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Samuel Saraiva

A Ignorância Elevada ao Status de Arte por Idiotas Entusiasmados


A Ignorância Elevada ao Status de Arte por Idiotas Entusiasmados              - Gente de Opinião

Hoje, confesso, vivi um pequeno milagre íntimo: percebi que, enfim, havia me libertado do hábito quase litúrgico de entrar em debates inúteis essas romarias modernas onde política, ideologia e religião servem apenas como incenso barato para perfumar frustrações e massagear vaidades cansadas. Por anos, acreditei, com a candura dos ingênuos, que a lógica e a razão poderiam, sozinhas, iluminar um mundo que prefere firmemente a penumbra confortável das próprias ilusões, um mundo no qual muitos são capazes de matar literal ou simbolicamente na defesa insensata das bandeiras que proclamam, mas incapazes de praticar o bem com a mesma eficácia e devoção. Exibem, assim, uma postura tão previsível quanto lamentável, nivelada por uma hipocrisia indisfarçável que denuncia a distância abismal entre o que defendem com fervor e o que realmente são e praticam.

As massas, pobres criaturas famintas de um sentido que nunca encontram, continuarão a se agarrar ao ritual de polemizar como quem acende uma vela ao vazio. Repetirão, com devoção surrealista, ideias que não lhes pertencem, frases recortadas, opiniões enlatadas tudo aquilo que herdaram de terceiros e adotam como se fosse uma descoberta pessoal. E seguirão servindo, com zelo sacerdotal, aos novos profetas do absurdo: aqueles que lucram generosamente vendendo sonhos inviáveis embrulhados em linguagem revolucionária ou alimentando estelionatários privados ou oficiais que, além de explorá-los, seriam incapazes de reconhecer ou prestigiar seus próprios apoiadores idiotizados, se um deles ousasse bater à porta. Patriotas úteis quando atendem aos interesses insanos de seus ídolos; malucosdescartáveis quando, diante dos tribunais, deixam de servir a tais conveniências uma coreografia moral que revela a impressionante escassez de caráter que permeia essa engrenagem.

E, como se não bastasse, ainda celebram sua própria cegueira transformam ignorância em identidade, desinformação em bandeira, fanatismo em virtude. Confundem gritos com argumentos, raiva com lucidez, e acreditam piamente que volume substitui inteligência. Não percebem que são apenas peças substituíveis em um jogo cínico conduzido por mãos desonestas habilidosas: quanto menos discernimento possuem, mais úteis se tornam. É a vitória definitiva da mediocridade travestida de coragem, o triunfo do ruído sobre o pensamento.

E assim, nesse grande laboratório da idiotização coletiva, onde a ausência de discernimento é celebrada como virtude e o pensamento crítico é tratado como heresia, a maioria se contenta em repisar as mesmas ilusões, acreditando serem originais enquanto reproduzem, com fidelidade tocante, aquilo que os manipula e escraviza.

Quanto a mim, opto por distanciar-me voluntariamente desse teatro farsesco onde cada um interpreta o papel de sábio enquanto recita textos alheios de sua simpatia. Cansei de ser espectador de um espetáculo em que aplausos histéricos abafam a razão e onde a consciência é tratada como uma personagem secundária, facilmente descartável. Descubro, com certo alívio existencial e uma pitada de ironia, que a verdadeira liberdade talvez comece exatamente quando desistimos de convencer quem sequer deseja ou suporta despertar de uma profunda e inquietante letargia.

Que prossiga o babilônico espetáculo!

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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