Sexta-feira, 3 de julho de 2026 - 13h52

Quando
a humanidade inventa Deus para mandar, o Diabo para culpar e chama essa conveniência
de fé — lucrando alto com dividendos prometidos no além, enquanto opera uma
falência moral generalizada no aquém.
O homem criou
dois conceitos extremamente operacionais para organizar, justificar e
normatizar a própria existência: o bem e o mal. Para dar corpo e viabilidade
comercial a essas abstrações, atribuiu-lhes figuras caricatas e surrealistas:
Deus e o Diabo. Nessa engenharia mental, reside a mais perfeita definição da
nossa natureza: o homem foi incapaz de aceitar sua própria mediocridade e,
por isso, preferiu povoar o cosmos com deuses e demônios feitos à sua imagem,
semelhança e, principalmente, à altura de suas covardias.
O primeiro,
apresentado sob o selo da onipotência e da misericórdia infinita, ensina o perdão
eterno, desde que precedido por uma submissão absoluta. É descrito como o
monarca supremo do universo, mas padece de uma carência quase infantil por
aplausos, exigindo adoração em tempo integral e rituais de bajulação para não
descarregar sua ira.
Curiosamente,
esa mesma divindade mantém um silêncio obsequioso e uma ausência cirúrgica no
plano material. No se manifesta para salvar seus fiéis más devotos, las niños
indefensos o los animales sometidos a crueldades brutales. Ainda assim, a
engenhosidade humana consegue a proeza de culpar a própria vítima: se o milagre
acontece, louvado seja Deus; se a tragédia se consolida, "os desígnios
Dele são misteriosos". É a única corporação do mundo cujo gerente
nunca aparece, mas os clientes continuam defendendo a empresa e pagando a
mensalidade pontualmente. Exige-se fé diante do vácuo, obediência diante do
abandono e gratidão por uma realidade onde a dor só é aliviada se o próprio
homem mover um dedo.
O segundo
personagem, o Diabo, foi escalado para o papel mais ingrato e útil de todos: o
bode expiatório cósmico. O Diabo é, sem dúvida, o funcionário do ano da
psique humana, pois carrega nas costas o fardo de todas as canalhices que o
homem pratica por livre e espontânea vontade. Tornou-se o depósito alfandegário
da nossa culpa. Se o indivíduo fraqueja diante de seus impulsos mais
primitivos, ele não assume a responsabilidade; ele se declara "vítima da
tentação", terceirizando o livre-arbítrio no primeiro sinal de tempestade.
A ironia
atinge o ápice da lógica quando percebemos que o suposto mal absoluto acabou
sendo transformado, pelo comportamento humano, em um personagem de uma ética e
elegância admiráveis. Afinal, mesmo sendo pintado como o mestre da vingança e
do poder, o Diabo nunca desceu para processar a humanidade por difamação,
apesar de ser culpado diariamente por cada mentira, crime e perversidade que os
humanos inventam.
Ele carrega
esse lixo moral em silêncio. O Diabo é um personagem incrivelmente econômico e
pouco exigente: não cobra dízimo, não exige a construção de catedrais
suntuosas, não instituiu uma cláusula de adoração obrigatória e nem montou
franquias de exploração do medo. Não promete uma salvação burocrática e nem
ameaça com torturas eternas — tarefa que, ironicamente, a própria indústria da
fé já executa com maestria e tabelas de preços bem definidas.
Nesse paradoxo
conveniente, injusto e vergonhoso, o Diabo acaba demonstrando uma integridade
muito superior à de seus criadores: afinal, ao contrário do homem, jamais se
teve notícia de que ele tenha tentado terceirizar suas maldades ou atribuído a
culpa de seus atos àqueles que o acusam. Ele aceita o
papel que lhe deram em silêncio, enquanto a humanidade peca, joga a culpa no
escuro e corre para o altar para pedir desconto na punição. Nesse cenário, o
Diabo é o personagem mais injustiçado da literatura humana: foi condenado a ser
a sombra do homem, para que o homem possa continuar mentindo para si mesmo
diante do espelho, jurando que é um ser de luz.
Com essa mecânica,
a humanidade realizou sua maior obra-prima: uma narrativa circular onde ela
mesma se peca, ela mesma se culpa, ela mesma se perdoa e, no processo, financia
uma das indústrias monopolistas mais lucrativas da história. Multidões são
domesticadas desde o berço por barreiras geográficas e culturais; se nascem na Índia,
adoram um deus; se nascem no Ocidente, adoram outro, mas todos com a mesma
certeza absoluta de que o vizinho está redondamente enganado. Essas fantasias
atravessam séculos não porque resistem a um minuto de lógica, mas porque o medo
da morte e a necessidade de anestesia existencial são mais fortes do que o
apetite pela verdade.
No fundo, Deus
e o Diabo são apenas o hemisfério direito e esquerdo do egoísmo humano: o
desejo neurótico de controle e pureza de um lado; a incapacidade de domar os próprios
instintos do outro.
Somos o animal
simbólico que arquitetou o céu como um seguro-viagem contra a morte e projetou
o inferno como um chicote psicológico para disciplinar os vivos.
Fabricamos monstros para explicar nossos desvios e esculpimos deuses para
carimbar e validar nossas ambições de poder.
Enquanto essa
engrenagem de ilusões autossustentáveis permanecer intacta, a humanidade
continuará operando nesse teatro de marionetes cósmico. Continuaremos
chamando o cabresto de consciência, a servidão espiritual de virtude e o delírio
coletivo de verdade — adiando por tempo indeterminado o dia em que,
finalmente, teremos a coragem de andar com as nossas próprias e autênticas
pernas racionais.
—
◆ —
English
Creator and
Creature: Man Before the Mirror of His Own Fictions
By Samuel Saraiva
When
humanity invents God to command, the Devil to blame, and calls this convenience
faith—reaping high profits from dividends promised in the hereafter, while
operating a generalized moral bankruptcy in the here and now.
Man created
two highly operational concepts to organize, justify, and standardize his own
existence: good and evil. To give these abstractions substance and commercial
viability, he assigned them caricatured and surreal figures: God and the Devil.
Within this mental engineering lies the most perfect definition of our nature: man
was incapable of accepting his own mediocrity and, therefore, preferred to
populate the cosmos with gods and demons made in his own image, likeness, and,
above all, to the measure of his cowardice.
The first,
presented under the seal of omnipotence and infinite mercy, teaches eternal
forgiveness, provided it is preceded by absolute submission. He is described
as the supreme monarch of the universe, yet he suffers from an almost childish
craving for applause, demanding full-time worship and sycophantic rituals just
to keep from unleashing his wrath.
Curiously,
this very deity maintains an obsequious silence and a surgical absence in the
material plane. He does not manifest to save his most devout faithful,
defenseless children, or animals subjected to brutal cruelties. Even so,
human ingenuity achieves the feat of blaming the victim: if a miracle happens,
praise be to God; if tragedy consolidates, "His ways are mysterious."
It is the only corporation in the world whose manager never shows up, yet the
customers keep defending the company and paying their monthly dues punctually.
Faith is demanded in the face of the vacuum, obedience in the face of
abandonment, and gratitude for a reality where pain is only alleviated if man
himself moves a finger.
The second
character, the Devil, was cast in the most thankless and useful role of all:
the cosmic scapegoat. The Devil is, without a doubt, the employee of the
year of the human psyche, for he carries on his back the burden of every
villainy that man commits of his own free will. He became the bonded
warehouse for our guilt. If an individual weakens before his most primitive
impulses, he does not take responsibility; he declares himself a "victim
of temptation," outsourcing free will at the first sign of a storm.
The irony
reaches the pinnacle of logic when we realize that the supposed absolute evil
ended up being transformed, by human behavior, into a character of admirable
ethics and elegance. After all, despite being painted as the master of
vengeance and power, the Devil never came down to sue humanity for defamation,
even though he is blamed daily for every lie, crime, and perversity that humans
invent.
He carries
this moral garbage in silence. The Devil is an incredibly economical and
low-maintenance character: he does not collect tithes, does not demand the
construction of sumptuous cathedrals, did not institute a mandatory worship
clause, and has not set up franchises to exploit fear. He does not promise a
bureaucratic salvation, nor does he threaten with eternal torture—a task that,
ironically, the faith industry itself already executes with mastery and
well-defined price lists.
In this
convenient, unfair, and shameful paradox, the Devil ends up demonstrating an
integrity far superior to that of his creators: after all, unlike man, it has
never been reported that he has tried to outsource his wicked deeds or attributed
the blame for his actions to those who accuse him. He accepts
the role he was given in silence, while humanity sins, throws the blame into
the dark, and runs to the altar to beg for a discount on the punishment. In
this scenario, the Devil is the most wronged character in human literature:
he was condemned to be man's shadow, so that man can keep lying to himself in
front of the mirror, swearing he is a being of light.
Through this
mechanics, humanity achieved its greatest masterpiece: a circular narrative
where it sins by itself, blames itself, forgives itself, and, in the process,
finances one of the most lucrative monopoly industries in history.
Multitudes are domesticated from the cradle by geographical and cultural
barriers; if born in India, they worship one god; if born in the West, they
worship another, yet all with the same absolute certainty that their neighbor
is roundly mistaken. These fantasies cross centuries not because they withstand
a minute of logic, but because the fear of death and the need for existential
anesthesia are stronger than the appetite for truth.
At its core,
God and the Devil are merely the right and left hemispheres of human
selfishness: the neurotic desire for control and purity on one side; the
inability to tame one's own instincts on the other.
We are the
symbolic animal that engineered heaven as a travel insurance against death and
projected hell as a psychological whip to discipline the living. We
manufacture monsters to explain our deviations and sculpt gods to stamp and
validate our ambitions of power.
As long as
this gear of self-sustaining illusions remains intact, humanity will continue
to operate in this cosmic puppet theater. We will keep calling the halter
conscience, spiritual servitude virtue, and collective delusion truth—postponing
indefinitely the day when, finally, we will have the courage to walk on our own
authentic, rational legs.
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◆ —
Español
Creador y criatura: el hombre ante el espejo de sus
propias ficciones
Por Samuel Saraiva
Cuando la humanidad inventa a Dios para mandar, al
Diablo para culpar y llama a esa conveniencia fe — lucrando alto con dividendos prometidos en el más allá, mientras opera una quiebra moral generalizada en el más acá.
El hombre creó
dos conceptos extremadamente operativos para organizar, justificar y normar su
propia existencia: el bien y el mal. Para dar cuerpo y viabilidad comercial a
estas abstracciones, les atribuyó figuras caricaturescas y surrealistas: Dios y
el Diablo. En esa ingeniería mental reside la más perfecta definición de
nuestra naturaleza: el hombre fue incapaz de aceptar su propia mediocridad
y, por ello, prefirió poblar el cosmos con dioses y demonios hechos a su
imagen, semejanza y, principalmente, a la altura de sus cobardías.
El primero,
presentado bajo el sello de la omnipotencia y la misericordia infinita, enseña
el perdón eterno, siempre que sea precedido por una sumisión absoluta. Es
descrito como el monarca supremo del universo, pero padece de una carencia casi
infantil de aplausos, exigiendo adoración a tiempo completo y rituales de
adulación para no descargar su ira.
Curiosamente,
esa misma divinidad mantiene un silencio obsequioso y una ausencia quirúrgica
en el plano material. No se manifiesta para salvar a sus fieles más devotos, a
los niños indefensos o a los animales sometidos a crueldades brutales. Aun
así, la ingeniosidad humana logra la proeza de culpar a la propia víctima: si
el milagro ocurre, alabado sea Dios; si la tragedia se consolida, "los
designios de Él son misteriosos". Es la única corporación del mundo
cuyo gerente nunca aparece, pero los clientes siguen defendiendo a la empresa y
pagando la mensualidad puntualmente. Se exige fe ante el vacío, obediencia ante
el abandono y gratitud por una realidad donde el dolor solo se alivia si el
propio hombre mueve un dedo.
El segundo
personaje, el Diablo, fue seleccionado para el papel más ingrato y útil de
todos: el chivo expiatorio cósmico. El Diablo es, sin duda, el empleado del
año de la psique humana, pues carga en sus espaldas con el fardo de todas las
canalladas que el hombre practica por libre y espontánea voluntad. Se
convirtió en el depósito aduanero de nuestra culpa. Si el individuo flaquea
ante sus impulsos más primitivos, no asume la responsabilidad; se declara
"víctima de la tentación", tercerizando el libre albedrío al
primerizo signo de tormenta.
La ironía
alcanza el ápice de la lógica cuando nos damos cuenta de que el supuesto mal
absoluto terminó siendo transformado, por el comportamiento humano, en un
personaje de una ética y elegancia admirables. Al fin y al cabo, a pesar de ser
pintado como el maestro de la venganza y del poder, el Diablo nunca bajó a
demandar a la humanidad por difamación, a pesar de ser culpado diariamente por
cada mentira, crimen y perversidad que los humanos inventan.
Él carga con
esa basura moral en silencio. El Diablo es un personaje increíblemente económico
y poco exigente: no cobra diezmo, no exige la construcción de catedrales
suntuosas, no instituyó una cláusula de adoración obligatoria ni montó franquicias
de explotación del miedo. No promete una salvación burocrática ni amenaza con
torturas eternas —tarea que, irónicamente, la propia industria de la fe ya
ejecuta con maestría y tablas de precios bien definidas.
En este
paradoja conveniente, injusto y vergonzoso, el Diablo termina demostrando una
integridad muy superior a la de sus creadores: al fin y al cabo, a diferencia
del hombre, jamás se ha tenido noticia de que haya intentado tercerizar sus
maldades o atribuido la culpa de sus actos a quienes lo acusan. Él
acepta el papel que le dieron en silencio, mientras la humanidad peca, echa la
culpa a la oscuridad y corre al altar para pedir un descuento en la punición.
En este escenario, el Diablo es el personaje más injusticiado de la
literatura humana: fue condenado a ser la sombra del hombre, para que el hombre
pueda seguir mintiéndose a sí mismo ante el espejo, jurando que es un ser de
luz.
Con esta mecánica,
la humanidad realizó su mayor obra maestra: una narrativa circular donde
ella misma peca, ella misma se culpa, ella misma se perdona y, en el proceso,
financia una de las industrias monopolísticas más lucrativas de la historia.
Multitudes son domesticadas desde la cuna por barreras geográficas y
culturales; si nacen en la India, adoran a un dios; si nacen en Occidente,
adoran a otro, pero todos con la misma certeza absoluta de que el vecino está redondamente
equivocado. Estas fantasías atraviesan siglos no porque resistan un minuto de lógica,
sino porque el miedo a la muerte y la necesidad de anestesia existencial son más
fuertes que el apetito por la verdad.
En el fondo,
Dios y el Diablo son solo el hemisferio derecho e izquierdo del egoísmo humano:
el deseo neurótico de control y pureza de un lado; la incapacidad de domar los
propios instintos del otro.
Somos el
animal simbólico que arquitecturó el cielo como un seguro de viaje contra la
muerte y proyectó el infierno como un látigo psicológico para disciplinar a los
vivos.
Fabricamos monstruos para explicar nuestros desvíos y esculpimos dioses para
sellar y validar nuestras ambiciones de poder.
Mientras este
engranaje de ilusiones autosustentables permanezca intacto, la humanidad
continuará operando en este teatro de marionetas cósmico. Continuaremos
llamando al cabestro conciencia, a la servidumbre espiritual virtud y al
delirio colectivo verdad —postergando por tiempo indeterminado el día en
que, finalmente, tengamos la valentía de caminar con nuestras propias y auténticas
piernas racionales.
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