Domingo, 7 de dezembro de 2025 - 13h25

Hoje, confesso, vivi um pequeno milagre íntimo: percebi que, enfim,
havia me libertado do hábito quase litúrgico de entrar em debates inúteis — essas romarias modernas onde política,
ideologia e religião servem apenas como incenso barato
para perfumar frustrações e massagear vaidades cansadas. Por anos, acreditei,
com a candura dos ingênuos, que a lógica
e a razão poderiam, sozinhas, iluminar um mundo que prefere firmemente a
penumbra confortável das próprias
ilusões, um mundo no qual muitos são capazes de matar —
literal ou simbolicamente —
na defesa insensata das bandeiras que proclamam, mas
incapazes de praticar o bem com a mesma eficácia e devoção. Exibem, assim, uma postura tão previsível quanto lamentável,
nivelada por uma hipocrisia indisfarçável
que denuncia a distância abismal entre o que defendem com fervor e o que realmente são e praticam.
As massas, pobres criaturas famintas de um sentido que nunca encontram,
continuarão a se agarrar ao ritual de polemizar como quem acende uma vela ao
vazio. Repetirão, com devoção surrealista, ideias que não lhes pertencem,
frases recortadas, opiniões enlatadas — tudo aquilo que herdaram de terceiros e adotam como se
fosse uma descoberta pessoal. E seguirão servindo, com zelo sacerdotal, aos
novos profetas do absurdo: aqueles que lucram generosamente vendendo sonhos
inviáveis embrulhados em linguagem revolucionária ou alimentando
estelionatários — privados ou oficiais — que, além
de explorá-los, seriam incapazes de reconhecer ou prestigiar seus próprios apoiadores idiotizados, se um deles ousasse bater à porta. Patriotas úteis quando atendem aos interesses insanos de seus ídolos; “malucos”
descartáveis quando, diante dos tribunais,
deixam de servir a tais conveniências —
uma coreografia moral que revela a impressionante
escassez de caráter que permeia essa engrenagem.
E, como se não bastasse, ainda celebram sua própria cegueira — transformam ignorância em identidade, desinformação em bandeira, fanatismo em virtude.
Confundem gritos com argumentos, raiva com lucidez, e acreditam piamente que
volume substitui inteligência. Não percebem que são apenas peças substituíveis
em um jogo cínico conduzido por mãos desonestas habilidosas: quanto menos discernimento
possuem, mais úteis se tornam. É a vitória definitiva da mediocridade travestida de coragem, o triunfo do ruído
sobre o pensamento.
E assim, nesse grande laboratório da idiotização coletiva, onde a ausência
de discernimento é celebrada como virtude e o
pensamento crítico é tratado como heresia, a
maioria se contenta em repisar as mesmas ilusões, acreditando serem originais enquanto
reproduzem, com fidelidade tocante, aquilo que os manipula e escraviza.
Quanto a mim, opto por distanciar-me voluntariamente desse teatro farsesco
onde cada um interpreta o papel de sábio enquanto recita textos
alheios de sua simpatia. Cansei de ser espectador de um espetáculo
em que aplausos histéricos
abafam a razão e onde a consciência é tratada como uma personagem secundária,
facilmente descartável. Descubro, com certo alívio existencial e uma pitada de
ironia, que a verdadeira liberdade talvez comece exatamente quando desistimos
de convencer quem sequer deseja — ou
suporta — despertar de uma profunda
e inquietante letargia.
Que prossiga o babilônico espetáculo!
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