Sábado, 24 de janeiro de 2026 - 08h15

A naturalidade
com que me comunico sobre este tema nasce da confiança de que, sendo sincero e
autêntico na exteriorização da indignação, é possível encontrar
equilíbrio
e transformar inquietação em consciência. Não escrevo para atacar pessoas,
ideologias ou nações, mas para harmonizar realidade e lucidez — e,
a partir disso, estimular soluções razoáveis, lógicas
e necessárias. A água é um desses temas diante
dos quais o silêncio não é neutralidade: é cumplicidade
com o colapso.
Amazônia: abundância que não mata a sede
A Amazônia concentra um
potencial hídrico imenso e simbólico. Ainda
assim, paradoxalmente, existe escassez de água potável em diversas regiões — sobretudo em períodos de cheia ou seca extrema. A água sobe, mas a qualidade despenca. Sem saneamento,
tratamento e gestão, a abundância vira risco: turbidez,
contaminação
fecal, resíduos e doenças de veiculação
hídrica.
Esse paradoxo revela uma verdade incômoda:
água
doce no território
não significa água
segura no copo.
Fiscalização ausente, futuro sacrificado
Essa realidade me faz
questionar quanto custa à nação brasileira —
em
impostos, abandono e atraso social — e o que tem
feito, de fato, a bancada amazônica, que reúne 118
parlamentares federais (27 senadores e 91 deputados federais), além
de 253 deputados estaduais e cerca de 7.000
a 11.000 vereadores na Amazônia Legal: algo entre
7.371 e 11.371 representantes eletivos diante de um quadro caótico, crônico e injustificável, onde a abundância hídrica
convive com precariedade, descaso e miséria persistente.
E recordemos: compete
ao Legislativo não apenas legislar, mas fiscalizar o Poder Executivo.
Ainda assim, o que se percebe é inércia, improviso e ausência de visão de longo prazo. Muitos
preferem ações imediatistas — de baixo impacto
estrutural, mas alto retorno eleitoral —
enquanto
o essencial, como saneamento, educação e proteção hídrica, é empurrado para depois, porque “não aparece” e não rende votos.
E é por isso que registro esta indagação, chamando à
responsabilidade moral, como um exercício gratuito de cidadania: não para
atacar por esporte, mas para exigir coerência, prioridades e resultados.
2003: o alerta era
preventivo — hoje é emergencial
Em 2003, encaminhei à ONU
uma sugestão propondo estudos para transformar os recursos hídricos em patrimônio
vital da humanidade, por serem essenciais à existência humana e, sobretudo, às
futuras gerações. Na época, o tema era
tratado por muitos como debate distante —
quase
uma precaução filosófica, como se o
tempo fosse infinito e os riscos fossem apenas teóricos.
Mas 23 anos se
passaram. De 2003 a 2026, o que era alerta preventivo tornou-se urgência concreta. A água já é fator de instabilidade, disputa e tensão,
inclusive em países ricos. Isso prova que o problema não é apenas natural —
é político, cultural e civilizacional.
E, diante dessa
realidade, lembro-me de uma imagem simbólica:
como se estivéssemos repetindo o erro coletivo da humanidade antes do dilúvio,
quando apenas os irracionais se salvaram entrando na arca — não por mérito, mas por instinto. O ser humano, supostamente
racional, segue ignorando sinais óbvios até que
a tragédia se imponha como professora brutal.
Naquela época,
em 2003, nem sequer sonhávamos contar com a eficácia
imprescindível
da Inteligência Artificial como ferramenta capaz de acelerar análises, ampliar
consciência, cruzar dados, prever cenários e orientar decisões. Hoje, essa
possibilidade existe — e justamente por isso,
o nível de responsabilidade moral é ainda maior: não
podemos alegar ignorância. Temos tecnologia, temos conhecimento, e já temos
sinais suficientes. Falta apenas o que sempre faltou: consciência coletiva, vontade política e coragem institucional para agir antes do
colapso.
Responsabilidade moral
e o desprezo pela autoria
Nascido na Amazônia e
tendo contribuído como mentor de propostas legislativas sobre o tema, sinto-me
moralmente obrigado a abordar este assunto com seriedade. Entre essas
iniciativas, uma das mais estratégicas foi a proposta de
integração de bacias hídricas entre diferentes regiões do
Brasil, para que o excedente das cheias amazônicas pudesse, com planejamento e
infraestrutura, levar água às regiões historicamente afetadas pela seca — como
partes do Nordeste, do Centro-Oeste e do Sudeste. O que frustra é constatar
que boas ideias, quando não são arquivadas, acabam muitas vezes apropriadas sem
sequer citarem a fonte — uma pirataria
intelectual oportunista e deplorável que
empobrece o debate público e enfraquece a ética
institucional.
A água está sendo
envenenada: um efeito em cascata silencioso
O planeta não está
apenas “ficando sem água”; está
comprometendo a água que possui. Rios e mananciais vêm sendo degradados por coliformes
fecais, despejo de esgoto sem tratamento, mercúrio, produtos químicos
industriais e agrícolas, além do descarte cotidiano
normalizado pela ausência de políticas firmes e efetiva fiscalização, nos moldes da eficiência mostrada na cobrança
de impostos.
A contaminação não para
no ponto de origem. Ela se espalha como um efeito dominó:
rios contaminam lagos, igarapés, aquíferos
e, por fim, oceanos — destruindo ecossistemas
e retornando ao ser humano pela cadeia alimentar. O que hoje muitos consideram “normal”
será, amanhã, a causa de doenças, colapsos sanitários e perdas irreparáveis.
Saneamento e transporte
fluvial: quando o inaceitável vira rotina
Em regiões onde o
transporte fluvial é predominante, a
realidade sanitária de muitas embarcações revela um problema que não pode ser
tratado como detalhe: a normalização do descarte de dejetos e águas servidas na
própria rede hidrográfica que sustenta a vida.
Esse
comportamento não
é apenas falta de estrutura — é também ausência de educação sanitária
e falência
de fiscalização. A região mais rica em água doce do planeta não deveria
conviver com práticas que transformam rios em esgoto a céu aberto.
Segurança aquífera:
proteger agora ou pagar um preço impossível depois
Segurança aquífera
merece destaque porque é dela
que depende não
apenas o presente, mas a sobrevivência futura. O custo da despoluição é altíssimo — e quanto mais poluímos hoje, mais caro,
complexo e até inviável será o tratamento
amanhã, caso queiramos transformar essa água em potável e colocá-la nas
torneiras com segurança.
Não basta invocar soberania nacional ou se declarar “dono” de reservas hídricas enquanto se fecha os olhos para o processo acelerado e absurdo de contaminação que vem sendo tolerado e normalizado. Água não é apenas território: é responsabilidade. E responsabilidade se mede por prevenção, fiscalização e consciência — não por discursos.

Crime por omissão: negligência institucional também mata
Existe uma palavra que
precisa ser dita com clareza: omissão também destrói.
Quando o Estado falha em fiscalizar, quando governos ignoram saneamento, quando
políticas públicas são relaxadas, precárias ou inexistentes, instala-se uma
forma silenciosa de crime — o crime por omissão.
E quando uma população
vive com baixa educação ambiental e sanitária, ela acaba, muitas vezes por
ignorância e abandono, contribuindo para agravar a contaminação. Assim, a soma
da negligência institucional com a falta de consciência coletiva produz um
futuro previsível: a crise explode e recai injustamente sobre as próximas
gerações.
Coerência antes do
discurso: sustentabilidade começa em casa
Nações que desejam
liderar discursos globais sobre sustentabilidade precisam, antes de tudo,
educar sua população e resolver seus próprios problemas
internos com políticas sérias, estratégicas
e de longo prazo.
Multilateralismo sem
dever de casa é teatro
É incoerente exigir
apoio externo sem conter a degradação promovida internamente. E é ainda
pior transformar a própria destruição
ambiental numa espécie de chantagem
indireta — como se o mundo tivesse obrigação de financiar
a contenção do caos que governos negligenciam e populações, sem educação, replicam.
A cooperação
internacional é importante, mas ela não substitui
responsabilidade nacional.
Educação e lei:
prioridade inadiável
A importância de
medidas educativas e de normas impositivas que enfrentem diretamente o despejo
de dejetos nos rios — sem complacência com a
devastação da vida aquática e dos oceanos —
deve
ser tratada como prioridade inadiável. Não se trata apenas de “preservar
a natureza”, mas de proteger um patrimônio vital que, no futuro, poderá ser
convertido, a custos altíssimos, em água potável para manter o planeta habitável.
Educação é a
base. Mas sem lei, punição e fiscalização real, o rio continuará sendo tratado
como lixeira. E quem paga a conta, no fim, é sempre o mais
vulnerável — ou o ainda não nascido.
O futuro sem água
segura: desconforto, doença e regressão
Um mundo sem água
segura não será apenas mais difícil. Será insalubre. A
escassez e a contaminação tornam a vida desconfortável, instável, desigual e
doente. A economia sofre, os conflitos aumentam, populações migram, e a
dignidade humana vira privilégio.
Se
a água colapsa, não colapsa apenas um setor: colapsa a própria
ideia de civilização.
A água é vida,
e vida não aceita improviso
O tempo de tratar
saneamento e proteção hídrica como
agenda secundária terminou. A crise da água é o assunto mais
sério do século porque não admite substitutos.
O que pode ser feito é simples — embora exija
vontade e
coragem:
• saneamento
como prioridade absoluta
• fiscalização
real e punição efetiva para crimes ambientais
• proteção
de mananciais e aquíferos como patrimônio vital
• educação sanitária e
ambiental desde a infância
• planejamento
de longo prazo acima de ciclos eleitorais e marketing
• responsabilidade
institucional com transparência e resultados
A pergunta final é inevitável: teremos maturidade para
agir agora, com prevenção e consciência — ou
deixaremos para nossos filhos e netos o destino cruel de sobreviver num planeta
envenenado por nossa negligência?
Porque o futuro não perdoa.
E a água, quando se perde, não volta como promessa.
Volta como ausência.
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