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Gente de Opinião

Samuel Saraiva

Criador e criatura: o homem diante do espelho de suas próprias ficções


Criador e criatura: o homem diante do espelho de suas próprias ficções - Gente de Opinião

Quando a humanidade inventa Deus para mandar, o Diabo para culpar e chama essa conveniência de fé — lucrando alto com dividendos prometidos no além, enquanto opera uma falência moral generalizada no aquém.

 

O homem criou dois conceitos extremamente operacionais para organizar, justificar e normatizar a própria existência: o bem e o mal. Para dar corpo e viabilidade comercial a essas abstrações, atribuiu-lhes figuras caricatas e surrealistas: Deus e o Diabo. Nessa engenharia mental, reside a mais perfeita definição da nossa natureza: o homem foi incapaz de aceitar sua própria mediocridade e, por isso, preferiu povoar o cosmos com deuses e demônios feitos à sua imagem, semelhança e, principalmente, à altura de suas covardias.

O primeiro, apresentado sob o selo da onipotência e da misericórdia infinita, ensina o perdão eterno, desde que precedido por uma submissão absoluta. É descrito como o monarca supremo do universo, mas padece de uma carência quase infantil por aplausos, exigindo adoração em tempo integral e rituais de bajulação para não descarregar sua ira.

Curiosamente, esa mesma divindade mantém um silêncio obsequioso e uma ausência cirúrgica no plano material. No se manifesta para salvar seus fiéis más devotos, las niños indefensos o los animales sometidos a crueldades brutales. Ainda assim, a engenhosidade humana consegue a proeza de culpar a própria vítima: se o milagre acontece, louvado seja Deus; se a tragédia se consolida, "os desígnios Dele são misteriosos". É a única corporação do mundo cujo gerente nunca aparece, mas os clientes continuam defendendo a empresa e pagando a mensalidade pontualmente. Exige-se fé diante do vácuo, obediência diante do abandono e gratidão por uma realidade onde a dor só é aliviada se o próprio homem mover um dedo.

O segundo personagem, o Diabo, foi escalado para o papel mais ingrato e útil de todos: o bode expiatório cósmico. O Diabo é, sem dúvida, o funcionário do ano da psique humana, pois carrega nas costas o fardo de todas as canalhices que o homem pratica por livre e espontânea vontade. Tornou-se o depósito alfandegário da nossa culpa. Se o indivíduo fraqueja diante de seus impulsos mais primitivos, ele não assume a responsabilidade; ele se declara "vítima da tentação", terceirizando o livre-arbítrio no primeiro sinal de tempestade.

A ironia atinge o ápice da lógica quando percebemos que o suposto mal absoluto acabou sendo transformado, pelo comportamento humano, em um personagem de uma ética e elegância admiráveis. Afinal, mesmo sendo pintado como o mestre da vingança e do poder, o Diabo nunca desceu para processar a humanidade por difamação, apesar de ser culpado diariamente por cada mentira, crime e perversidade que os humanos inventam.

Ele carrega esse lixo moral em silêncio. O Diabo é um personagem incrivelmente econômico e pouco exigente: não cobra dízimo, não exige a construção de catedrais suntuosas, não instituiu uma cláusula de adoração obrigatória e nem montou franquias de exploração do medo. Não promete uma salvação burocrática e nem ameaça com torturas eternas — tarefa que, ironicamente, a própria indústria da fé já executa com maestria e tabelas de preços bem definidas.

Nesse paradoxo conveniente, injusto e vergonhoso, o Diabo acaba demonstrando uma integridade muito superior à de seus criadores: afinal, ao contrário do homem, jamais se teve notícia de que ele tenha tentado terceirizar suas maldades ou atribuído a culpa de seus atos àqueles que o acusam. Ele aceita o papel que lhe deram em silêncio, enquanto a humanidade peca, joga a culpa no escuro e corre para o altar para pedir desconto na punição. Nesse cenário, o Diabo é o personagem mais injustiçado da literatura humana: foi condenado a ser a sombra do homem, para que o homem possa continuar mentindo para si mesmo diante do espelho, jurando que é um ser de luz.

Com essa mecânica, a humanidade realizou sua maior obra-prima: uma narrativa circular onde ela mesma se peca, ela mesma se culpa, ela mesma se perdoa e, no processo, financia uma das indústrias monopolistas mais lucrativas da história. Multidões são domesticadas desde o berço por barreiras geográficas e culturais; se nascem na Índia, adoram um deus; se nascem no Ocidente, adoram outro, mas todos com a mesma certeza absoluta de que o vizinho está redondamente enganado. Essas fantasias atravessam séculos não porque resistem a um minuto de lógica, mas porque o medo da morte e a necessidade de anestesia existencial são mais fortes do que o apetite pela verdade.

No fundo, Deus e o Diabo são apenas o hemisfério direito e esquerdo do egoísmo humano: o desejo neurótico de controle e pureza de um lado; a incapacidade de domar os próprios instintos do outro.

Somos o animal simbólico que arquitetou o céu como um seguro-viagem contra a morte e projetou o inferno como um chicote psicológico para disciplinar os vivos. Fabricamos monstros para explicar nossos desvios e esculpimos deuses para carimbar e validar nossas ambições de poder.

Enquanto essa engrenagem de ilusões autossustentáveis permanecer intacta, a humanidade continuará operando nesse teatro de marionetes cósmico. Continuaremos chamando o cabresto de consciência, a servidão espiritual de virtude e o delírio coletivo de verdade — adiando por tempo indeterminado o dia em que, finalmente, teremos a coragem de andar com as nossas próprias e autênticas pernas racionais.

English

 

Creator and Creature: Man Before the Mirror of His Own Fictions

 

By Samuel Saraiva

When humanity invents God to command, the Devil to blame, and calls this convenience faith—reaping high profits from dividends promised in the hereafter, while operating a generalized moral bankruptcy in the here and now.

 

Man created two highly operational concepts to organize, justify, and standardize his own existence: good and evil. To give these abstractions substance and commercial viability, he assigned them caricatured and surreal figures: God and the Devil. Within this mental engineering lies the most perfect definition of our nature: man was incapable of accepting his own mediocrity and, therefore, preferred to populate the cosmos with gods and demons made in his own image, likeness, and, above all, to the measure of his cowardice.

The first, presented under the seal of omnipotence and infinite mercy, teaches eternal forgiveness, provided it is preceded by absolute submission. He is described as the supreme monarch of the universe, yet he suffers from an almost childish craving for applause, demanding full-time worship and sycophantic rituals just to keep from unleashing his wrath.

Curiously, this very deity maintains an obsequious silence and a surgical absence in the material plane. He does not manifest to save his most devout faithful, defenseless children, or animals subjected to brutal cruelties. Even so, human ingenuity achieves the feat of blaming the victim: if a miracle happens, praise be to God; if tragedy consolidates, "His ways are mysterious." It is the only corporation in the world whose manager never shows up, yet the customers keep defending the company and paying their monthly dues punctually. Faith is demanded in the face of the vacuum, obedience in the face of abandonment, and gratitude for a reality where pain is only alleviated if man himself moves a finger.

The second character, the Devil, was cast in the most thankless and useful role of all: the cosmic scapegoat. The Devil is, without a doubt, the employee of the year of the human psyche, for he carries on his back the burden of every villainy that man commits of his own free will. He became the bonded warehouse for our guilt. If an individual weakens before his most primitive impulses, he does not take responsibility; he declares himself a "victim of temptation," outsourcing free will at the first sign of a storm.

The irony reaches the pinnacle of logic when we realize that the supposed absolute evil ended up being transformed, by human behavior, into a character of admirable ethics and elegance. After all, despite being painted as the master of vengeance and power, the Devil never came down to sue humanity for defamation, even though he is blamed daily for every lie, crime, and perversity that humans invent.

He carries this moral garbage in silence. The Devil is an incredibly economical and low-maintenance character: he does not collect tithes, does not demand the construction of sumptuous cathedrals, did not institute a mandatory worship clause, and has not set up franchises to exploit fear. He does not promise a bureaucratic salvation, nor does he threaten with eternal torture—a task that, ironically, the faith industry itself already executes with mastery and well-defined price lists.

In this convenient, unfair, and shameful paradox, the Devil ends up demonstrating an integrity far superior to that of his creators: after all, unlike man, it has never been reported that he has tried to outsource his wicked deeds or attributed the blame for his actions to those who accuse him. He accepts the role he was given in silence, while humanity sins, throws the blame into the dark, and runs to the altar to beg for a discount on the punishment. In this scenario, the Devil is the most wronged character in human literature: he was condemned to be man's shadow, so that man can keep lying to himself in front of the mirror, swearing he is a being of light.

Through this mechanics, humanity achieved its greatest masterpiece: a circular narrative where it sins by itself, blames itself, forgives itself, and, in the process, finances one of the most lucrative monopoly industries in history. Multitudes are domesticated from the cradle by geographical and cultural barriers; if born in India, they worship one god; if born in the West, they worship another, yet all with the same absolute certainty that their neighbor is roundly mistaken. These fantasies cross centuries not because they withstand a minute of logic, but because the fear of death and the need for existential anesthesia are stronger than the appetite for truth.

At its core, God and the Devil are merely the right and left hemispheres of human selfishness: the neurotic desire for control and purity on one side; the inability to tame one's own instincts on the other.

We are the symbolic animal that engineered heaven as a travel insurance against death and projected hell as a psychological whip to discipline the living. We manufacture monsters to explain our deviations and sculpt gods to stamp and validate our ambitions of power.

As long as this gear of self-sustaining illusions remains intact, humanity will continue to operate in this cosmic puppet theater. We will keep calling the halter conscience, spiritual servitude virtue, and collective delusion truth—postponing indefinitely the day when, finally, we will have the courage to walk on our own authentic, rational legs.

Español

 

Creador y criatura: el hombre ante el espejo de sus propias ficciones

 

Por Samuel Saraiva

 

Cuando la humanidad inventa a Dios para mandar, al Diablo para culpar y llama a esa conveniencia fe lucrando alto con dividendos prometidos en el más allá, mientras opera una quiebra moral generalizada en el más acá.

 

El hombre creó dos conceptos extremadamente operativos para organizar, justificar y normar su propia existencia: el bien y el mal. Para dar cuerpo y viabilidad comercial a estas abstracciones, les atribuyó figuras caricaturescas y surrealistas: Dios y el Diablo. En esa ingeniería mental reside la más perfecta definición de nuestra naturaleza: el hombre fue incapaz de aceptar su propia mediocridad y, por ello, prefirió poblar el cosmos con dioses y demonios hechos a su imagen, semejanza y, principalmente, a la altura de sus cobardías.

El primero, presentado bajo el sello de la omnipotencia y la misericordia infinita, enseña el perdón eterno, siempre que sea precedido por una sumisión absoluta. Es descrito como el monarca supremo del universo, pero padece de una carencia casi infantil de aplausos, exigiendo adoración a tiempo completo y rituales de adulación para no descargar su ira.

Curiosamente, esa misma divinidad mantiene un silencio obsequioso y una ausencia quirúrgica en el plano material. No se manifiesta para salvar a sus fieles más devotos, a los niños indefensos o a los animales sometidos a crueldades brutales. Aun así, la ingeniosidad humana logra la proeza de culpar a la propia víctima: si el milagro ocurre, alabado sea Dios; si la tragedia se consolida, "los designios de Él son misteriosos". Es la única corporación del mundo cuyo gerente nunca aparece, pero los clientes siguen defendiendo a la empresa y pagando la mensualidad puntualmente. Se exige fe ante el vacío, obediencia ante el abandono y gratitud por una realidad donde el dolor solo se alivia si el propio hombre mueve un dedo.

El segundo personaje, el Diablo, fue seleccionado para el papel más ingrato y útil de todos: el chivo expiatorio cósmico. El Diablo es, sin duda, el empleado del año de la psique humana, pues carga en sus espaldas con el fardo de todas las canalladas que el hombre practica por libre y espontánea voluntad. Se convirtió en el depósito aduanero de nuestra culpa. Si el individuo flaquea ante sus impulsos más primitivos, no asume la responsabilidad; se declara "víctima de la tentación", tercerizando el libre albedrío al primerizo signo de tormenta.

La ironía alcanza el ápice de la lógica cuando nos damos cuenta de que el supuesto mal absoluto terminó siendo transformado, por el comportamiento humano, en un personaje de una ética y elegancia admirables. Al fin y al cabo, a pesar de ser pintado como el maestro de la venganza y del poder, el Diablo nunca bajó a demandar a la humanidad por difamación, a pesar de ser culpado diariamente por cada mentira, crimen y perversidad que los humanos inventan.

Él carga con esa basura moral en silencio. El Diablo es un personaje increíblemente económico y poco exigente: no cobra diezmo, no exige la construcción de catedrales suntuosas, no instituyó una cláusula de adoración obligatoria ni montó franquicias de explotación del miedo. No promete una salvación burocrática ni amenaza con torturas eternas —tarea que, irónicamente, la propia industria de la fe ya ejecuta con maestría y tablas de precios bien definidas.

En este paradoja conveniente, injusto y vergonzoso, el Diablo termina demostrando una integridad muy superior a la de sus creadores: al fin y al cabo, a diferencia del hombre, jamás se ha tenido noticia de que haya intentado tercerizar sus maldades o atribuido la culpa de sus actos a quienes lo acusan. Él acepta el papel que le dieron en silencio, mientras la humanidad peca, echa la culpa a la oscuridad y corre al altar para pedir un descuento en la punición. En este escenario, el Diablo es el personaje más injusticiado de la literatura humana: fue condenado a ser la sombra del hombre, para que el hombre pueda seguir mintiéndose a sí mismo ante el espejo, jurando que es un ser de luz.

Con esta mecánica, la humanidad realizó su mayor obra maestra: una narrativa circular donde ella misma peca, ella misma se culpa, ella misma se perdona y, en el proceso, financia una de las industrias monopolísticas más lucrativas de la historia. Multitudes son domesticadas desde la cuna por barreras geográficas y culturales; si nacen en la India, adoran a un dios; si nacen en Occidente, adoran a otro, pero todos con la misma certeza absoluta de que el vecino está redondamente equivocado. Estas fantasías atraviesan siglos no porque resistan un minuto de lógica, sino porque el miedo a la muerte y la necesidad de anestesia existencial son más fuertes que el apetito por la verdad.

En el fondo, Dios y el Diablo son solo el hemisferio derecho e izquierdo del egoísmo humano: el deseo neurótico de control y pureza de un lado; la incapacidad de domar los propios instintos del otro.

Somos el animal simbólico que arquitecturó el cielo como un seguro de viaje contra la muerte y proyectó el infierno como un látigo psicológico para disciplinar a los vivos. Fabricamos monstruos para explicar nuestros desvíos y esculpimos dioses para sellar y validar nuestras ambiciones de poder.

Mientras este engranaje de ilusiones autosustentables permanezca intacto, la humanidad continuará operando en este teatro de marionetas cósmico. Continuaremos llamando al cabestro conciencia, a la servidumbre espiritual virtud y al delirio colectivo verdad —postergando por tiempo indeterminado el día en que, finalmente, tengamos la valentía de caminar con nuestras propias y auténticas piernas racionales.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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