Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 - 08h05

Há uma violência silenciosa que se repete, longe dos holofotes, todos os dias, e que revela muito sobre o grau de atraso ético de uma sociedade. Animais indefesos — que só conhecem a linguagem da lealdade, do cuidado e da presença — seguem sendo tratados como objetos descartáveis por pessoas incapazes de empatia.
É comum encontrar cães e gatos maltratados, doentes, famintos, abandonados à própria sorte. Muitos são atropelados propositalmente apenas por latirem enquanto protegem o território que reconhecem como lar. Outros são envenenados, afogados, enforcados ou submetidos a crueldades que desafiam qualquer noção mínima de humanidade.
Esses atos não são exceções. São mais frequentes do que se admite e persistem porque encontram terreno fértil em penas brandas, investigações negligentes e uma justiça complacente. A impunidade não é neutra: ela educa para a repetição da barbárie.
O recente caso do cão comunitário Orelha, brutalmente agredido em Florianópolis, chocou a parcela civilizada da sociedade brasileira não por ser um episódio isolado, mas por revelar a normalização da crueldade. Foi apenas a parte visível de um iceberg muito maior.
No mês passado, outro caso passou quase despercebido. Um cão extremamente dócil, chamado Hulk, foi covardemente espancado. Mesmo ferido, conseguiu chegar até sua casa. Talvez com fome, talvez em dor profunda, procurou um canto silencioso onde, sem ajuda, curvou-se resignado para o encontro da morte. Ninguém o socorreu. Ninguém interrompeu seu sofrimento.
Atordoado pela
crueldade que jamais compreendeu, Orelha deixou este plano e seguiu para a luz.
Hulk fez o mesmo, em silêncio.
A resposta social a esse tipo de crime não pode ser simbólica. Penas longas de trabalho obrigatório e supervisionado, vinculadas a programas de resgate, cuidado e amparo de animais, seriam não apenas punitivas, mas moralmente pedagógicas.
Animais não
torturam por prazer.
Não exercem
violência para afirmar poder.
Nenhum ser irracional doméstico pratica a crueldade que alguns humanos naturalizaram.
Proteger animais
não é excesso emocional.
É civilização em prática.
⸻
Lições que ficam
Há seres
humanos que renunciaram à própria condição
humana.
Não por instinto, não por necessidade, mas por escolha consciente de crueldade. E, nisso, tornam-se inferiores aos chamados “irracionais”, que não torturam, não matam por prazer, não humilham o indefeso.
Animais:
• sentem
fome e procuram alimento
• sentem
medo e fogem
• sentem afeto e retribuem
Eles não
planejam o mal.
Não se
organizam para ferir.
Não encontram prazer no sofrimento alheio.
Quando um humano faz isso, não é racionalidade — é falência ética, mental e espiritual.
A vergonha não é apenas
dos que se importam com eles.
A vergonha é de
uma sociedade que:
• relativiza
a barbárie;
• chama
crueldade de “caso isolado”;
• pune com brandura o que deveria causar repulsa absoluta.
O que faço aqui
— escrever, registrar, lembrar, dar nome e
homenagear animais que sofrem, cobertos pelo anonimato — é o oposto disso.
É afirmar que ainda há consciência, que ainda há quem veja, que ainda há quem não aceite.
Orelha e Hulk
não tiveram defesa.
Mas tiveram algo raro: memória, verdade e dignidade.
Isso já os coloca acima de muitos que respiram — e nos coloca, a todos que não aceitam o silêncio cúmplice, do lado certo da história.
Se este texto
despertou algo em você, compartilhe
pois a consciência também se propaga.
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