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Samuel Saraiva

A República da Raposa se revela e vira circo, quando a Justiça investiga… a si mesma


Imagem: Reprodução / G1 — informação amplamente divulgada na mídia nacional em 8 de abril de 2026. - Gente de Opinião
Imagem: Reprodução / G1 — informação amplamente divulgada na mídia nacional em 8 de abril de 2026.

Entre a ingenuidade conveniente e o descaramento institucional — há quem ainda acredite que o galinheiro está seguro. guardião virou predador do sistema que deveria protegermas se protege.

Quando o galinheiro vira sistema e a fiscalização se reduz a um exercício de conveniência institucional,  a razoabilidade se dissolve e o sistema passa a se sustentar na própria distorção

Será que perdi a noção… ou estamos todos assistindo, com naturalidade inquietante, à normalização do absurdo?

Quando cifras milionárias gravitam ao redor das mais altas esferas do poder e nomes sensíveis entram no radar público, o que se espera de uma República minimamente séria?

Rigor, investigação independente e transparência irrestrita.

Mas não.

O que se observa, com uma previsibilidade quase didática, é o refinamento de um mecanismo antigo:

a blindagem institucional travestida de normalidade.

E não deixa de ser irônico para não dizer revelador que, há 19 anos, na condição de cidadão, encaminhei ao então presidente da CCJ do Senado, o senador Bernardo Cabral, a sugestão de um estudo sobre a necessidade de controle externo do Judiciário.

O parecer técnico veio com a tranquilidade de quem acredita no improvável:

o controle interno vigente seria plenamente suficiente.

Em outras palavras, concluiu-se com seriedade acadêmica e conforto institucional que:

uma raposa é perfeitamente capaz de investigar outramesmo após o desaparecimento das galinhas e dos pintinhos.

Ingenuidade, identificação com a imoralidade, má fé

ou um grau elevado de sofisticação na arte de fingir que o problema não existe?

Porque o modelo, na prática, parece simples:

quem deveria ser fiscalizado participa do próprio processo de fiscalização

quem deveria esclarecer, frequentemente se resguarda

e quem ousa questionarpassa a ser o inconveniente da história

E é aqui que o fenômeno se revela em sua forma mais pura:

o corporativismo não como desvio mas como engrenagem.

Não se trata de afirmar culpa sem prova.

Isso seria leviano.

Mas também não se trata de aceitar silêncio como resposta.

Isso seria conveniente demais.

O problema não está apenas nos fatos

mas na forma como eles são (ou deixam de ser) enfrentados.

Porque, quando suspeitas relevantes não produzem reações proporcionais,

quando o desconforto institucional é seletivo,

quando a transparência se torna opcional

o que se compromete não é apenas um caso isolado

é a própria confiança pública na Justiça.

E aqui surge o ponto mais incômodo aquele que muitos preferem não encarar:

Como esperar que a Justiça puna com autoridade moral o criminoso comum,

se, nos níveis mais altos, a percepção pública passa a enxergar proteção onde deveria haver rigor?

Mas talvez o mais curioso e ao mesmo tempo preocupante

não esteja apenas nas estruturas.

Está também nas reações.

uma parcela da sociedade que, por uma espécie de cegueira intelectual de nascença — ou confortavelmente adquirida , se apressa em defender o indefensável, relativizar o questionável e atacar qualquer tentativa de escrutínio.

Não investigam.

Não questionam.

Não ponderam.

Apenas aderem.

São os fiéis de uma lógica curiosa:

se está no topo, deve estar certo e quem duvida, incomoda.

Transformam suspeitas em tabu,

questionamentos em heresia,

e a crítica em ofensa.

E assim, entre a passividade e a conveniência, ajudam a sustentar exatamente aquilo que, em tese, deveriam repudiar.

Talvez apenas talvez a proposta de 19 anos atrás não fosse exagero,

mas um alerta prematuro ignorado com a tranquilidade de quem acredita que sistemas se autocorrigemmesmo quando não querem.

Hoje, a realidade parece menos teórica e mais didática.

E a pergunta que permanece, incômoda e insistente, é simples:

quem vigia os vigilantesquando os vigilantes contam com a proteção daqueles que se recusam a enxergar?

Quando o galinheiro vira sistema e a fiscalização se torna conveniência institucional, sustentada por quem renunciou a raciocinar livremente com alguma razoabilidade. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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