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Samuel Saraiva

A República da Conveniência: Quando o Absurdo Veste Toga, e ignorantes os inocentam

A corrupção endêmica deixou de ser um desvio — tornou-se método. Não mais exceção, mas engrenagem. Um sistema que, ao invés de combater o vício, parece administrá-lo com requintes de sofisticação institucional.


A República da Conveniência: Quando o Absurdo Veste Toga, e ignorantes os inocentam - Gente de Opinião

Os protagonistas desse enredo parecem apostar em algo perigoso: a crença de que toda a sociedade é incapaz de perceber o óbvio.

A narrativa oficial exige fé — não evidência. Exige adesão — não questionamento. E, sobretudo, depende de um público disposto a aceitar versões frágeis, sustentadas mais pela conveniência ideológica do que pela coerência lógica.

Afinal, para que explicações robustas, se meias verdades bem embaladas ainda encontram abrigo na ignorância cultivada, no fanatismo conveniente e na preguiça intelectual de quem terceiriza o próprio pensamento?

Cria-se, assim, uma massa de defensores ultracrepidários — aqueles que opinam sobre tudo, sem compreender quase nada — prontos a justificar o injustificável, desde que a narrativa sirva ao seu lado.

Enquanto isso, decisões, encontros e movimentações se acumulam em um padrão que já não permite dissociação honesta. Foram longe demais. A coincidência, quando repetida à exaustão, deixa de ser acaso e passa a ser método.

E que método curioso: um modus operandi que lembra estruturas organizadas de poder — com a diferença sutil de que aqui se opera sob o manto da legalidade formal.
Não é o crime clássico — é o crime oficializado, institucionalizado, com carimbo, assinatura e verniz de legitimidade.

Quando a República veste toga — e não se submete ao controle vigilante da sociedade — deixa de ser guardiã e passa a ser cúmplice.

Soma-se, então, aos mesmos agentes que deveriam ser fiscalizados: um Executivo e um Legislativo, não raras vezes capturados por interesses próprios, agindo como lobos famintos, disputando e drenando os recursos que deveriam proteger justamente os brasileiros mais vulneráveis.

E nesse banquete ruidoso, quem paga a conta não participa da mesa.

Quando se tenta limitar instrumentos como a delação premiada — curiosamente em momentos estratégicos — não se trata apenas de técnica jurídica.
Trata-se de controle de danos. De contenção narrativa. De proteção seletiva.

E então surge a pergunta que ecoa, incômoda e inevitável:
quem realmente se beneficia do silêncio?

A resposta, para muitos, já está dada — ainda que não oficialmente reconhecida.

Mas há algo ainda mais revelador: a confiança quase arrogante de que tudo isso passará sem resistência significativa.De que a sociedade, em sua maioria, continuará anestesiada, satisfeita com explicações frágeis e discursos reciclados.

Talvez essa seja a maior aposta de todas — e também o maior erro.

Porque, quando o absurdo se torna evidente demais, nem mesmo a retórica mais bem ensaiada consegue sustentá-lo indefinidamente.

E quando a realidade rompe o roteiro… não há narrativa que a contenha.

 

O Silêncio das Instituições

Por onde andam instituições como a OAB, a ABI e tantas outras que, por dever ético, deveriam ser arautos da justiça e da sociedade?

Estariam adormecidas ao som de um mar sereno, sob a luz suave de um céu profundo — ou simplesmente indiferentes à realidade que as convoca?

O silêncio, quando vindo de quem deveria se manifestar, deixa de ser neutralidade — passa a ser omissão.

E a omissão, nesses casos, não é ausência de voz.
É escolha.

Diante de tensões institucionais, de questionamentos legítimos e de uma sociedade que clama por equilíbrio e responsabilidade, espera-se mais do que contemplação — espera-se posicionamento.

Porque há um ponto em que o silêncio já não protege instituições.
Apenas expõe sua desconexão com o próprio propósito.

E então a pergunta se impõe, inevitável:

por que tanto silêncio?

 

Juízo Crítico Inevitável

Até quando indivíduos abdicarão da própria consciência para servir de instrumento à imoralidade — sacrificando a imparcialidade no altar de uma desonestidade vergonhosa, disfarçada de ideologia?

E o Brasil sangra — dilacerado nas garras de aves de rapina, guiadas não por nação, mas por interesse; onde o sentimento nacional não passa de máscara, vestida apenas nos palcos eleitorais do falso patriotismo.

E esse carma persistirá, castigando o país, enquanto seus algozes se alternam no poder — aprisionando-se mutuamente a cada mudança de governo, em um ciclo de mesmice eterna.

 

Entre a Corrupção e a Negação: O Espelho do Brasil

O que há de errado na sociedade brasileira?
O que explica a recorrência quase cíclica da corrupção?
Por que não faz parte da cultura política que agentes públicos assumam seus próprios erros?
Por que tantos, mesmo diante de investigações e evidências, insistem — com impressionante naturalidade — em declarar-se inocentes?

 

Não se trata de casos isolados.

Desde Fernando Collor de Mello, o país assistiu a um fenômeno inquietante: três ex-presidentes foram presos — Luiz Inácio Lula da Silva, Michel Temer e o próprio Collor — e dois sofreram impeachment: Collor e Dilma Rousseff.

As prisões ocorreram após os mandatos, em grande parte relacionadas a corrupção e lavagem de dinheiro, evidenciando um ciclo persistente e estrutural — não episódico.

No estado do Rio de Janeiro, o quadro é ainda mais simbólico: nas últimas três décadas, praticamente todos os governadores eleitos foram presos ou afastados do cargo. Em outros estados da federação, o fenômeno — ou carma — repete-se com frequência alarmante.

Diante disso, as perguntas deixam de ser retóricas e passam a ser urgentes:

           Estamos diante de falhas individuais… ou de um sistema que normaliza desvios?

           A impunidade é exceção — ou parte silenciosa do mecanismo?

           O problema está apenas nos governantes… ou também na tolerância social que os sustenta?

           Até que ponto a indignação coletiva se transforma, de fato, em mudança estrutural?

Porque, no fim, a questão mais desconfortável permanece:

Quem sustenta o ciclo — os que corrompem… ou os que, conscientes ou não, permitem que ele cont

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