões como
a Amazônia permaneceram
durante séculos
distantes dos grandes centros de decisão política e econômica. Tornaram-se, muitas vezes, periferias da história — mesmo
sendo centrais para o equilíbrio
ambiental do planeta.
Washington, DC, por outro lado, é um dos
epicentros do poder global.
Ali se concentram instituições federais, centros de
pesquisa, universidades de ponta e decisões
políticas que influenciam
o mundo inteiro.
O rio Potomac atravessa uma cidade que participa
diretamente da formulação de políticas globais.
O Tapajós
atravessa uma região que, além de não participar dessas decisões, continua submetida às pressões do
abandono federal e estadual — abandono esse lembrado pelas elites políticas apenas em períodos eleitorais.
O contraste invisível
Assim, as duas imagens revelam algo quase simbólico.
Um rio atravessa o coração da floresta.
O outro atravessa o coração do poder
mundial.
A água é a mesma
substância natural:
evapora, forma nuvens, cai como chuva e retorna aos rios do planeta.
A natureza não distingue Tapajós de
Potomac.
Mas a civilização construiu realidades profundamente
diferentes ao redor dessas águas.
A lição
escondida nas duas imagens
Talvez a maior lição dessas fotografias seja simples:
A natureza oferece rios a todos.
Mas é a história
humana que decide como cada sociedade navegará sobre eles.
O contraste entre esses barcos não revela duas
humanidades diferentes.
Revela apenas duas histórias que
seguiram caminhos distintos e hoje existem em realidades profundamente
desiguais.
Em um lugar, o rio continua sendo estrada.
No outro, tornou-se paisagem.
Ambos, porém, pertencem à mesma humanidade.
E talvez seja exatamente essa a reflexão mais
inquietante:
a água é a mesma — o que muda
é a história que cada sociedade construiu ao redor dela, bem como
o grau de consciência e
responsabilidade com que decide cuidar desse patrimônio comum.
Às vezes, um rio
revela mais sobre a história humana do que muitos livros.
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