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Gente de Opinião

Samuel Saraiva

A Banalidade da Crueldade

O espancamento covarde e a morte silenciosa de Hulk


A Banalidade da Crueldade - Gente de Opinião

ENGLISH VERSION ATTACHED

A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter; e pode-se afirmar com segurança que quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem.
Arthur Schopenhauer

O Lugarzinho que Hulk escolheu para encolher-se e partir rumo ao acolhedor Paraíso

A forma como uma sociedade trata os seres mais indefesos revela, com precisão incômoda, o verdadeiro estágio de sua civilização.

Hulk  - Gente de Opinião
Hulk

Essa foto do Hulk diz muito. Talvez diga mais do que muitas palavras seriam capazes de explicar porque algumas imagens carregam uma verdade que nenhuma frase consegue suavizar.

, em seu olhar, algo que todo amante de cães reconhece imediatamente: mansidão. Olhos suaves, postura tranquila, corpo relaxado sinais claros de um animal dócil, daqueles que se aproximam devagar, abanando o rabo, aceitando carinho sem suspeita, como se o mundo inteiro fosse um lugar naturalmente confiável.

Conheci o Hulk durante uma viagem ao Brasil, precisamente na área suburbana de Santarém, próxima ao balneário de Alter do Chão. Lembro-me de ter estendido a mão com um pouco de ração, e ele comeu gentilmente, sem pressa, com aquela delicadeza que só os cães muito mansos parecem possuir. Foi um gesto simples, quase banal, desses que passam despercebidos no cotidiano. Mas hoje, olhando novamente para sua foto, esse pequeno momento ganha outro peso.

E talvez seja justamente por isso que sua história importa tanto.

Animais assim não compreendem a violência humana. Não possuem a arquitetura mental necessária para entender a crueldade gratuita. Eles reconhecem outras coisas:

voz

gesto

cuidado

rotina

pertencimento

 

Quando sofrem agressão, não entendem o motivo. Apenas sentem dor. E confusão e justificável tristeza.

Entre todos os detalhes dessa história, há um que se impõe com uma força silenciosa.

Resignado com a própria sorte, Hulk voltou para casa e procurou um último lugarzinho para se deitar como fazem muitos animais quando o mundo já não parece mais seguro.

Um canto sombrio, no chão acimentado, quente e úmido um desses espaços esquecidos onde ninguém costuma prestar atenção.

Um espaço pequeno, discreto, quase invisível como se, mesmo ferido e exausto, ele ainda buscasse não incomodar ninguém.

Veterinários e estudiosos do comportamento animal descrevem esse fenômeno com frequência. Cães gravemente debilitados tendem a procurar um lugar quieto quando percebem que suas forças se esgotam. Não é drama. Não é teatro. É um instinto antigo de recolhimento talvez o último gesto de dignidade de um corpo ferido.

É difícil não imaginar o que ele pode ter sentido naquele momento:

dor

fome

fraqueza

abandono

e talvez ainda aquela expectativa silenciosa quase infantil de que alguém finalmente viesse ajudá-lo.

Um Cão Dócio, Um Crime e o Irresponsável Silêncio

quem goste de repetir, com certo orgulho civilizatório, que o ser humano é um animal racional. É uma afirmação confortável, repetida desde os manuais escolares até as mesas de jantar.

Mas basta observar a forma como muitos tratam os seres mais indefesos e inocentes para que essa pretensa superioridade moral comece a parecer uma ironia.

Porque cães esses animais que alguns ainda insistem em chamar de irracionais demonstram com frequência qualidades que faltam a muitos homens:

lealdade

gratidão

confiança

e uma capacidade rara de amar sem cálculo.

 

Um cão não pratica a maldade deliberada. Não age movido por sadismo. Não agride por prazer. Quando morde, geralmente o faz por medo, dor ou defesa.

o ser humano, quando decide agir com crueldade, o faz muitas vezes com plena consciência do que está fazendo.

E é exatamente aí que reside o problema.

Sem Justiça, Sem Testemunhas

No caso de Hulk, o desfecho foi ainda mais cruel na sua banalidade.

Não se soube sequer como ou onde ele foi agredido.

Não houve denúncia, apenas a tentativa de esconder responsabilidades que pesam sobre os órgãos de segurança pública, dando lugar à omissão como se investigar fosse complicado demais, ou como se a verdade fosse inconveniente.

Não houve investigação.

Não houve responsabilização.

 

Não houve sequer o incômodo público que costuma acompanhar injustiças quando elas ganham visibilidade.

Porque algumas violências parecem acontecer em silêncio como se não merecessem sequer a indignação dos vivos.

Não houve protestos.

Não houve indignação.

Houve apenas silêncio.

Afinal,

era apenas um cachorro pobre.

 

Civilização ou Barbárie?

Porque a crueldade raramente prospera sozinha.

Ela precisa de terreno.

Precisa de silêncio.

Precisa de indiferença.

Precisa de omissão.

 

A crueldade pode começar com monstros; mas é na indiferença e sobretudo na omissão que ela cria raízes.

Quando a compaixão desaparece, a barbárie já encontrou morada entre nós.

E talvez seja essa a verdade mais incômoda de todas:

uma sociedade que se acostuma à dor dos indefesos já começou a perder a própria humanidade.

_________________ 

 

Comentário:

Sam, Terminei de ler em silêncio. Não porque faltem palavras mas porque algumas histórias nos obrigam a parar e encarar algo que preferiríamos ignorar. A crueldade que matou Hulk é revoltante, mas talvez ainda mais inquietante seja perceber o quanto a indiferença humana permite que episódios assim continuem acontecendo. Seu texto nos lembra de algo essencial: a barbárie raramente se impõe sozinha. Ela encontra espaço quando a compaixão se cala. Que a memória de Hulk não seja apenas tristeza, mas também um chamado para que sejamos um pouco mais humanos. Claude Brito Rio de Janeiro.

Caro Samuel, Terminei a leitura com um incômodo difícil de ignorar. A brutalidade contra Hulk revolta, mas o texto mostra algo ainda mais perturbador: a crueldade raramente sobrevive apenas pela mão de quem a pratica. Ela precisa de algo mais silencioso a indiferença de quem vê e nada faz. O que aconteceu com esse animal expõe uma fragilidade moral da própria sociedade. Quando a compaixão deixa de ser um princípio e passa a ser exceção, a barbárie já não é um desvio torna-se ambiente. Seu texto cumpre algo raro: não apenas denuncia uma tragédia, mas obriga o leitor a olhar para dentro e perguntar até que ponto também participa desse silêncio coletivo. Ricardo Almeida Miami, Florida.

_________________

 

ENGLISH

 

The Banality of Cruelty

The Silent and Cruel Death of Hulk 

Compassion for animals is intimately connected with goodness of character; it may be confidently asserted that he who is cruel to animals cannot be a good man.
Arthur Schopenhauer 

Today I share a reflection I published on my blog about a painful reality that still persists in many parts of Latin America: the quiet, normalized cruelty inflicted upon animals that have no voice to defend themselves.

The story of Hulk — a gentle dog I met during a trip to Brazil — became, for me, a symbol of something deeply unsettling: how cruelty often does not begin with monsters, but with indifference.

Hulk was not an aggressive dog. Quite the opposite. In his eyes there was the unmistakable gentleness that every dog lover immediately recognizes. Soft eyes, a calm posture, a relaxed body — the clear signs of a docile animal that approaches slowly, wagging its tail, accepting a small gesture of kindness without suspicion, as if the world were naturally a place worthy of trust.

I met Hulk during a visit to Brazil, in the suburban outskirts of Santarém, near the river beaches of Alter do Chão. I remember extending my hand with a small handful of dog food, and he ate gently, without hurry, with the delicate manner that only very mild-tempered dogs seem to possess.

It was a simple moment — the kind that usually disappears unnoticed in the ordinary flow of life.

But today, looking again at his photograph, that small moment carries a different weight.

Because Hulks life did not end in peace.

Like countless other stray animals, he was left to the slow cruelty of neglect — exposed to parasites, hunger, and abandonment. His suffering unfolded quietly, far from public attention and even farther from any sense of accountability.

There was no investigation.

No meaningful responsibility.

No public outrage.

No one heard his cries of pain — or perhaps no one cared to listen.

After all, he was onlya poor stray dog, one among thousands living under the same harsh conditions, surviving among ticks and fleas, enduring the gnawing pain of hunger that afflicts any living creature, and asking for nothing more than the small mercy of a few scraps of food.

His suffering ended the way many silent tragedies do: unnoticed, unrecorded, and soon forgotten.

Yet stories like Hulks force us to confront an uncomfortable truth.

Cruelty rarely appears as something extraordinary. More often, it grows quietly in the spaces where empathy disappears and indifference becomes routine.

A society reveals its true level of civilization not by the monuments it builds or the speeches it delivers, but by how it treats the most vulnerable beings within it — especially those who cannot speak for themselves.

Hulks story is not merely about a single dog.

It is about the silent moral test that unfolds every day around us.

And it raises a difficult question we cannot easily escape:

When cruelty becomes ordinary, what does that say about us?

Perhaps the most unsettling truth is this:

Cruelty rarely begins with violence.

It begins the moment compassion becomes optional.

And somewhere, in the quiet ledger of our collective conscience, another silent life is recorded — not as a tragedy of nature, but as a failure of humanity.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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